CULTURA

FAMÍLIA PASSOS, TALQUEY?

FAMÍLIA PASSOS, TALQUEY?

Por Jacqueline Paggioro

Por Jacqueline Paggioro

Publicada há 3 semanas



No exato dia em que termino esta matéria (05/05/2019), me tornei uma “superfã”   da página da Família Passos, Talquey? no Facebook (o selo é dado para os seguidores mais fiéis de uma página — ainda bem que não é o Selo de Inteligência da Damares do WhatsApp). Desde que apareceram, passei a seguir a trajetória deles nas redes sociais. Para realizar esta entrevista, pesquisei tudo sobre eles na mídia e todos os dias entrava no Facebook para saber as novidades e me comunicar com a Isis, daí o selo de “superfã”.

Tudo começou em janeiro, em Curitiba, mais exatamente na casa de Nilton Reni de Souza Silveira e Marília Passos Silveira, os pais. A filha Isis teve a ideia de juntar as várias frases da “nova ordem” bolsonarista para criar uma música. No telefone com a mãe — pouco antes da meia-noite — conversaram por mais de uma hora. Na manhã seguinte, antes de ir trabalhar, recebeu a ligação da mãe avisando que já tinha a música. Ao final da tarde, reuniram-se para os retoques finais e estava pronta a marchinha Talquey, talquey! A culpa é do PT. Na cozinha da casa dos pais, ligaram a câmera do celular: Marília no violão e vocal junto com Isis e Reni na percussão (e panela).

O vídeo foi colocado no YouTube e conquistou alguns likes. Eis que Felipe Neto, um dos maiores youtubers do Brasil (ele tem 32.236.818 pessoas inscritas em seu canal) faz um comentário elogiando o grupo e dois dias depois o vídeo foi compartilhado mais de 35.000 vezes, impulsionando a Família Passos para a fama nas redes sociais.

Com a repercussão, o grupo ganhou reforço nos vocais com a irmã, Lígia, e estava formada a Família Passos, Talquey?.  Reunidos na casa dos pais, eles — se divertem e — compõem várias marchinhas ironizando o atual (des)governo.

Entre janeiro e fevereiro, a Rádio CBN promoveu o 6.º Concurso de Marchinhas Carnavalescas e Talquey, talquey...  da Família Passos recebeu a maior votação. O resultado foi divulgado site em 01/03/2019.

A gravação dos vídeos é, literalmente (viu, Carluxo?), doméstica: eles ligam a câmera do celular na cozinha da casa de Marília e Reni e cantam (algumas vezes escapam umas risadas). Além de se esmerarem nos arranjos, na percussão e nos vocais, eles capricham mesmo é na produção visual, colocam perucas, óculos, lenços, chapéus, botas, até panelas; enfim, tudo combinando com a música em “cuestão, talquey?”. Produzem material riquíssimo, afinal, os componentes da equipe lá de Brasília são excelentes em fornecer a matéria-prima.

A partir do sucesso de Talquey, Talquey..., criaram outras marchinhas de acordo com a ordem dos acontecimentos. Alguns exemplos: Marchinha da lava-jato, morô (“Lava lava lava lava lava e tira todo o barro. O rapaz do lava-jato me enganou. Só lavou o lado esquerdo do meu carro”); Marchinha do Foro Privilegiado (“Bolsokid, tão moralista. Um exemplo para todos nós. Hoje ele usa o foro, para esconder as cagadas do Queiroz”); ou  Marcha do General / Cuidado Capitão (“O nosso mito está preocupado. O seu querido vice está descontrolado. Cuidado Capitão! Com a bota do Mourão”).

E eles prometem: não vão ficar só nas marchinhas. Já compuseram a Valsinha pra Damares/ Hahaha (“Damares, a maluquinha. Vai voando lá pro salão... Veste na dama um rosado vestido pra conquistar bom marido... Puxando o seu capitão pela mão a louca parece surtar...”)  e o samba-enredo Unidos da Piroca e o Samba Enredo do Delírio Nacional / Vai pra Cuba! (“Olha a piroca passando. O kit gay vai bombar. No zapzap do povo. E nessa eu vou embarcar... Terra dos conges, Tchutchuquinhas e tigrões. Mas no fundo são fascistas, elitistas e vilões. E com ódio chegaremos lá. Se você não tá feliz Vá pra Cuba já...”). Dizem que ainda vai ter choro, samba, forró... Vamos aguardar.

