ARTIGO

Celular, o cigarro do século 21

Celular, o cigarro do século 21

Por Carlos Eduardo

Por Carlos Eduardo

Publicada há 3 semanas

Há poucos dias um amigo reclamou para mim que, ao visitar os netos, tem que disputar a atenção deles com as distrações oferecidas por um celular conectado à internet.

        Ah, como gostaria de ainda ter um avô vivo para conversar com ele! Não perderia um minuto sequer de nossa conversa.

    Como destacou uma excelente reportagem publicada na revista Superinteressante desse mês de outubro de 2019: o vício em celular, atualmente, é mais onipresente na população do que já foi o do cigarro há algumas décadas.

    Nos anos 1970 e 1980, era comum ver pessoas fumando nos mais variados locais, públicos e privados, ambientes abertos e até mesmo nos fechados. Era um vício tolerado pela população. 

        Atores famosos, da TV e do cinema, apareciam, frequentemente, tragando cigarros em cenas de novelas e filmes. Muitos até consideravam charmoso o hábito de fumar. As propagandas de cigarros eram bonitas, atraentes, bem elaboradas e veiculadas em horário nobre.

    Hoje, não é nada charmoso fumar e o hábito foi proibido, por lei, em locais públicos e fechados, pois todos sabem que é extremamente nocivo à saúde. No entanto, parece que a população trocou um velho vício por outro: substituiu o cigarro pelo celular conectado à internet, ou melhor, pelo “smartphone” (em tradução livre: telefone inteligente).

        Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 27% da população mundial fumava no ano 2000. Em 2006, essa taxa caiu para 20%. De acordo com pesquisa da empresa sueca Ericson, 51,9% da população global, ou seja, 4 bilhões de pessoas, têm “smartphone” (pesquisa citada na reportagem da revista Superinteressante).

        No Brasil, de acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), divulgados em 25 de abril de 2019, há 230 milhões de celulares ativos. Houve um aumento de 10 milhões de “smartphones” ativos no país em relação ao ano de 2018.

        Estudos indicam que o uso excessivo de “smartphone” relaciona-se com o “aumento das taxas de ansiedade, depressão, déficit de atenção, inclusive com alterações no cérebro”. Esses sintomas começam a aparecer quando o usuário fica com os “olhos grudados” na telinha do celular por mais de três horas diárias. E os brasileiros já ultrapassaram essa média, pois ficam três horas e 10 minutos, diariamente, interagindo com o aparelho celular (dados do relatório intitulado “State of Mobile 2019”, da empresa americana “App Annie”, citados na revista Superinteressante). 

        Para o leitor ter uma ideia de quanto o brasileiro não desgruda de seu “smartphone”, o número médio de toques diários no aparelho impressiona: são 2.600 (segundo pesquisa da empresa Dscout Research, citada na reportagem da revista Superinteressante). 

        Para quem se beneficia, de algum modo, das redes sociais, ou desenvolvem e vendem aplicativos e demais recursos tecnológicos (que podem ser acessados na internet por meio dos “smartphones”) a explosão na venda de celulares é uma boa notícia, pois, por meio desse aparelho, eles disputam e conquistam algo valiosíssimo nesse mundo consumista: a sua atenção.

    É monopolizando a sua atenção que “eles” lhe convencem a comprar os mais variados produtos, inclusive os supérfluos, os desnecessários. E sem sair de casa, tudo ao alcance de um clique, ou melhor, de um toque na tela do celular.

    É captando a sua atenção que “eles” lhe convencem a acreditar nas mais variadas informações, inclusive nas famosas “fake news” (falsas notícias), manipulando a sua opinião.

    Foi prendendo a sua atenção e, por causa disso, vendendo anúncios na internet, que empresas do setor fizeram fortunas, tornando-se gigantes no mercado mundial. 

    Infelizmente, as distrações do “smartphone” também captam a atenção de muitos motoristas no trânsito. Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, no ano de 2018, revelou que uma em cada cinco pessoas admite utilizar o celular enquanto dirige um veículo automotor. Outro levantamento, realizado em 2019 pela Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), mostrou que o uso do celular ao volante aumenta em 400% a chance de acontecer um acidente e já se constitui a terceira causa de mortes no trânsito brasileiro, vitimando cerca de 150 pessoas por dia e 54 mil, anualmente.

    É claro que a comunicação e o fluxo de dados otimizados pelo “smartphone” revolucionaram o nosso dia-a-dia. Pessoas trabalham e ganham a vida utilizando esse aparelhinho. Alguns aplicativos de celulares praticamente aposentaram os mapas rodoviários, auxiliando-nos, com precisão cirúrgica, nos deslocamentos por ruas e cidades desconhecidas sem a necessidade de nos guiarmos por meio de placas ou pedirmos ajuda a algum morador local. 

        O “smartphone” facilitou a obtenção de imagens e a produção de vídeos, decretando o fim das câmeras fotográficas digitais e de filmadoras domésticas. Também facilitou a compra de produtos e serviços pela internet, impactando o comércio tradicional. 

        São inegáveis os benefícios do celular conectado à internet, no entanto, devemos lembrar que todo exagero não é saudável!

    É mais saudável reservar um tempo para conversar com nossos amigos e parentes, nos momentos de lazer e descanso, do que ficar vidrados na tela de um celular.

    É mais saudável assistir a um filme, ler um bom livro, passear, praticar exercícios, sentar-se no banco da praça, despreocupado, vendo o tempo e as pessoas passarem, do que não tirar os olhos de um “smartphone”.

    É mais saudável usar com parcimônia esse aparelhinho luminoso, que tanto nos prende a atenção, do que fazermos de seu uso um vício.

    Como destacado na reportagem da revista Superinteressante, quem sabe daqui a alguns anos, olhemos para o vício em “smartphones” com o mesmo “ar de reprovação” que encaramos o cigarro hoje em dia. Ou, infelizmente, talvez tudo fique como está. Talvez continuemos presos à telinha do “smartphone”, com os olhos vidrados, a atenção sequestrada e a opinião manipulada. Talvez ainda continuemos, por muito tempo, viciados em celulares, como os fumantes inveterados dos anos 1970 eram viciados em cigarros.

últimas