quarta, 13 de dezembro de 2017
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01/08/2017 15:26
Edição 3098

VIRGÍLIO

Por O.A Secatto 


Passageiro. Virgílio, com Dante, na barca de Caronte, arte de Gustave Doré 



A mais negra noite. Estava escuro. Mesmo abrindo os olhos, tudo estava escuro. Trevas, e sombras nas trevas, e vultos nas sombras. Sons graves como abismos do mundo lhe faziam tremer as próprias vísceras. Ressoavam seu próprio medo, sua angústia. Então, um agudo sibilante cortou-lhe a consciência e o imobilizou. Do negrume irrompeu uma forma fantasmal. Tentou uma palavra, mas ela não saiu. O espectro aproximou-se sereno, mas num rasgo abriu as asas da morte e cravou-lhe uma foice no peito. “Maldito pesadelo!”, gritou, despertando num pulo.


Estava num barco de madeira velha, escura e rangente. As ondas o agitavam para além do impensável. Ventos tempestuosos moviam nuvens baixas e tentavam dissipar a caligem em vão. Apenas relâmpagos a dar um ligeiro clarão vez ou outra por entre trovões ensurdecedores. Efêmera luz. Tétricos pensamentos.


Ao dar por si, naquele barco caliginoso pensou ver a morte novamente. “Não consigo despertar. Nunca consigo despertar... Estou no pesadelo uma vez mais.” Encolheu-se na proa, mas não tinha onde esconder-se. Ficou silente como a morte que julgava ter nos olhos.


Aquela figura sombria conversava com um outro homem no barco. Representando-lhe outro pesadelo, passou a ouvir.


