ENTREVISTA

EXÍMIO OBSERVADOR, AGUERRIDO PENSADOR

EXÍMIO OBSERVADOR, AGUERRIDO PENSADOR

Publicada há 6 anos

Por Gil Piva 


Para o jornalista e cientista político português João Pereira Coutinho, refletir e escrever sobre a atualidade é mais que um ofício,é uma obsessão


João Pereira Coutinho 



Escritor, cientista político, professor da Universidade Católica Portuguesa, João Pereira Coutinho também é colunista da Folha de S. Paulo, autor dos livros As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (2014), Vamos ao que interessa (2015) e coautor de Por que virei à direita (2012), todos publicados pela Três Estrelas. Em entrevista exclusiva para o caderno Cultura!, Coutinho discorre sobre questões políticas, acontecimentos que marcam a modernidade e de sua paixão pela literatura.


• No cenário político atual, onde temos, numa livre comparação, a “mão firme” de Donald Trump e o discurso também rígido do pré-candidato Jair Bolsonaro (que agora tenta se mostrar liberal, de certa forma), não seria exagero dizer que esses comportamentos estão se tornando prerrogativas para uma boa atuação nas eleições? Por que isso?

Porque faz parte da natureza das massas desejar um líder “forte”, “carismático”, “messiânico”, capaz de redimir a triste condição dos alienados. Sempre assim foi, sempre assim será.


• Em vista disso, você não acha, pelo menos no Brasil, que as oposições políticas acabam se transformando em doutrinação?

Toda a política é doutrinação. Ninguém espera grande sofisticação intelectual na luta política. Basta lembrar o destino dos filósofos clássicos que tentaram educar tiranos. O problema é que hoje vivemos em “democracias mediáticas”, onde a rapidez e o impacto da mensagem é mais importante do que a seriedade ou a substância. Trump é um caso. Oprah Winfrey poderia ser outro — e não excluo nada para 2020. No curto prazo, seremos governados por concorrentes do Big Brother.


• Parafraseando Sartre, isso equivaleria a dizer que tanto uma real mediação de interesses políticos quanto a transição de propostas estruturadas estacionaram, e o que resta agora é encontrar um novo método de ilusão?

Os meios para comunicar são novos, a mensagem é velha. Estamos a testemunhar um regresso do pensamento tribal à política, que tem como consequência a degradação do indivíduo como agente histórico e moral. Isso é comum à esquerda e à direita, independentemente de estarmos a falar de “políticas de identidade” ou de “nacionalismos” vários. Eu julgava que, depois do século 20, esse tipo de política estava no caixote do lixo da história. Claramente, enganei-me.


• Como, por exemplo, acreditar que a ditadura (supondo que o Bolsonaro a traga de volta) seja algo salvacionista, ou ainda vislumbrar uma presumida inocência (‘ad aeternum’) para o ex-presidente Lula?

É preciso entender que os apoiantes fanáticos de um e outro não são propriamente agentes racionais. São crentes pseudorreligiosos, para quem qualquer imperfeição é secundária — ou, pior, culpa do adversário. É difícil dialogar com gente assim. O melhor que podemos fazer, ou esperar, é que nenhum dos lados chegue ao poder.

• ...O que me remete a Dalrymple, quando escreveu que para se ter medidas adequadas para solucionar problemas, “o tamanho e a importância do governo teriam de se reduzir, e não aumentar. Pelos megalomaníacos, isso jamais seria feito”...

O meu amigo Bruno Garschagen explicou muito bem esse paradoxo no seu Pare de Acreditar no Governo. As pessoas desconfiam dos políticos; mas querem sempre mais intervenção do governo. Na cabeça das massas, “políticos” e “governo” são duas realidades separadas. Nem é preciso comentar.


• Em seu livro “As ideias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários”, você ressalta que “o reconhecimento da imperfeição intelectual humana convida assim o agente conservador para uma conduta humilde e prudente que recusa a política utópica”. Poderia explicar melhor?

Melhor, talvez não. Mas de outra forma: se partimos do pressuposto de que todos somos intelectualmente imperfeitos, não há nenhum motivo para acreditar que um membro da nossa espécie, um macaco como nós, tem um acesso especial à perfeição. Se assim é, governar é ser menos ambicioso, mais prudente, mais humilde. Podemos ensinar um macaco a andar de bicicleta. Mas é imprudente emprestar-lhe o carro.


• Há alguns anos, no Brasil, grandes articuladores conservadores estão sendo mais bem recebidos: Roger Scruton, Theodore Dalrymple, John Gray, inclusive seu colega Luiz Felipe Pondé. A que atribui essa retomada do pensamento conservador no Brasil?

Primeiro, é uma questão geracional: há brasileiros para quem “ser de direita” já não é motivo de complexo ideológico especial. Com essa normalização, acontece o que normalmente acontece em qualquer sociedade civilizada: o pluralismo de valores e de fins de vida. Por outro lado, é uma questão estilística: há nesses autores uma elegância e um sentido de humor que é mais difícil de encontrar à esquerda, onde o tom jacobino é inconfundível.