Os números são impressionantes: são quase 70.000 seguidores entre Facebook e YouTube, com mais de 3 milhões de visualizações nas duas redes sociais. Agora eles estão no Twitter também. E estão vendendo camisetas com a letra de Talquey, talquey...

Apesar das “pataquadas” dos tresloucados que comandam o país e da visibilidade que o comentário de Felipe Neto deu ao grupo, o sucesso deve-se, principalmente, ao talento desta família: execução primorosa, música alegre, vocais afinadíssimos, letra repleta de ironia, e interpretação com muito sarcasmo e irreverência.

A cara do Brasil. Não tem como não gostar!

Confiram abaixo a entrevista que a Isis Passos concedeu ao Cultura!.


• Vocês ficaram conhecidos nas redes sociais pela música “Talquey, talquey! A culpa é do PT”. Uma marchinha de carnaval, muito bem executada, com muita alegria e também muita ironia. Poderiam contar um pouco sobre a trajetória profissional de vocês? Já tinham feito algo parecido antes?

Somos uma família curitibana de artistas e toda nossa vida é embalada por música: MPB, choro, samba e bossa-nova. Minha mãe, Marília, formada em Letras e Artes, é professora aposentada. Ela é a caçula de sete irmãos, alguns também artistas de rádio; foi daí que veio a influência musical. Por 25 anos ela trabalhou com crianças e adolescentes dando aulas de português e música em colégios estaduais e também comandou corais em escolas e empresas. Ela é compositora, arranjadora e regente. Em 2008, foi finalista no concurso de marchinhas da Fundição Progresso em parceria com o Fantástico, no Rio de Janeiro, com a música ET de Copacabana. Lígia (irmã) seguiu o caminho, aos oito anos começou a estudar violino. Hoje é violinista profissional, atua em projetos sociais e trabalha com eventos. Meu pai (Nilson Reni) trabalhou como metalúrgico desde 1977 até se aposentar, mas já participou de grupos musicais tocando na noite e em bandas de carnaval. Eu sou funcionária pública, porém desde pequena desfrutei de atividades artísticas em casa, visto que a minha mãe é professora de música e a minha irmã, violinista. Também participei de eventos musicais em Curitiba. A nossa família uma época montou um grupo de Música Popular Brasileira. Temos o costume de debochar de situações, fazer paródias, composições satíricas. Gostamos de humor. Com o impeachment da Dilma, fomos percebendo uma tendência reacionária. Um tipo de inversão de valores. Acompanhando esses acontecimentos pelas redes sociais e os memes (termo grego que significa “imitação”; é bastante conhecido e utilizado na internet, referindo-se ao fenômeno de viralização de uma informação, ou seja, qualquer vídeo, imagem, frase, ideia, música etc., que se espalhe entre vários usuários rapidamente, alcançando muita popularidade) que foram surgindo durante a campanha de Bolsonaro e sua vitória nas urnas, reuni algumas frases e dei para minha mãe, que compõe melodias facilmente, e em trinta minutos estava pronta a primeira marchinha Talquey, talquey! A culpa é do PT.


• “Talquey...” viralizou na internet, mas parece que a ironia não foi muito bem compreendida. Qual a avaliação de vocês em relação a esta falta de compreensão da “ironia” como forma de crítica política?

Não esperávamos tamanha repercussão. A gente sempre fez paródias e composições, tirando sarro de primos, tios, tias. Resolvemos fazer isso com política e acabou se alastrando nas redes. Começamos a brincar em família quando começou o período eleitoral. Como disse anteriormente, a ironia faz parte do nosso modo de ser em família, tiramos sarro de tudo. Mas ocorreram várias situações que nos puseram a pensar sobre a atual conjuntura, principalmente esses movimentos reacionários de extrema-direita com um discurso anticultura em geral: “artista é tudo vagabundo”. Os exemplos mais impactantes desse movimento foram os ataques e agressões que o Chico Buarque sofreu, artista de uma importância ímpar na nossa cultura recente. E esses movimentos reacionários foram se alastrando para muitos campos, como a literatura, as artes plásticas e até a educação. Pois estão a tentar criminalizar até uma figura como Paulo Freire, o pensador brasileiro mais lido em universidades estrangeiras. À volta de todo esse contexto é que começamos a tratar de política em nossos convívios familiares, por meio da música e do deboche. Era mais uma brincadeira de família, pois foi uma música que compusemos em meia hora e achamos que ficou “legal”, então decidimos colocar no Facebook para os nossos amigos se divertirem também. Muitos desses amigos começaram a partilhar em grupos e em pouco tempo percebemos que o vídeo estava a viralizar. Acreditamos que o aumento de visualizações se deu quando o youtuber Felipe Neto divulgou o nosso vídeo nas suas páginas de rede social. Realmente nós não estávamos preparados para tanta repercussão. Mas, realmente, ficamos um pouco espantados pelo fato de muitas pessoas que se dizem de direita partilharem as nossas marchinhas, principalmente o primeiro vídeo. Muitas dessas pessoas não perceberam a ironia que estava por trás de cada frase, por exemplo, “o bozo é mito”, ou que nós mesmos estávamos a nos chamar de “corja vagabunda de artista” como uma forma de debochar do próprio Bolsonaro.


