segunda, 20 de novembro de 2017
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29/08/2017 15:14
Edição 3118

‘NINGUÉM NASCE HERÓI’ E O GRITO DE RESISTÊNCIA DOS ESCRITORES

Numa época de incertezas e preconceitos, Ninguém nasce herói, novo livro de Eric Novello, é um comovente e necessário apelo contra a intolerância

Por Bruno Anselmi Matangrano



Uma semana antes dos episódios vergonhosos ocorridos no último dia 13 de agosto, na cidadezinha americana de Charlottesville, a livraria Saraiva do Shopping Pátio Paulista recebia horas de filas de leitores entusiasmados para pegar um autógrafo em seus exemplares de Ninguém nasce herói(Editora Seguinte), o novíssimo livro de Eric Novello, autor de Exorcismos, Amores & uma dose de blues (Ed. Gutemberg), Neon Azul (Ed. Draco), dentre outros.


Talvez você esteja se perguntando o que uma marcha neonazista ocorrida nos confins do estado americano da Virgínia, que acabou em conflito e resultou na morte de alguns inocentes, tem a ver com o belo livro de capa preta e colorida recém-publicado pelo selo jovem da Cia. das Letras, uma das mais tradicionais editoras brasileiras. A resposta é, por mais surpreendente que possa parecer ao leitor desavisado, ambos têm tudo a ver, pois Ninguém nasce herói, assim como outros grandes livros contemporâneos (penso em Homens Elegantes, de Samir Machado de Machado, ou a HQ Savana de Pedra, roteirizada por Felipe Castilho, por exemplo), certamente não existiria (ou, ao menos, não na forma como foi escrito) se não estivéssemos vivendo um momento tão perigoso de conservadorismo e consequente preconceito, intolerância e fanatismo. Livros como este são gritos de resistência contra tudo isso, apresentados em meio a belas — e bastante dolorosas — histórias, como a da nova obra de Eric Novello.


Ninguém nasce herói é uma distopia, ou seja, um livro que se passa em um futuro ainda pior do que o nosso presente; nele, vemos uma São Paulo alternativa bastante similar à São Paulo real, em um Brasil que vive sob uma lamentável ditadura religiosa, que prega a intolerância a todos aqueles considerados diferentes, que por tantos séculos lutaram para conquistar e assegurar seus direitos mais básicos, isto é, mulheres, negros, gays, transgêneros e outras minorias, que, infelizmente, ainda são perseguidas dentro e fora dos livros, como Charlottesville tão realisticamente ilustrou.


Com este contexto macabro como pano de fundo, conhecemos Chuvisco, parte nome, parte apelido da personagem principal, um jovem tradutor com seus 20 e poucos anos, que junto com seus seletos amigos, Pedro, Cael, Amanda e Gabi tenta ajudar o mundo como pode, através de pequenos gestos de generosidade, seja doando um livro em uma praça pública, seja visitando uma ONG de crianças LGBT, seja fazendo coro ao protesto de uma marcha na Paulista; assim, por meio deste trabalho de formiguinha, calcando pedra sobre pedra, erguem uma defesa sedimentada na amizade e na empatia contra os fundamentalistas.


Ao contrário das sagas distópicas da moda, como Jogos Vorazesou Divergente, a obra de Novello não acompanha a façanha de um grupo de escolhidos lutando contra o sistema até por fim derrubá-lo, restabelecendo a justiça (até há um Escolhido, mas este é o grande vilão, travestido de presidente); ao contrário, o mundo de Eric é bem mais realista (por falta de palavra melhor), na medida em que acompanhamos um grupo de jovens absolutamente normais, sem habilidades ou poderes extraordinários ou especiais, que vive o seu dia a dia, como quaisquer outros jovens idealistas, à sombra de uma ditadura, lutando em sua vida cotidiana para exercer cada pequeno direito cerceado pelo governo do Escolhido, este grande facínora que tenta bancar o bom moço, enquanto deixa facções de fanáticos fascistas caçarem minorias nesta São Paulo dividida, aos brados de gritos intolerantes, como os que ecoaram em Charlottesville, em nome da discriminação e do preconceito.


É justamente por isso, e para evitar que o triste Brasil distópico profetizado por Novello se torne realidade, que convido a todos a lerem e a refletirem sobre Ninguém nasce herói, torcendo para que tais experiências nunca saiam do livro para assombrar a realidade; pois, ainda que os neonazistas de Charlottesville e outras aberrações estejam por aí para mostrar que o tempo das reais distopias está mais próximo do que nunca, os gritos de apelo e de alerta dos escritores, que já perceberam o perigo há tempos, estão por toda parte nos mostrando os riscos com todas as letras.


O perigo está à espreita, o aviso foi dado. Até quando o mundo vai ignorá-lo?


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BRUNO ANSELMI MATANGRANO, TRADUTOR E AUTOR DE DIVERSOS CONTOS E ARTIGOS, É MESTRE E DOUTORANDO EM LETRAS PELA USP


Autor. (acima) O escritor Eric Novello; (acima, à esq.) a capa do livro ‘Ninguém nasce herói’