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Dicotomias: Ultimato

Dicotomias: Ultimato

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 2 semanas

O imaginário infantil é povoado por ideias e personagens desde muito cedo, avançando pela adolescência até a vida adulta, de forma consciente ou inconsciente. Um mundo criado pelos adultos, produto da criatividade alimentada pelos próprios medos e desejos e desenvolvida pela tirania da mente humana.

Os estereótipos concebidos com a finalidade de entreter ou amedrontar as crianças, em oposto ao esperado, não permaneceram presos tão somente à primeira fase da vida humana, eles são capazes de transpor o tempo-espaço, alcançando os ciclos posteriores, convertendo-se de caça em caçador, metamorfoseando-se de criatura para criador, tornando-se autores do próprio destino. 

As criações sempre seguiram a dicotomia instalada na mente criadora, o ser ou estar, ir ou ficar, dúvida e certeza, homem e mulher, ódio e paixão, mundano e divino, certo e errado, real e ilusório, necessidade e desejo, vício e prazer, ciência e religião, corpo e alma, sendo concebidas sobre a dualidade do bom e mau, mocinho e bandido e herói e vilão. 

Via perigosamente pavimentada sobre por elementos estáticos, aparentemente imutáveis, na contramão de um mundo constante e mutável, onde não existe seres totalmente maus ou completamente bons, lugar em que o humano revela sua condição inerente a partir de crenças interiores e motivações exteriores, manifestando como consequência sua personalidade momentânea, podendo durar por tempo relativo ou, sendo predisposição em consequência da repetição desses fatores, permanecer como característica mais visível de sua personalidade, indo além das casca, podendo afetar o conteúdo, evidenciando sua essência humana transitória de forma duradoura. 

A função dos heróis e vilões ficou sedimentada não somente no fantasioso mundo psicológico individual como também no imaginário coletivo, conferindo às “pessoas comuns”, por esse pressuposto, o papel terciário de meros espectadores dos acontecimentos, nunca escalados ou dispostos à ação, meros figurantes, simples elementos de composição do cenário.

Provavelmente, por esses motivos que, no Brasil, o filme Vingadores: Ultimato tenha se tornado o mais visto de 2019, com público de doze milhões e meio de espectadores e renda de duzentos e vinte e quatro milhões e seiscentos mil reais, estando prestes a se tornar o filme com maior bilheteria de todos os tempos.

O segundo lugar em arrecadação no país é o filme Capitão Marvel, que segue a tendência de sucesso de bilheteria do Universo Marvel, habitado por heróis e vilões, criados pelos motivos listados nos parágrafos anteriores, juntamente com a inspiração financeira, cujos lucros parecem avalizar a transposição das histórias, em sua maioria originárias dos quadrinhos, para as telas dos cinemas e, posteriormente, televisores domésticos.

Histórias de sucesso financeiro, emocional e psicológico, reproduzidas no mundo real pelas mentes sagazes e conscientes que, por meio da analogia com o universo fictício, emergido do subconsciente das mentes letárgico-fantasiosas, são capazes de conduzir multidões a agirem de maneira quase autômata, colocando-as sempre como espectadores à espera de um final feliz.

Noutras vezes, apenas conduzidas pela própria semiconsciência, regidas pelo pensamento de que a única saída que pode haver para seus males físicos concretos ou imaginários abstratos é por meio da ação do herói a combater o vilão causador de suas dores e sofrimentos.

A apatia da maioria das pessoas em relação aos acontecimentos que as cercam, colocando-se como meros espectadores, portanto sem qualquer responsabilidade pelo desenrolar dos fatos, a procura de um vilão para culpar e um herói para salva-las dos infortúnios cotidianos, como se não houvesse, além delas próprias, outros responsáveis pelas ocorrência ou ainda outros personagens nas histórias, parece a razão concreta que justifica o estado atual do país, da política e da vida de todos que por aqui habitam. 

Muito além de todas as outras dicotomias, nesses casos, apresenta-se uma última, significativa e perigosa bifurcação no caminho dos que trilham a estrada da vida: dependência e autonomia.  

Sérgio Piva

s.piva@hotmail.com

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