— Como vim parar aqui? O que me aconteceu? — perguntou o homem, confuso.
— Todos sabem que tais detalhes não me importam. Basta estares morto.
— Morto? Não posso ter morrido, não agora. Meus pais que dependem de mim, meus projetos! Meus projetos! Tinha tanto ainda por fazer. Sou jovem, vê, meu senhor.
A figura encapuzada o ignorava. Odiava não mais saberem seu nome e de sua existência. Continuou remando.
— Por que não pude falar à morte? Eu lhe teria argumentado! Minha vida era digna e reta: eu ainda tinha tempo, precisava de mais tempo. Ela me ouviria, senhor, a morte me ouviria! Aceitaria minhas razões. Trar-me-ia de volta à vida, mais simples do que ma tirar.
— É sempre burlesco ver os homens e suas certezas. Sempre donos de si, dos próprios destinos, do mundo! — e gargalhou.
— Infernos!
— Infernos verás em breve, não te preocupes. Terás o teu próprio.
— Não vejo graça nisso, homem maligno.
— Sou tão maligno quanto és esclarecido.
— Não entendi.
— Tu mesmo assim te provas imbecil: poupas-me o trabalho.
— De nada adianta discutir contigo, parece-me. Mas por que tanta gente naquelas margens? Para onde vamos? Por que ficam?
— Conduzo-te a teu círculo, qualquer deles que te sirva. Os desgraçados das margens não podem ser atravessados: vagarão pela eternidade ou se afogarão no Aqueronte.
— Por que só eu sou atravessado por ti, então?
— Não és o único. — Caronte apontou para o outro homem. Depois, abriu a mão. Dedos finos e pálidos desvelaram duas moedas.
— Não tenho ciência disso — confessou, surpreso, o homem.
— Moedas, estulto, moedas. O óbolo que me é devido. A tradição estava no oblívio, já o lastimei certa vez — e olhou novamente para o homem encolhido na proa. — Contudo, de rara surpresa tolhi-me, quando aos poucos foi voltando. Então, pingou-me como o cálido orvalho da madrugada a umedecer as folhas rasteiras.
— Estavas sem moedas e agora elas te vêm em abundância?
— Não, pacóvio! Ah, a sagacidade te deixou quando morreste, se é que a tiveste em vida — exasperou-se como sempre. — Elas não me vêm demasiadas. Mas da sequidão em que estava, do ócio que me afligia ao ver tantos se acumularem na riba do Aqueronte, quaisquer outras poucas moedas são-me já bem-vindas. Volto à minha jornada: moedas pela minha liberdade. Por que ainda falo contigo, néscio?
— Esse aí não é meu nome, senhor.
Caronte bufou e cofiou a barba. Enfastiado da tagarelice e da lamúria do pobre homem inconformado com a própria sorte, o barqueiro puxou o capuz e olhou para o encolhido da proa. O que estava perto de si calou-se de vez. O outro encolheu-se ainda mais, acreditando poder esconder-se do que julgava ser a morte.
— Se não te agrada a embarcação, pula nas águas. Elas te receberão com alegria — disse o barqueiro.
— Quem és tu? E onde estou?
— Esta vai ser divertida — sussurrou para si mesmo. — Tolos me vêm, um ou outro desfaçado me foge, e agora imbecis me voltam. Deuses!
— Por que falas em enigmas, barqueiro?
— Ah, sabes o que sou.
— Se tens o remo na mão...
— Qual teu nome? — perguntou já sabendo a resposta.
— Virgílio. E o teu?
— E isso não sabes?
— Teria como? Deveria?
— Muitos de teu nome por cá passaram. O que fazes aqui?
— Bem não sei, confesso. Nem por que estou nesta condição. Pelo que ouvi do outro ali, estamos mortos.
— Singela inteligência. Já é um avanço.
— Não gosto de teu humor, barqueiro.
— Sou Caronte, não te lembras? — esboçou um sorriso. — Eis o meu nome, como certa vez ouviste.
— Não ouvi. E como haveria de lembrar? Pode-se, acaso, morrer duas vezes?
— A bem da verdade, não. Mas... — conteve-se.
— Mas o quê? — disse, curioso.
— Houve já quem tentou me enganar e, a ludibriar-me, pensou poder fugir à morte e seus procederes. Tolo! Ninguém, senão os sagrados, cruza o Aqueronte sem passar por mim.
— De quem falas?
— De ti, intrujão!
— De mim? Como pode? Outro pesadelo!
— Não te iludas, isto não é um pesadelo. Não desta vez. Hás de saber: é tua realidade. Como se não soubesses.
— E a quem morre é concedido lembrar-se da vida?
— Sim. Mas os mortos vêm presos às suas angústias, mágoas e mesquinhezas. Correntes suas. Não lhes sobra espaço às outras coisas, por melhores que sejam. Outra prova de quão medíocre é o homem.
— Não me lembro, não consigo lembrar-me de nada.
— Pois bem — disse o barqueiro, e estendeu o braço. Num átimo de assombrosa leveza atravessou a distância de popa à proa e tocou de Virgílio a testa. Um raio pareceu cortar-lhe a mente, e tudo voltou. Virgílio, pasmo, arregalou os olhos.
— Deus.
— A ele há mais do que ocupar-se. Deixemos assim. Já da morte ninguém foge, embora esforcem-se — e até por vezes consigam — por virar de novo a clepsidra. Vê por ti mesmo: o rasgo no teu ventre ainda está aí.
— Tive, então, mais tempo como desejei — ressoou, olhando para o vazio.
— Ontem dei-te dez anos. Hoje estás aqui de volta.
— E não concluí tudo que queria.
— Homens, nunca satisfeitos, sempre descontentes e, no fundo, infelizes. Se o meu é eterno, o vosso sofrimento é duradouro, a cortar-se apenas de pausas na dor a que chamais felicidade.
— Se eu ao menos pudesse...
— Não! — cortou o barqueiro — Não podes. La commedia è finita.
— Que seja. Mas bons negócios te fiz, não negues.
— Óbolo, Virgílio, moedas que me voltem a correr. Nada mais.
— Obrigado, amigo. Os deuses tenham misericórdia de ti por teus esforços e contentem-se com o que angariar tua arca.
— Não tenho amigos, não te enganes. Mas sou-te grato, não duvides.
— E pela palavra mantida, o que ganho?
— Já ganhaste: teu tempo, outra chance.
— O óbolo retornando não te alegra? Diz que não foi só o que mereci.
— És engenhoso e sagaz, e tua língua tem palavras doces e sedutoras, mas, para teu bem, não as julgo traiçoeiras. Enganas a bom contento sem prejudicar, ao que parece.
— O que vem desse discurso?
— Dou-te a última paga, que seja. A riba privilegiada te conduzirei. Lá podes poupar alguns círculos.
— Outra benesse dos deuses a vir de tuas mãos.
— De minhas mãos os deuses teriam opróbrios e flagelos, não te iludas. A benesse é minha, lembra-te disso. E tudo acaba aqui. Fizeste tua parte. A minha fiz em demasia.
A tudo ouviu o outro tripulante, que com braços suplicantes dirigiu o olhar a Virgílio sem falar nada. Uma palavra a Caronte lhe serviria, que bem entendeu uma intenção que ali se repetia. O barco foi voltando ao Aqueronte. Virgílio despediu-se na outra ribeira e apontou o dedo ao companheiro de viagem. Com no rosto um sorriso zombeteiro, disse ao barqueiro.
— Ele ali quer falar-te, creio.