quarta, 13 de dezembro de 2017
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09/10/2017 15:23
Edição 3147

Hoje a coluna não tem título; nem precisa

Por Claudinei Cabreira


Aprendi gostar de leitura na minha infância. E comecei como a maioria das pessoas da minha geração; as meninas lendo fotonovelas e os meninos devorando as revistas em quadrinhos. Tive até coleções delas, mas gostava mesmo era dos gibis de cowboy, de super-heróis e das inúmeras publicações de Walt Disney. Livros eram muito chatos e a maioria não tinha gravuras. Só traziam textos longos e palavras difíceis, que para entender, era preciso apelar para o “Pai dos Burros”, o dicionário.


Nas terceiras e quartas séries do primário, os alunos que fechavam as notas do ano com antecedência, lá pelo terceiro ou quarto bimestres, passavam a ter o privilégio de ler livros nas classes durante as aulas. E foi aí que eu li a coleção inteira de Monteiro Lobato, que era o que havia na biblioteca do Grupo Escolar “Afonso Cáfaro” e acho que foi a partir dessa época que tomei gosto pela coisa.


Depois de concluído o primário, para ingressar no Ginásio era preciso passar pelo exame de admissão, um tipo de mini vestibular, uma prova mais ou menos como o Enem onde eram classificados os que obtinham as notas mais altas. Lembro que fiz o cursinho de admissão na Escola Vocacional aqui de Fernandópolis, que era comandada pelo Padre Damião Van Der Zanden, um holandês “meio maluco beleza” que empolgou a mocidade católica daqueles tempos.


Padre Damião sabia das coisas. Sempre novidadeiro e motivador, trazia jogos inteligentes, livros escolhidos a dedo para nossa faixa etária, além de filmes e slides para nos mostrar como era o mundo lá fora. Principalmente a Holanda, sua terra natal com grandes Moinhos de Vento, seus canais e as imensas plantações de tulipas.


Definitivamente, foi com ele que tomei gosto definitivo pela leitura descobrindo o fascínio de mundos inimagináveis nas páginas da coleção Conhecer e de clássicos como o Conde de Monte Cristo, Os Três Mosqueteiros, Os Irmãos Corsos, Quo Wadis, Mobi Dick,  Ben-Hur, As Viagens de Gulliver, As Mil e Uma Noites, Dom Quixote, Robinson Crusoe, Ivanhoe,  A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Último dos Moicanos , O Máscara de Ferro e tantos outros bons livros.


Na minha mocidade, surpreender a turma era presentear um deles com um livro fosse no dia do aniversário, numa brincadeira  de amigo secreto ou no Natal. Quando completei quinze anos, nunca vou esquecer, ganhei de uma amiga o Diário de Danny e tempos depois, quando ela fez aniversário, retribui na mesma moeda com o Diário de Ana Maria, também de autoria de Michael Quoist. Eram tempos inocentes, tempos de amor platônico entre um mocinho e uma mocinha. Nessas horas, a pior intenção que podia haver era roubar um furtivo beijo no rosto ou ganhar um gostoso e agradecido abraço, nada mais. Eram tempos de Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro de Vasconcelos, lembra?


Continuei lendo, devorando tudo que aparecia pela frente. A leitura já havia se tornado um hábito, uma necessidade na minha vida, igual os tablets, iphones ou ipads para a moçadinha de hoje em dia.  E aí, depois dos dezesseis anos, descobri novos autores, novos estilos. Nos tempos de ginásio tive que ler tudo sobre José de Alencar, do Tronco do Ipê, até Iracema. Mas por sorte, fui além e descobri “As Sandálias do Pescador”, de Morris West e logo depois, devorei  “Sidarta” , Demian e “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse . Um dia descobri “Os Miseráveis e o Corcunda de Notre Dame”, tive minha fase de Victor Hugo e mais tarde, Ernest Hemingway, O Velho e o Mar e Adeus as Armas.


Dos dezoito aos vinte anos e alguma coisa, tive minha fase política. Começava minha época de questionamentos, obviamente influenciado por amigos mais velhos. Corria o ano de 1968 e o meio estudantil fervilhava e ser contra o sistema era ser vanguardista. Então, igual meus amigos, eu era contra o regimão, contra os anos de chumbo. Nessa época descobri Franz Kafka e li Metamorfose e O Processo, e logo depois, por volta de 1972, encontrei algumas obras banidas de Fiódor Dostoiévski, num sebo da Praça da Sé, em São Paulo. Para mim ele foi o maior escritor russo de todos os tempos. Li várias obras dele, mas me apaixonei por Crime e Castigo, Um Jogador, Os Irmãos Karamazov e Noites Brancas.


Depois disso, perto dos trinta anos, fui para uma fase de introspecção, de mergulho espiritual. Foi quando descobri Lobsang Rampa, Gibram Khalil Gibram, Og Mandino e Sathya Sai Baba. Aposto que a maioria dos meus amigos com mais de sessenta, fizeram pelo menos alguns trechos desse caminho. Outros, sei que foram bem mais além. Minha geração tinha o saudável hábito da leitura, falávamos sobre os livros e quantas e boas discussões nós tivemos por conta desta ou daquela obra, deste ou daquele autor. Isso fez alguma diferença em nossas vidas? Muita, mas muita diferença mesmo. Disso eu não tenho a menor dúvida.  Semana que vem tem mais. Até lá.