•Muitas postagens nas redes sociais criticando Bolsonaro e seu (des)governo receberam (e recebem) muitos ataques de seus defensores. Isso também acontece com vocês? Como lidam com isto?

Os vídeos têm suscitado as mais diversas repostas. Temos recebido reações positivas, tanto de pessoas identificadas com a direita e mais alinhados ao presidente, quanto da esquerda. Não esperávamos essa recepção, mas as pessoas entenderam que é uma brincadeira, uma maneira de se manifestar. Também recebemos alguns comentários contrários no nosso canal no YouTube, alguns até agressivos, no entanto, são pouquíssimos tendo em vista a temática polêmica. Grande parte da família nunca teve uma atividade político-partidária, mas sempre estivemos comprometidos com os valores progressistas e pelo fim da desigualdade social. Por outras palavras, não somos ligados a nenhum partido. Nós sabíamos que, ao ironizarmos algumas situações políticas recentes, estávamos a cutucar o atual governo. Não nos identificamos com esse governo reacionário, com um presidente que propaga o ódio e a violência como forma de vida. Um governo que olha para os artistas como seus inimigos. É preciso se manifestar e dar voz a quem não tem. A oposição é saudável a toda democracia e sempre existirá.


• Depois da “Talquey...” vieram outras marchinhas: “Lava-jato, morô”, “do Reaça pobre”, “do General”... Como vocês conseguem produzir tanta música assim?

A sátira política vem agora até como uma forma de lidar com as situações deste governo. Estamos vivendo um absurdo atrás do outro, chega a ser bizarro. E a gente nem sabe o que vem pela frente. Então, para dar conta de tudo isso, só dando risada. A gente tem que rir para não chorar. O humor é essencial. Gostaríamos de ressaltar que quem nos fornece todas essas ideias de ironia e gozação é a própria turma do Bolsonaro. Vejamos por exemplo, “Jesus na goiabeira”, “Mamadeira de piroca” e entre muitas outras. Não é difícil de criarmos porque está tudo tão pronto que só nos resta encaixar os textos nas rimas e depois colocarmos a música. Mas é evidente que gostamos de colocar uma pitada de acidez nas letras: “mamãe, eu vou comprar uma arma”.

Músicas

Ordem cronológica das postagens das músicas da Família Passos, Talquey? no canal do YouTube e o número de visualizações (consultado em 06/05/2019).


1. Talquey, talquey! A culpa é do PT — 10/01/2019 — 176.229 visualizações

2. Cataratas do Iguaçu — 13/01/2019 — 5.711 visualizações

3. O ET de Copacabana — 15/01/2019 — 14.831 visualizações

4. Marchinha da Meritocracia/ O “esforço” da Barbie — 15/01/2019 — 36.263 visualizações

5. O cordão da gente fina — 17/01/2019 — 25.032 visualizações

6. Marchinha do lava-jato, morô?! — 20/01/2019 — 69.586 visualizações

7. Marchinha do foro privilegiado (do Bolsokid) — 25/01/2019 — 77.335 visualizações

8. Marchinha do “Reaça” pobre de direita — 01/02/2019 — 216.6923 visualizações

9. Festa na Aldeia (Samba composto há 40 anos pela Marília Passos e Reni Silveira) — 09/02/2019 — 6.742 visualizações

10. Marcha do General / Cuidado Capitão — 10/02/2019 — 64.477 visualizações

11. Marcha dos Aposentados / A Luta! — 13/02/2019 — 46.450 visualizações

12. Marchinha do arrependimento / Eu avisei — 16/02/2019 — 126.546 visualizações

13. O Bloco dos Hipócritas / O Frota vem aí — 28/02/2019 — 54.006 visualizações

14. Põe a faixa, Zé de Abreu! (De improviso e baseada nos tuítes de Zé de Abreu Autoproclamado, (?) a Família se reuniu e deu nisso) — 03/03/2019 — 51.090 visualizações

