ARTIGO

A vida no chroma key

A vida no chroma key

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 1 semana

Os julgamentos da vida alheia são muito fáceis e, igualmente, recheados de equívocos. Sem conhecer longa e profundamente o individuo não é possível saber (e entender) os motivos pelos quais ele faz o que faz ou não faz o que não faz (sem querer plagiar a expressão do Sérgio Cortella).

Ainda assim, convivendo por muito tempo com uma pessoa, é possível que não a conheçamos de fato ou verdadeiramente, seja porque muitos não expõem seu interior ou por não sabermos sobre toda a vida dela, como passou a infância, adolescência ou vida adulta, desde antes da convivência, como foi o ambiente que a rodeou nessas etapas, os ensinamentos que foram herdados por ela durante todo esse período e o que realmente influenciou seu modo de viver e, principalmente pensar.

Entretanto, apesar de não ser possível avaliar sem erros certas atitudes de pessoas a nossa volta, supostamente, conhecidas em razão da convivência diária no ambiente familiar ou profissional, é inegável sermos capazes de perceber que os cenários projetados por essas pessoas não fazem parte da paisagem de suas vidas. São tão verdadeiros como imagens inseridas em um chroma key.

Chroma key é uma técnica que consiste em colocar uma imagem sobreposta à outra por meio da anulação de uma cor sólida padrão. Ela é usada para substituir o fundo de uma imagem de um vídeo ou fotografia, geralmente captada no fundo verde ou azul, onde toda a área da imagem que estiver com uma dessas cores vai ser substituída por outra imagem de seu interesse.

Podemos ver o chroma key sendo utilizado na vida real, de maneira fictícia, por muitas pessoas durante seu percurso existencial. Não obstante os motivos e as causas impulsionadoras de tal comportamento, é possível observar que essa técnica se tornou recurso indispensável na criação de imagens irreais do plano de fundo que simulam fatos e atitudes, sobrepondo-se ao verdadeiro, à paisagem palpável e à vida tangível dessas pessoas.

Dessa forma, criam-se álbuns e galerias de imagens de um curriculum vitae, cujos autores são ao mesmo tempo escritores, produtores, roteiristas e diretores de suas falazes autobiografias, sem se darem conta do quanto são perceptíveis os efeitos (quem sabe defeitos) inseridos nos panos de chroma key sobrepostos ao mundo real de seus inventores.

A imaginação de alguns é tão abominavelmente admirável que as imagens toscamente perfeitas introduzidas em seus “chroma vitae” enganam a eles próprios. São tão hábeis na arte da farsa que passam a acreditar em sua própria obra de ficção, como fosse ela legítima.

Tudo acaba tornando-se uma real fantasia. A audiência faz de conta que acredita, aqueles outros fazem de conta que acreditam que a audiência verdadeiramente crê e todos juntos fazem de conta que a simulação é verossímil. É como se as imagens inseridas nos chroma keys fossem premissas de um falso silogismo.

A preocupação maior que os criadores, autores, inventores precisam ter é quanto à estrutura sobre a qual foram apoiados seus chroma keys. Devem permanecer atentos para que o pano verde que esconde a paisagem real sob suas vidas não caia pelo chão, dissolvendo a ilusão e a falsidade do ser, revelando ao fundo uma parede desbotada, consumida pelo tempo, incapaz de encobrir ou disfarçar as verdadeiras imagens que passam na frente dela.

Aquelas outras imagens inventadas podem ser belas, mas são apenas quimeras. E nem sempre o que parece é.

Sérgio Piva

s.piva@hotmail.com

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