segunda, 20 de novembro de 2017
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29/08/2017 15:36
Edição 3118

DEZ ANOS SEM PAVAROTTI

Música

 

Em 2017 são lembrados os dez anos da morte de Luciano Pavarotti, tantas vezes chamado de ‘tenor das multidões’ por repopularizar a ópera

 

Luciano Pavarotti

«12/10/1935

† 06/09/2007

 


Ma il mio mistero è chiuso in me, il nome mio nessun saprà! No, no, sulla tua bocca lo dirò quando la luce splenderà!” Depois, claro, o final “All’alba vincerò! Vincerò! Vincerò!”. Foram essas estrofes, na voz inconfundível do gordinho barbudo, que mudaram minha vida. Pois a música — os gêneros que apreciamos — define muito do que somos e queremos ser.


A ária é Nessun dorma!, da ópera Turandot, de Giacomo Puccini, cantada pelo misterioso e apaixonado príncipe tártaro Calaf após vencer o desafio de três enigmas da princesa chinesa Turandot — o que lhe garantia sua mão em casamento — e, para conquistá-la, propor a ela um único: que diga seu nome antes do amanhecer; se o fizer, o príncipe deixa-se decapitar — como se tivesse perdido o desafio anterior.


No embalo do concerto dos Três Tenores de 7 de julho de 1990, em Roma, José Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti estavam juntos novamente. Desta vez, em San Francisco (EUA), em 16 de julho de 1994, véspera da final entre as seleções do Brasil (nossa) e da Itália (do gordinho barbudo) pela Copa do Mundo. 


Enfim, o jogo não acabou bem para o Pavarotti, mas... Fora o fato do tetra brasileiro de futebol, o tenor italiano deixava uma marca na história da música — e em mim: nunca alguém cantou Nessun dorma! como Pavarotti; e nem ele mesmo jamais cantou como naquela noite. Insuperável. (Para ver, ouvir e comprovar, no YouTube, digite: “Pavarotti Nessun Dorma 1994”.)



***


Eu tinha treze anos e ainda não encontrara “a minha música”: ouvia sertanejo nas fitas cassete de meu pai e músicas italianas do curso da língua que fizera, além de tantas outras de tantos gêneros. Até que o inexplicável ocorreu.


Transmitiram o concerto de encerramento da Copa de 1994 na tevê aberta. Era sábado à noite. Inexplicavelmente, deixei o videocassete gravando e fui dormir — o dia seguinte era de trabalho logo cedo no Frangão: não dava para ficar acordado até tarde. No domingo, depois do trampo, passei a assistir à fita. Sem muito entusiasmo. Acelerava a reprodução de alguns trechos, deixava reproduzir outros. 


Até que, sabe Deus lá por que, apertei “play” bem na vez daquele barbudo, a gravata-borboleta enorme para conseguir dar a volta naquele pescoço avantajado.

A ária começa lenta, uma conversa com a princesa ausente e, de repente, uma melodia arrebatadora: “Ma il mio mistero è chiuso in me...” Então, algo inevitável: fui tomado de um arrepio completo, revirei-me no sofá e vidrei na tela. “Essa é uma das coisas mais lindas que já ouvi...” Ele continua: “Sulla tua bocca lo dirò...” 


Agudos belíssimos, seguidos, a voz límpida e potente, um encantamento. “Como será o final disso?!” Após o coro que lamenta o fato de que ninguém descobrirá o nome do misterioso príncipe, a retomada: “Dilegua, o notte! Tramontate, stelle!...” Eu: “Tem mais? Tem mais?!”


Tinha.


“All’alba vincerò!” Eu no sofá, sem piscar, já inquieto, por levantar. “Vincerò!” Eu no sofá, com os olhos arregalados. “Vinceeeeeeeeeeerò!”


Nove segundos de um agudo heroico, vitorioso e insuperável.


Eu saltei do sofá e fiquei em pé, imóvel diante da tela, tomado por uma emoção indescritível. A expressão no rosto do Pavarotti. “É disso que eu gosto. É isso que eu quero ouvir!”


Desde então, nunca mais abandonei a ópera; e ela também não me abandonou.


***


O filho de Fernando Pavarotti e Adele Venturi nasceu em Modena (Itália), em 12 de outubro de 1935; morreu na mesma cidade, em 6 de setembro de 2007. Nesses quase 72 anos de vida, fez muitas coisas. Algumas boas; outras não lá tão boas.