15. O Carnaval é Imortal / Golden Shower — 09/03/2019 — 35.119 visualizações

16. O Marreco de Maringá / Caixa 2 — 15/03/2019 —27.122 visualizações

17. Fogo no Laranjal /Faz Arminha — 18/03/2019 — 17.699 visualizações

18. Tira a mão da nossa previdência! — 19/03/2019 — 32.486 visualizações

19. Valsinha pra Damares / Há Há Há Há — 23/03/2019 — 35.116 visualizações

20. Tchau Querido!!! / No estilo Barrichello (porque o Brasil não é pra amadores) — 25/03/2019 — 14.887 visualizações

21. Ditadura NUNCA MAIS — 30/03/2019 — 20.888 visualizações

22. Unidos da Piroca e o Samba Enredo do Delírio Nacional / Vai pra Cuba! — 07/04/2019 — 19.330 visualizações

23. Capitão Coca-Cola / Não nasci pra ser presidente — 13/04/2019 — 22.633 visualizações

24. LAVE O PINTO! — 28/04/2019 — 24.392 visualizações

25. Balbúrdia e Turismo Sexual, Talquey? — 04/05/2019 — 6.231 (pulou para 7.484 duas horas depois).

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Comentários

A seguir selecionei alguns comentários de seguidores do YouTube no canal da Família Passos, Talquey:

“Não sei o que é melhor, a letra criativa ou a voz de vocês hahahah <3 parabéns, não consigo parar de cantar.”

“O talento de sempre, alegria, crítica, sutileza de raciocínio, mordacidade nas palavras.”

“Vocês não sabem o que estão falando! Ditadura não aconteceu gente! Mas a mamadeira de piroca e o kit gay existem. (Quem me contou foi um colega de trabalho bolsominion). Kkkkkkk”

“Eu me auto - intitulei membro da família passos??”

“Vocês são f... Tem casa pra vender do lado da de vocês? Vcs precisam colocar essas marchinhas no Spotify! Essa família é a prova que o Carnaval é manifestação política e não tem época. Vcs são tops na harmonia das vozes...e o percussionista arrasa! Faz uma pro Rodrigo Maia trabalhar até 80 anos em sala de aula, ou como enfermeiro, ou gari, ou agricultor... Aquele filadaputa.”

“Fico imaginando como é o churrasco na casa de vcs. #Queria ❤️”

“??Damares, a estrela maior do Circo dos Horrores da Era Mijair Bolsomilícia??. ??Valeu Família Passos. Vocês são minha família predileta, diferente daquele Clã da Ku-klux-klan do Rio de Janeiro. ?”

“Parabéns! Cada vez melhor! Me divirto com a afinação e letras da família!”

“Me adotem? Fui deserdada pela família inteira de bolsominions.”

“Essas marchinhas tão deliciosamente primorosas são documento histórico... Arquivando para a posteridade!!!”

“HINO! Já vi 1000x, meu marido espanhol já decorou. Chiclete total, ahazaram pessoal! 10! ”

“TALKEY seus lindos! Amo esse bom humor, essa inteligência e esse som! Quero a camiseta TALKEY!!!”

“Não vão cantar sobre o ‘conjo’, ‘houveram pessoas’ e ‘crime ‘sobre forte pressão emocional’? Ah, também tem ‘crime vulnerável’ (não sei que diabo é isslo). Dr. Moro pode ajudar nas letras.”

“...Sou de Portugal e estou sempre apoiando vocês. Marchinha, valsinha ou outros. Importa é ser tal como é autentico e sincero. Obrigado. ”

“É muito amor por essa família! Sou fã dessa criatividade e deboche! Rsrsrsrs. Parabéns! Vocês são ícones. ❤️❤️❤️❤️❤️❤️???????”

“Eu me sinto abraçada por vocês, de alguma maneira eu me sinto parte dessa família linda e amada que vocês são ????”

“Bora fazer um baile de carnaval com essas marchinhas INCRÍVEIS. (Já aviso que a minha fantasia vai ser de Queiroz).”

“Como sempre uma crítica sensacional sobre o nefasto momento que estamos vivendo.”

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