• Muitos escritores e intelectuais iniciaram suas carreiras como marxistas (Camus, Italo Calvino, Christopher Hitchens), mas mudaram de opinião ao longo da vida; depois foi a vez de outros tantos romperem com o regime de Fidel Castro (Cabrera Infante, Saramago, Mario Vargas Llosa). E você, manteve, em sua precocidade intelectual, algum flerte desse tipo?

Nunca. Há uns anos, a Três Estrelas publicou um livro intitulado Por que virei à direita, onde fui um dos autores. E alguns amigos em Portugal perguntavam-me: “Mas tu foste de esquerda para virares à direita?” Eu ria-me. Em Portugal esse título pode induzir o erro. Na minha “precocidade”, não pensava especialmente em política. Aliás, formei-me em história da arte. Só cheguei à política por entender que a única forma de ter uma vida tolerável é quando o problema político está resolvido, ou pelo menos controlado. E, para mim, o que eu espero da política é muito semelhante ao que eu espero dos lixeiros que passam na minha rua à noite. Que recolham o lixo. Que mantenham a rua transitável. Mas que não interfiram grandemente na minha vida, muito menos na forma como eu a desejo viver.


• Presenciamos o fracasso de grandes utopias (movimento hippie, revoluções socialistas) e as distopias clássicas (“1984” e “Admirável mundo novo”), em parte, se cumpriram. Vamos viver num mundo distópico, ou a sociedade, de algum modo, sempre retoma os caminhos da utopia?...

Se a história ensina alguma coisa é que a sociedade sempre retoma os caminhos da utopia. A cabeça analfabeta olha em volta. Vê um mundo que não é perfeito. E então procura uma solução mágica, mesmo que essa solução implique a morte de milhares ou milhões de seres humanos. Um utopista é muito parecido com uma criança nas birras e nas fantasias.

• ...O escritor Leonardo Padura, ano passado, no Brasil, disse que “precisamos refundar a utopia”.

Não sei em que contexto ele disse isso. Só concebo utopias individuais, procuras individuais de um sonho qualquer, desde que isso não implique a submissão dos outros aos meus sonhos. Até porque os meus sonhos, para os outros, podem ser pesadelos.


• O professor Leandro Karnal vive dizendo que todas as épocas mais ou menos se equivalem. Você acha que isso é verdade, ou a Humanidade já foi mesmo melhor?

Melhor em quê? Tecnicamente? Sem dúvida. Eu chego a Nova York em seis horas, não em seis meses. Moralmente? Talvez não. Os nossos dramas, os nossos vícios, as nossas fraquezas seriam perfeitamente compreensíveis para um ateniense do século V a.C.


• Embora seja cientista político por formação, seus textos são escritos com clareza e desenvoltura incríveis, que, em sua grande maioria, beiram mais a uma autonomia literária do que a um texto simplesmente argumentativo. Como foi concebido esse estilo, digo, passou por um processo intencional de se chegar a ele?

Há muitos anos, o único génio que conheci pessoalmente — o escritor Miguel Esteves Cardoso — disse-me uma coisa que nunca mais esqueci na redação do jornal O Independente: quem escreve, escreve. Isto foi na decorrência de uma observação qualquer que eu fiz sobre a diferença entre “jornalistas” e “cronistas” ou coisa do género. Ele tinha razão. Não existe essa distinção quando levamos a escrita a sério. Não interessa se escrevemos crónicas, ensaios, romances, peças de teatro, roteiros — a poesia é um caso à parte, apesar de tudo, e os poetas são um artigo raro. Quem escreve, escreve. Sou um escritor profissional e é com esse espírito “literário”, digamos assim, que escrevo qualquer texto.


• Quem o acompanha em suas colunas, seja na “Folha” ou em seu site, nota logo que é um leitor voraz, e não mede esforços para compartilhar suas referências literárias. O que relê com mais frequência?

São sempre os mesmos. Aristóteles, Montaigne, David Hume, aprendi a pensar com eles. Também Jonathan Swift, Jane Austen, Evelyn Waugh.


• E dos autores contemporâneos, de quem gosta?

Fiz duas grandes descobertas recentes: as novelas do Pierre Michon e os ensaios do Simon Leys.


• Tom Wolfe uma vez disse que o romance está morrendo. O crítico literário George Steiner também alegou que “estamos cansados de nossos romances”. Tem a mesma opinião a respeito?

As notícias da morte do romance são sempre francamente exageradas.


• Mario Vargas Llosa expressou o quanto era apaixonado por Sartre em sua juventude, mas que agora ele não o releria. Já aconteceu algo parecido com você?

Várias vezes. Na adolescência, por exemplo, pensava que Henry Miller era um génio.



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João Pereira Coutinho

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