CONTO

Pico

Pico

Por Lucas Oliveira de Freitas

Por Lucas Oliveira de Freitas

Publicada há 1 semana

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A

gora pude compreender o que o leito nos ofereceu, não lembranças negativas, mas contradições sobre as memórias em somente reter as desagradáveis, há transmutação se possível em nós, algo pulsante, latente, mudando em segundos, e lembramos, ou melhor, vemos quem sempre foi Nazé.

De todas as lembranças, retemos agora o positivo, quem foi e o que fez por nós, nosso tio sempre muito expressivo deu a nós palavras de fogo, que ao pairar no inverno consome até o que há de mais profundo na terra, e aquece para que o dia seja celebrado junto às demais datas. Por mais que sempre optou por nos cuspir brasas, ainda sim, persistia em marcar grandes multidões, alcançavam suas palavras não meras aldeias perdidas ao inverno, mas alcançavam até mesmo o Inverno e fazia dele Sol. Sempre o Sol, iluminado e transcendente a nós, em demasia podia permanecer em sua essência, sem ao menos comparecer com sua característica primeva, suas labaredas. Mas as noites ainda podiam e deviam temer o que há de mais brilhante, o que nos guia sobre a ínfima trilha.

Tio Nazé com suas interjeições dava-nos o sopro que chegava a nossas mentes e bombeava tais ideias, se posso assim dizer. Havia longas transfusões de conhecimento, e o que difere da sanguínea, além de possivelmente não ser compatível, pode ser extinguível, mas suas dores não, seus limites não, seus gritos não. Embora de nada disso fôssemos colocados a par ante a transfusão, os ensinamentos da interjeição mais angustiante do que o próprio brilho da noite, sobre o uivo dos dentes mais brancos, que até mesmo a Mansidão poderia temer, deste, sim, éramos colocados a par.

Dias se passaram, meses e até mesmo anos, mas ainda sim sentimos o mesmo vigor, nunca percebi que o que nos restou não se limitava apenas às lembranças positivas, se assim posso dizer. Mas o Sr. Nazé nos deu algo que nem a penumbra da escuridão poderia ser mencionada a comparações entre os extremos, sendo que sob a menção de um meio termo, talvez balanças ou outros recursos não seriam suficientes, pois não há medidas possíveis que alcancem o valor, ou podemos dizer, ausência de algum valor, pois bem, foi o que Nazé nos deixou também, algo que não conseguimos testificar.

Se me perguntas... Como sei? Por que estou cheio de dúvidas ou até mesmo perdido? Perdido não estou, estava, mas antes que se perca sobre esta estrada, permita-me. Há lembranças que nos são trazidas quando somos estimulados, seja por algo que nos cause grande dor ou imenso prazer. Nazé se enquadra em ambos, sempre, pois enfatizo a palavra que talvez mais seja mencionada diante desta impressão, sempre, Nazé sempre.

Sempre estimulados com seu ardor, lembramos quando Nazé esteve conosco, nos estimulou a sermos com nossas interjeições, livres. Certa vez, diante dos monólogos casuais que presenciou, levou-me afora da cidade, mostrou o que de mais belo a selva resguardava e com seu tom impecável permitiu que nos aproximássemos de determinados seres e me levou após o vislumbre de toda espécie que pudemos assistir, ao pico mais alto...

Medo não... Talvez temor pela Sr.ª Próspera Mortandade, sempre vil e cheia de conquistas, não queria dar mais ala a suas eminentes riquezas, por isso mantive atrás da guarda de Seu Nazé. Embora possa ter sido incrédulo quanto ao que logo em seguida me ofereceu, deu-me oportunidade de cortejá-la. Difere de muitos outros cortejos que soube, ou sequer vi, disse a mim para que gritasse em alto som, da forma mais branda o possível. Já angustiado e cheio de incredulidade, executei, o reboo trouxe-me pavor, mas logo se extinguiu. Antes que desse por mim, o mesmo que me encontrava ou talvez pior, pediu a mim novamente que fizesse com mais desejo, que liberasse o quão profundo poderia estar armazenado ali... Em mim.

Novamente, novamente, sem fôlego, novamente e mais uma vez, quase sem acreditar na realidade em que estava contido, as pregas que foram molestadas pelas opressivas lufadas não serviam de nada mais. Sem entender, retornamos, logo em seguida retornei ao quarto, simples, fúnebre, mas difere de toda a selva, havia resguardo naquela escuridão, e o que digo agora, o sentimento que senti, era da mais pura raiva e todo o ódio em que era expresso ante o monólogo, agora jaz no desejo consciente de liberá-lo aos prantos, em gritar sobre meu tio, de tamanha inconformação.

Sempre que ele notava, levava-me aquele lugar, logo pude ver que não era o único, por seu habitat todo desmantelado, seguido pelo percurso do ciclo natural, ali não era o que se esperava com o tempo ver. Não por atender as expectativas do natural, mas por haver pessoas, mais pessoas, sempre havia mudanças quando voltávamos, o que restava à incredulidade era crer que os seres que ali habitavam não evoluíram de tal forma à limpeza e organização habitual, por fim resta apenas crer que são humanos.

Mas houve um dia, quando estávamos nos aproximando ao derredor, ouvimos gritos. Impaciente pela incompreensão de ainda estar tendo que visitar tal lugar, não suportava aguentar alguém além de mim, sentia que não alcançava a sanidade, muito longe já... Mas alguém sem Seu Nazé perder as estribeiras por simples vontade, me leva a crer que ainda me reste tempo antes que a legibilidade se desponte de minha sanidade fragilizada.

O som estridente pressionava com mais força nossos tímpanos, nos obrigando a protegê-los de qualquer dano possível. Até que por fim chegamos, sua estatura não muito diferia de Seu Nazé e sua fisionomia forçava às lembranças me tragar de volta sobre a padaria do centro, Cassides...

O padeiro era quem estava lesionando nossos tímpanos. Soe o que for preciso, mas naquele instante não podia ter desvairado por completo, não era preciso mais que um par de olhos para enxergar e não compreender, já atônito por não aguentar a paz que inundava Seu Nazé, a mim beirava a mais pura e impensada vontade de berrar sobre o desconforto.

Não abria os lábios agora pelo Sol que desmanchava o Inverno, não lufava em demasia sob minhas pregas o calor que emanava das dicas e ensinamentos, mas escancarava agora, por ver que Seu Cassides tocava seus tambores. Não um barulho seco, não um som estridente, nada, simplesmente nada de característico saía dali, mas em meio à confusão, berrei de insatisfação, pois o padeiro liberava suas lágrimas e de onde deveria soar sua estridente interjeição, seu opressor berro, pois bem, nada saía dali e sim dos tambores, sim, logo após, o choro... Cessou...


*LUCAS DE OLIVEIRA FREITAS É REPRESENTANTE COMERCIAL

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