Seu pai era padeiro e tenor amador. O pequeno Luciano, ao ouvir o pai cantar em casa, subia na mesa, arriscava algumas notas de La donna è mobile e dizia: “Meu pai é um tenor e eu sou um tenorzinho!” Ambos cantavam no coral local.


Luciano quis ser jogador de futebol, foi professor primário e corretor de seguros. Mas o encanto pela música falou mais alto e, enquanto trabalhava para sobreviver e pagas suas aulas, estudou canto. E o mundo nunca mais foi o mesmo.


Começou sua carreira profissional em 1961 na Itália. Mas, como santo de casa não faz milagre, tornou-se realmente conhecido apenas em 1965, em terras australianas, durante turnê com a soprano Joan Sutherland — esta também um primor de voz. No início da década de 1970, apresentou-se no Teatro Alla Scala de Milão e, nos Estados Unidos, no Metropolitan Opera House, onde cantou o papel de Tonio da ópera La Fille du Régiment, de Gaetano Donizetti: arrebatou o público com a voz potente e cristalina ao encarar a ária Ah, mes amis!... Pour mon âme. Ganhou fama mundial com seu tom brilhante e belo, em especial pelo alcance vocal: registro médio elegante e agudos com uma facilidade assustadora e invejável. Não parou mais.


São memoráveis suas interpretações do Duque de Mântua, do Rigoletto, do Alfredo de La Traviata, do Manrico de Il Trovatore, do Riccardo de Un Ballo in Maschera, do Radamés de Aida, todas de Giuseppe Verdi, do Nemorino de L’Elisir d’Amore, de Gaetano Donizetti, do Cavaradossi de Tosca, do Pinkerton de Madama Butterfly e do Rodolfo de La Bohème, estas de Giacomo Puccini. Sua gravação de Messa da Requiem, de Verdi, com Nicolai Ghiaurov, Leontyne Price e Fiorenza Cossotto, e regência de Herbert von Karajan, é referência desde 1967. Para mim, insuperável. Despediu-se da ópera no palco do Metropolitan Opera House de Nova York, em 2004, com récita de Tosca, quando foi aplaudido por onze minutos ininterruptos.


Nesse meio-tempo abraçou a popularidade e tornou-se pop.


Ao ar livre, realizou concertos televisionados no Hyde Park, em Londres, para um público de 150 mil pessoas; em 1993, para mais de 500 mil pessoas no Central Park, em Nova York, apenas para citar alguns.



Em sua cidade natal, entre os anos de 1992 e 2003, realizou os concertos beneficentes Pavarotti & Friends, em que dividiu o palco com grandes nomes de diversos gêneros musicais: Andrea Bocelli, Zucchero, Eros Ramazzotti, Eric Clapton, James Brown, Ricky Martin, Simon Le Bon, Laura Pausini, Elton John, Bryan Adams, Queen, Céline Dion, Jon Bon Jovi, Michael Bolton, Stevie Wonder, Queen.


***


Em 2000, os Três Tenores vieram ao Brasil e se apresentaram em São Paulo, no Morumbi. Esse gosto ninguém me tira: posso dizer que ouvi o Pavarotti cantando ao vivo. E lá estava minha Bella esposa, mobilizando a família inteira da minha sogra para a execução da logística de nos levar ao estádio — e, quem sabia?, trazer-nos de volta.


***


Foi uma figura intensa e também controvertida. Em 1996, já com 61 anos, separou-se de Adua — com quem teve três filhas — após 36 anos de casamento, para assumir sua relação com sua secretária particular Nicoletta Mantovani — com quem teve uma filha. Cancelava compromissos, récitas, concertos; deixava agentes, diretores e produtores malucos. Discutia e brigava com maestros. Personalidade forte.


Além da voz, única, Pavarotti foi muito do que foi graças a um elemento que tantos de seu tempo e sua arte invejavam, mas não tiveram: carisma.


Carisma é como talento: ou você tem ou não tem. O gordinho barbudo tinha. Em quantidades proporcionais à sua circunferência abdominal.


Mesmo nunca tendo-o conhecido pessoalmente nem dado o abraço de fã que eu gostaria, o gordinho barbudo, desde 1994, era uma figura muito próxima para mim.

Sua ausência no mundo é sentida.


Eu sinto.


Família. O ternor com os pais Fernando e Adele