ARTIGO

A pessoa "quase invisível"

A pessoa "quase invisível"

Por Carlos Eduardo

Por Carlos Eduardo

Publicada há 1 mês

O prato de comida em sua mesa é tão corriqueiro e garantido que você nem percebe a sua importância. Mas ela sente a dor humilhante da fome.

    Um banho quente em dia frio ou uma ducha refrescante em dia quente é tão relaxante, que você fica feliz em contar com esse privilégio, sempre ao alcance de suas mãos. Basta entrar no box do seu banheiro. Mas ela não tem garantida essa necessidade básica.

    A sua cama é macia e o seu quarto está de acordo com os modernos conceitos da Arquitetura Moderna. Esse cômodo o convida a descansar, afinal de contas, você merece! O lençol combina com a fronha. A fronha combina com o cobertor. Está tudo perfeito! Mas ela ficaria feliz em ter um mínimo de dignidade ao dormir. 

    Você abre o guarda-roupa e, diariamente, passa pelo dilema de escolher a melhor combinação. Dependendo da ocasião ou do evento, você capricha! Veste a roupa mais cara (que dividiu no cartão de crédito em 10 parcelas), muitas vezes com a intenção de impressionar aquela sua amiga invejosa e esnobe ou os seus amigos competitivos. Mas ela não tem escolha. Veste aquela única peça de que dispõe, surrada e mal cheirosa, ou pior, quase nunca a tira do corpo.

    Ao entrar em uma butique, loja, estabelecimento comercial qualquer, não demora e uma simpática atendente vai ao seu encontro. Toda solícita, coloca-se ao seu dispor, imaginando quantas cédulas ela poderá convencê-la a retirar de sua carteira. Mas ela, caso adentre nesses mesmos locais, passará pelo inexorável destino: do jeito que entrou, será convidada a se retirar.

    A escola que os seus filhos ou netos frequentam, não foi a mesma que o filhos dela frequentaram. A escola dos filhos dela parecia uma escola, lembrava uma escola, mas na verdade, faltava muita coisa, era bem distante do ideal. Talvez a extensão dessa escola tenha sido a própria vida, quando não a rua ou o abandono: o mesmo destino que a vida lhe reservou.

    Até mesmo a igreja que você frequenta não será frequentada por ela. No máximo, ela ficará em frente de suas portas, quando fechadas, dormindo, por falta de outro lugar, na ausência de um abrigo adequado para passar a noite.

    Afinal de contas, quem é ela? Ela é aquela que passa ao seu lado no centro da cidade e você mal percebe. Ela é aquela que vaga pelas ruas, que senta no canto da calçada, que dorme no banco da praça. Ela é aquela de que quase sempre nos esquecemos, a não ser na hora de fazer caridade. Ela é aquela “quase invisível”, a não ser quando o incomoda. 

        Ela é a pessoa que vive em situação de extrema pobreza! Ela é o indigente, o pedinte, aquele com distúrbio mental que vaga sem destino pelas ruas da cidade, aquele que faz coisas, no centro da praça, que parecem engraçadas, mas só parecem, pois a sua situação é trágica demais para suscitar alguma graça.

    A sua vida confortável pode fazê-lo apenas imaginar como é o flagelo da miséria extrema que ela sente na pele. As suas orações podem reconfortá-lo e convencê-lo de que, pelo menos, está fazendo a sua parte. Pode sentir pena, até mesmo revolta. Em muitos momentos, até se esquecerá dela (não pensamos na penúria quando essa nos parece tão distante). Mas nunca se esqueça de que aquela pessoa trava, diariamente, uma árdua batalha: a da fome, a da privação, a do medo, a da humilhação, a da indiferença social, a do abandono, a do desalento e a da desesperança.

        Nunca se esqueça de que ela poderia ser qualquer um de nós. Nunca se esqueça de que, como qualquer pessoa, ela também sente alegria, tristeza, fome, solidão, dor, prazer, paixão. 

        Nunca se esqueça de que talvez não tivéssemos a mesma força do que ela ao passar pelo flagelo da extrema miséria, da indigência. 

        Nunca se esqueça! Apenas pense nisso!  

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