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Ser tão Fernandópolis

Ser tão Fernandópolis

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 3 meses

A comemoração do aniversário da cidade no mês de maio é sempre marcada por vários eventos alusivos à data festiva. A realização da exposição agropecuária, comercial e industrial, que aos poucos foi perdendo seu viés celebrativo, era o principal evento festivo, seguido por inaugurações, cerimônias e outras solenidades oficiais.

Neste ano, não foi diferente. Com destaque pessoal a dois eventos marcantes. O primeiro, em ordem cronológica, ocorrido no dia 17, quando foi lançado o livro “Sertão de Rio Preto, de autoria do Fernandopolense (ou deveria dizer Brasilandense) Oswaldo Sartori. O outro, no dia 31, com o lançamento do CD da Orquestra de Sopros de Fernandópolis (Osfer), apresentando a gravação do Hino a Fernandópolis em novo arranjo. Ambos acontecidos no Teatro Municipal Merciol Viscardi. 

O livro é um registro de grande relevância, não somente para a história de nossa cidade como também para a região, como afirma seu título, descrevendo de maneira clara e minuciosa a chagada do povo italiano nestas cercanias, detalhando fatos motivadores do êxodo itálico e de sua chegada daquele povo ao Brasil e seu assentamento no sertão noroeste paulista.

Texto de fácil e agradável leitura, sem, contudo, deixar de ser criterioso, oportuniza o conhecimento sobre as origens dos ascendentes italianos sobretudo, posto a origem familiar do senhor Oswaldo, mas também relata a vivência de outras nacionalidades que por aqui chegaram, além de brasileiros vindos de outros estados, como é o caso dos mineiros, que ajudaram na construção do município.

O texto é ricamente fundamentado em extensa pesquisa documental realizada inclusive em terras italianas, notadamente de relatos orais, com ênfase ao pai do autor da obra, e da própria vivência do Senhor Oswaldo, morador da Brasilândia desde o começo de seu povoamento.

O registro é de importância única, já que conta histórias de pessoas simples e sob a ótica desses personagens secundários, permitindo que tenhamos conhecimento da história “não oficial”, ou seja, aquela que não foi formatada para servir de modelo ideal, com vestimenta elegante, evitando desagradar àqueles que ainda tenham influência na sociedade ou acesso privilegiado à construção das obras históricas. 

O livro é o resultado de dez anos de pesquisa e também a realização de um sonho do Senhor Oswaldo, que aos cinquenta e sete anos voltou aos bancos da faculdade para cursar Filosofia e publica sua obra aos sessenta e oito. Além de bancar todo o custo da pesquisa e produção do livro, demonstrou integralmente sua generosidade e amor pela cidade natal fazendo a doação da publicação ao fundo municipal de cultura, que reverterá o lucro obtido com a venda dos livros ao museu municipal, localizado na Brasilândia. 

Já a apresentação da Osfer, no dia 31, no teatro municipal, além de brindar o público com sua costumeira brilhante e cativante apresentação, sob a regência e direção artística do maestro Luís Fernando Paina, pode escrever novos capítulos na história de nossa cidade.

A apresentação do hino a Fernandópolis, cujo novo arranjo e gravação, realizada originalmente em 23 de março de 2013, foram bancados total e exclusivamente pela orquestra, leia-se, de seus músicos e generosos apoiadores, que, no lançamento desse dia 31, contou com a participação do primoroso coral da Igreja Adventista Boa Semente e do Ilustre Senhor Osvaldo Secato.

O maestro Fernando contou breve relato sobre sua chegada e vivência na cidade, até tornar-se maestro da Osfer, bem como sobre a luta da orquestra para desenvolver-se e resistir a desmandos políticos que quase encerram suas atividades. 

Agradeceu o apoio daqueles que lutaram a seu lado, membros da própria orquestra, políticos e amigos, sobretudo o apoio moral e espiritual dispensado a ele pela Igreja Adventista Boa Semente e, posso acrescentar, também o suporte financeiro, que não só permitiu que ele continuasse atuando como músico e maestro em nossa cidade como também foi vital para que mantivesse a Osfer de pé, criando valores humanos e músicos excepcionais. 

Não bastasse todas as novas páginas da história sendo foleadas naquela noite, a providência divina oportunizou que mais um capítulo fosse escrito. Todo musical festivo e reverência ao novo arranjo do Hino a Fernandópolis puderam ser executados na presença da Professora Wandalice Franco Renesto, ilustre autora do poema musicado pelo Padre Hugo Van Tuyl.

A história dentro da história foi descortinada nas palavras da Senhora Wandalice, que narrou os momentos e razões motivadoras do surgimento do Hino, cuja pretensão inicial não era a composição de uma obra oficial. 

Tudo sendo relato na primeira pessoa do plural, atestando, uma vez mais, a humildade e grandiosidade da professora, que, não bastasse a notável contribuição dada para a educação do município e desenvolvimento de incontável número de crianças e jovens, dentre eles o atual prefeito, também atuou sempre como colaboradora dos eventos sociais e culturais da cidade, continuando a trabalhar, ainda nos dia de hoje, como exemplo de benemerência e voluntariado em prol de sua terra moça.

Os exemplos de atitude e caráter oferecidos nas duas noites históricas vividas pelas pessoas que estavam no teatro municipal naquelas ocasiões, demonstram concretamente que nossa cidade pode ser criança, mas também ser gigante e ter um progresso sedutor.

Basta apenas que os modelos sejam seguidos pelos demais, tanto mais, melhor, quanto mais, maior o ritmo da caminhada. Basta sermos menos mesquinhos, menos individualistas, menos juízes para sermos mais humanos, mais comunitários e mais altruístas. É preciso, seguindo àqueles exemplos de vida, ser pouco eu e ser tão Fernandópolis.  

Sérgio Piva

s.piva@hotmail.com

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