PERCUSSIONISMO

DA FRANÇA, RUMO À ALEMANHA

DA FRANÇA, RUMO À ALEMANHA

Publicada há 5 anos

Por João Leonel 


Logo aos 6 anos de idade, despertava o talento de Rubens Celso Lopes Filho para o mundo da música. Os primeiros instrumentos eram de brinquedo. Mas a brincadeira começaria a ficar ‘mais séria’ dois anos depois, quando iniciou a leitura de partituras nas aulas de teclado e piano. Eis que, aos 10 anos, ganhava dos pais o instrumento que sempre quis: uma bateria. Com 14 anos, sua família vem de Estrela d’Oeste para Fernandópolis, e o então ‘jovem’ baterista ingressa na OSFER - Orquestra de Sopros de Fernandópolis, sob a batuta do maestro, amigo e grande incentivador, Luís Fernando Paina. “Lembro que formamos a Big Band Conexão, na OSFER. Temos uma gravação que fizemos com o Beethoven (Rybezynski)”, conta Rubens. À época, indicado por Paina, aceita o convite para integrar a Banda Velho de War, ao lado do baixista Felipe Rossi, e dos guitarristas e vocalistas Ronaldo Thomé e Serginho Kamiyama. A Velho de War - hoje com Renato Pateis “Noel” no baixo e Du Pessotta na bateria - segue em plena atividade sob o comando de Serginho Kamiyama e Ronaldo Thomé, galera com quem Rubens sempre mantém contato. 


Nos shows, principalmente fora da cidade, as autorizações da Vara da Infância e Juventude tinham que ser sempre renovadas para que o garoto de apenas 15 anos pudesse subir ao palco. E ele decolou. Foi o voo mais importante da incrível carreira musical de “Rubão”, apelido que ganhou dos amigos da banda. Ao concluir o ensino médio na escola JAP, o adeus aos “velhos de guerra”: o garoto, aos 17 anos, aprovado na Unesp, seguia para São Paulo, onde se especializaria em caixa-clara durante a graduação no curso de  Música (Percussão) no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista.


 Em 2012, ano em que se formou na Unesp, tocava na Orquestra Jovem do Estado, e, através da Bolsa Fapesp, fez sua iniciação científica: “Caixa-clara orquestral: diferentes metodologias no estudo do instrumento”. Com grande destaque em diversas apresentações pela Orquestra Jovem e também no Grupo Piap (Grupo de Percussão do Instituto de Artes da Unesp), principalmente nos Festivais de Inverno de Campos do Jordão e Festivais de Santa Catarina, o “prodígio” das baquetas e percussão mirava novos objetivos. “Eu comecei a estudar francês. Precisava me aperfeiçoar em um novo idioma, e um professor, Florent Jodelet, um grande amigo francês que conheci em Campos do Jordão, sempre me falava para tentar uma bolsa de mestrado lá na França. Ele me orientou e fui atrás deste sonho”.  


NA HORA CERTA

 Como bom brasileiro, um verdadeiro ‘guerreiro’ da música erudita, as condições financeiras não colaboravam com Rubão. Uma mudança para a Europa, sem grana, parecia impossível. “Mesmo tendo que estudar muito, e sempre estudei muito, a música exige treino, repetição, mais treino, repetição, concentração, também gosto de Filosofia. Nietzsche (filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche) e Schopenhauer (também filósofo alemão, Arthur Schopenhauer), são alguns dos meus preferidos. Isso me deu uma base muito boa para encarar as complexidades da vida”, ressalta. E o que é o destino? Rubens venceria a 1ª edição do prêmio Ernani de Almeida Machado,  justamente no ano de 2012. Qual foi o prêmio? R$ 60 mil. “Com aquela premiação pude pagar meu curso de francês com tranquilidade, até adiantei alguns módulos para concluílo em menos tempo. E ainda fiquei com uma reserva considerável para encarar minha ida à França, viver e me manter em outro país”. Fora, até aquele ano, o maior prêmio concedido a uma orquestra jovem, o qual deveria ser utilizado para aperfeiçoamento do bolsista premiado, durante cinco anos, em uma instituição de ensino no exterior. Qual? O Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris - Conservatoire National Supérieur de Musique et de Danse de Paris. Mas ainda teria que enfrentar o concurso para garantir a bolsa de estudo oferecida pelo ‘Conservatoire’. Sua despedida da Unesp, e do Brasil, foi numa apresentação com a Orquestra Jovem em um festival na Alemanha. 


SISTEMA DE ‘GUERRA’ 

Sua performance “afinadíssima”, além da premiação no Ernani, já havia lhe garantido vaga na final de um outro prêmio, concedido pela Revista Concerto. Para conseguir entrar no mestrado na França, Rubens foi avaliado através de uma prova escrita e por um corpo de professores-jurados, após 30 minutos de prática, tocando música contemporânea e um solo instrumental. “Era mais comum eles aprovarem alunos que haviam concluído o bacharelado no próprio conservatório. É muito difícil um músico do Brasil conseguir uma vaga lá. Fui o primeiro brasileiro aprovado em percussão para o mestrado. Recentemente, além de mim, acho que só dois pianistas e um flautista do Brasil”, pontua. Os primeiros registros de músicos brasileiros na instituição de nível superior da França datam do início do século XX. Em percussão, Rubens é pioneiro. Ao todo, concorriam ao mestrado parisiense, para um período de dois anos de estudos, cerca de 50 candidatos, isso na segunda fase. De lá para cá, ele já cursou dois mestrados e está prestes a concluir o terceiro, em tempo recorde. “O primeiro mestrado foi em Percussão. O segundo, Improvisação Generativa (livre), focando padrões da música contemporânea, música clássica e jazz, e o terceiro em Música para Orquestra, este ainda falta a prova final”, explica. Os mestrados no Conservatório de Paris são bancados pela própria instituição. 


