CULTURA

NOS BRAÇOS

NOS BRAÇOS

Por Mônica Leopoldino

Por Mônica Leopoldino

Publicada há 2 meses

MÔNICA LEOPOLDINO SILVA FERNANDES

Há tempos o pai não tocava sua menina. Quando ela era uma garotinha, adorava as brincadeiras. Ele a puxava pelo braço para o meio das próprias pernas e fazia com seu corpinho uma cambalhota mágica. Ela gritava de alegria e medo, aquele medo gostoso de quem quer arriscar com a segurança do colo, o mesmo medo que nos faz atar o cinto na montanha russa e checar o mecanismo de segurança antes da partida do brinquedo.

Ele não conseguia lembrar há quanto tempo não tocava-lhe o braço para despertá-la pela manhã ou qual foi a última vez que fizeram juntos qualquer brincadeira. Naquele dia, ele foi capaz de notar que suas mãozinhas, que antes tinham dedos de unhas roídas e cheios de anéis de plástico, tinham sido transformadas em mãos longas, belas e com grandes unhas pintadas.

O sangue seco e um tanto rosado funcionava como uma espécie de cola que fazia com que a manga da camiseta grudasse no ferimento feito há pouco por ela com uma lâmina muito afiada. Acostumada a usar o compasso ou a lâmina cega do apontador de lápis, a menina  errou o cálculo,  não percebeu, e foi usando a mesma força. E o resultado não poderia ser pior, pois ela estava ali, fria, desacordada, tendo o braço tocado pelo pai que descobria muitas cicatrizes, muita dor acumulada, muito medo riscado sobre a pele e muita necessidade de participar de um grupo, de ser vista, mostrar-se. Ela queria ser vista, ainda que mantivesse os braços totalmente cobertos pelas blusas de mangas compridas.

O pai agora corria com ela em seus braços e nem pensava no quanto ela estava leve, lívida e com sinais de calvície. Os batimentos de seu coração eram sentidos por ele de um modo quase mágico, pois eram tão fraquinhos e  tão cansados que davam a impressão de serem desistentes. Mas o pai os sentia firmemente, compassando-os com os seus próprios. Foi focado neles que o homem abatido adentrou a ambulância do serviço público de saúde. E  demorou a se convencer de que aquela estranha em seus braços era a sua menina e, depois de tê-la finalmente reconhecido e recolhido junto ao peito, não podia crer que aqueles braços mutilados eram os de sua filha. Será que a filha, quase morta, sentia a mesma coisa a respeito dele? Será que era capaz de perguntar a si mesma se aquele estranho era seu pai?

Não dava tempo de sentir culpa, nem de pensar em uma oração qualquer que pudesse salvá-la, e ele também  não conseguia questionar a filha, não podia sabê-la ou percebê-la daquela forma, pois tinha certeza de que ontem mesmo ela era uma menininha. A sirene tocando, os monitores ligados e os fios esticados pelo chão tornavam o ambiente mais conturbado. Os desvios bruscos e o vai e vem por entre as faixas de trânsito o deixaram angustiado, mas aquilo não era nada comparado à ansiedade de vê-la, num relance, de olhos abertos. E, no momento  em que a sirene estava mais baixa e a velocidade um pouco reduzida, ele percebeu, depois do paramédico e do motorista, que a garota estava de volta. Embora, no fundo, aquela ainda não fosse sua filha, lá estava ela, sonolenta, com olhar vago e  fala embaralhada.

— Pai? Oi, eu...

E ele não conseguiu responder. Ficou olhando naqueles olhos vazios, até que pode sentir-se agradecido por reconhecê-los. Era a sua menina, cortada na pele, mutilada na alma e perdida. Ela não sabia que as consequências do que fazia na escola, com amigas que, como ela, ficavam sozinhas no intervalo ou que pouco  conversavam, seriam tão drásticas.

A ideia era cortar, cortar fundo e superficialmente, cortar a diferença e a mesmice, cortar a si mesma para se desprender da vida e para ligar-se às outras meninas que também se cortavam. Cortava-se para estar unida a um grupo. Mas não era para chegar a morrer, nem para quase viver, era fazer por fazer e, logo mais, fazer porque podia fazer, até que por fim fosse porque precisava fazer. Estava posto, era cortar para doer e para parar com a dor. Para que aquela fosse a última dor em uma cadeia de angústia, cortar-se para aparecer e para esconder, para deixar de ser aquela e continuar existindo. Mutilar-se para não morrer e para ver como aquilo logo aliviava tudo.

E ele ficou chocado por não ter lembrança de quando tudo teria se cortado de vez. Perguntou a si mesmo onde estava o espaço entre o passado e o presente, perguntou como tudo teria se perdido. Teria sido naquelas manhãs de cansaço e atribulações que vinham só de pensar em um novo e longo dia pela frente? Ou nas noites em que demorou para perceber que ela não estava em casa? Talvez a menina estivesse sumindo pouco a pouco, perdendo pele e sangue pelos cortes e água pelos olhos, enquanto as brigas aconteciam, as contas a serem pagas batiam à porta e pesavam sobre o travesseiro. Talvez tudo tenha acontecido nas perguntas vagas, nos beijos breves que mal tocavam as faces rosadas, na tela do computador, no aviso sonoro de uma nova mensagem chegando pela rede, ou nos momentos em que o cansaço tomava a todos de uma vez até que dormissem.

A menina não sabia bem os motivos de ter feito aquilo, mas, certamente, estava sentindo o longo impacto daquele toque instantâneo de extensão limitada sobre seu braço esquerdo. Quem iria saber que era uma veia importante? Quem saberia que aquilo seria combinado com sua falta de apetite e todos aqueles vômitos? Quem diria! Ela sabia que a cicatriz daquele corte seria muito diferente das outras que colecionava pelos braços, antebraços e até pelas pernas. Mais profunda, com um novo desenho formado pelos pontos que certamente tomaria, aquela seria uma cicatriz eterna. E estaria em sua face, seus olhos e sua mente. Aquela cicatriz perduraria como a marca da descoberta,  do grito, do pedido que ela fingiu nunca ter feito, mas que era feito aos sussurros a cada novo corte e que agora era  gritado, berrado através do toque daquela lâmina afiada.

Na ambulância, o desembarque era no colo do pai. Mesmo com a advertência do paramédico, mesmo com o rubor tendo sido recuperado à face da filha, ele fazia questão de carregá-la, não para curá-la ou apenas  amparar sua menina doente, ele  o faria para costurar, fechar um pedacinho do corte que o tempo, a vida e os relacionamentos haviam aberto no encontro dos braços deles dois. Ia costurar com todo cuidado, de forma lenta e muito cuidadosa, com os olhos bem abertos, mesmo estando muito cansado ou preocupado. E ainda assim sabia: a cicatriz seria inevitável.


* MÔNICA LEOPOLDINO SILVA FERNANDES, GRADUADA EM FILOSOFIA PELA USP E EM GEOGRAFIA PELA PUC, É PROFESSORA NAS REDES MUNICIPAL E PRIVADA DE ENSINO


“Talvez tudo tenha acontecido

nas perguntas vagas, nos beijos

breves que mal tocavam as faces

rosadas ou nos momentos em que

o  cansaço   tomava a todos 

de uma vez até que dormissem”

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