quarta, 13 de dezembro de 2017
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04/10/2017 14:54

POESIA

Por Lino Marfioli 


ERA UMA VEZ

(fábula sobre o fabuloso, o que havia de haver)


Para

Manoel de Barros, poeta das coisas simples


Era uma vez um homem...

Carregava o outono na voz

e no olhar o macio de uma antevisão.

Vislumbrava — primavera de afagos —

almofadinhas de bem querer.

Indagava, no azul, os caminhos do quando.

Amalgamava as possibilidades do verde,

alargava margens, o como, as adjacências da cor.

E existia então.

Não era somente canto;

habitava silêncio fecundo.

E confeitava o recordar — o que seria, se fosse...

Talvez esperasse o inesperado.

Quem sabe a essência, o perfume?

E polvilhava a esperança...

Argamassava luas

e sóis, no crepitar das auroras.

Degustava, lento, a gema adocicada do sonho.

Seu corpo — horizonte coalhado de flores —

convidava o desejo, o sequioso pássaro,

o sorriso moreno da amada.

E gestos de musgo houvera

no aveludado amoroso das mãos.

E nem se sabia infinito, se era,

se podia ser, assim,

inocência exalando, no coração do eterno.



12/04/2011



*

LINO MARFIOLI

É PROFESSOR APOSENTADO




NO CIRCO

(procura-se um malabarista)



Para

Ari Marcelino de Oliveira Filho

 

 

O sofrimento faz parte da vida.

Há casos em que ele é a própria:

ela é o machucado que dói.

Mas sei que o show não pode parar.

Só peço que cancelem a apresentação do palhaço.

Demitam-no, e chamem o malabarista.

Hoje não tem goiabada.

Hoje não tem marmelada.

(Hoje não tem maquiagem nem piruetas de momo)

Nada é tão patético, tão escandalosamente trágico

como um palhaço sem graça.

O distinto público merece

ser poupado desta infâmia.

(E é preciso fazer valer o valor dos ingressos)

 

 

18/11/2010

 

 

*

LINO MARFIOLI 

É PROFESSOR APOSENTADO