Para se manter em Paris, o percussionista vem colecionando apresentações enriquecedoras, entre elas, com a Grande Orquestra de Jean-Jacques Justafre, músico e maestro que “herdou” o comando da orquestra do memorável Paul Mauriat. “Para me manter em condições de tocar em alto nível, o período de estudo chega a 13 horas por dia. Além do treinamento, assim que termino de estudar, coloco os fones de ouvido para memorizar as músicas. Ou seja, até quando estou na cozinha fico ouvindo as músicas, concentrado no que tenho que tocar, é muito intenso. Nesses quatro anos que estou no conservatório, já toquei com as grandes orquestras da França, Orquestra de Paris, Orquestra Nacional, Orchestre Pays de la Loire. Com o Ensemble Intercontemporain, um dos maiores grupos de música contemporânea do mundo. Também com o New York City Ballet, no teatro Chatele. Consegui durante esse tempo vários contratos para apresentações com diversos grupos, até com uma Brass Band já toquei. Com Jean-Jacques Justafre toquei em 22 concertos durante uma turnê pelo Japão, além de me apresentar na Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Escócia, Noruega, Itália.”


COM TOQUINHO

 Um músico brasileiro em alta na Europa chama a atenção de grandes músicos do Brasil que excursionam pelo velho mundo. Foi assim com Toquinho. “O Toquinho é um cara espetacular, ele não larga o violão. Fica o tempo todo tocando, até enquanto a gente tira um tempinho para conversar, no camarim. Teve um dia que ele ficou conversando com a gente, vários músicos, e não parava de tocar, sempre compondo algo novo, relembrando algum música mais antiga. Chegou na hora do show, ele nem teve tempo para tomar banho e se arrumar direito. Ele simplesmente não larga o violão”, confidencia Rubens. Outra passagem que tem guardada na memória, foi quando acompanhou Toquinho em um show num antigo teatro em Paris. “Aquele teatro mais parecia um museu, muito antigo. O calor lá dentro impressionava. Mas eu me lembro que o Toquinho, assim que chegamos lá, parou em frente ao teatro, ficou pensativo, e disse: ‘conheço esse lugar, foi aqui que tocamos pela primeira vez na França, eu, o Vinícius e a Miucha, quando fizemos nossa turnê’. Eles tocavam muito na Itália, mas ele se lembrou do Théâtre du Ranelagh, em um bairro muito conhecido de Paris. Também toquei, ainda ao lado de Toquinho, com a violoncelista Ophelie Gaillard. Gravei um CD com eles, uma honra, fizemos um super trabalho”. 


LUC BESSON 

E Rubens Lopes figura entre os músicos que participaram das gravações da trilha sonora da nova produção do visionário diretor de cinema Luc Besson, consagrado em películas como Subway (Metrô), Lucy, e ‘O Quinto Elemento’.  Trata-se do filme ‘Valerian e a Cidade dos Mil Planetas’, com previsão de lançamento no Brasil para o mês de agosto. Uma produção 100% francesa com o investimento mais caro da história do cinema francês. Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Kris Wu, Alain Chabat e Herbie Hancock compõem o elenco. É baseado em quadrinhos futuristas do século 28, criados em 1967 por Pierre Christin e Jean-Claude Mezieres, que já influenciaram Star Wars e também O Quinto Elemento. Em 2740, Valérian e Laureline são dois agentes espaço-temporais. A bordo de sua nave Intruder, a dupla cruza o espaço e o tempo para realizar as missões que lhes são confiadas pelo Governo dos Territórios Humanos. Não perca o filme, ‘Rubão’ está nele. 


DESPEDIDA DA MÃE 

A vinda do jovem percussionista a Fernandópolis neste mês de maio registra uma passagem de profundo pesar. Sua presença na cidade era também para acompanhar um delicado tratamento médico a que sua mãe, a professora Sônia Maria Silva Lopes, se submeteria. Ao lado do pai, o dentista Rubens Celso Lopes, estava em Rio Preto, onde Sônia veio a falecer durante o procedimento cirúrgico. “Foi muito triste. Era uma doença grave, havia um grande risco. Esperava passar o dia das mães ao lado dela. Como já falei, a Filosofia me proporciona alguns entendimentos que se complementam com a música. Já falei de Nietzsche e Schopenhauer, mas em Paris, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir são uma influência muito forte, política e socialmente. Uma cultura diferente, onde o voto não é obrigatório, é livre, com uma base educacional fortíssima, o ativismo político, o feminismo, o censo de Justiça.


 As pessoas são diretas quando têm que falar com você, vão diretamente ao ponto. Tudo isso me conforta de certa maneira, e até é a base de um texto que venho desenvolvendo, já tenho umas 100 páginas escritas. ‘Caixa-clara e ciência cognitiva’, será minha tese de doutorado ou vai virar um livro”, declara Rubens. Com a namorada, que é dançarina, vai para a Alemanha, onde prestará concurso para doutorado. “É talvez uma formação que concluiria minha fase de estudos. Com um doutorado poderia voltar ao Brasil, mas só se for para dar aulas em faculdade. Quando eu terminar meu doutorado, assim que tiver um concurso em uma boa faculdade de música aqui, penso sim em retornar.”



Músico concedeu entrevista na sede da Orquestra de Fernandópolis, onde estudará até o dia 1º de junho, quando retorna à França 





Ao centro, durante estudos e treinos diários na OSFER nestas últimas semanas; nas imagens ao lado, registros de shows com Toquinho 




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