domingo, 19 de novembro de 2017
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30/10/2017 15:52
Edição 3161

O MÉTODO A SERVIÇO DA REVOLUÇÃO

Por Zé Renato 


“O ilimitado é eterno. Não envelhece nunca. Abraçatodos os cosmos.”

Anaximandro de Mileto


MARX ESTÁ VIVO



A trindade Marx, Nietzsche e Freud compõe aquilo que Michel Foucault (1925-84) nominou “os filósofos da suspeita” ou o “teatro filosófico”. Inegavelmente, formam a base de todo pensamento ocidental. Qual a razão disso?


Evidentemente, há nomes extremamente significativos. Não estou a menosprezá-los. Apego-me aos citados em face de terem tocado as três maiores feridas da civilização: Marx, o aspecto econômico; Nietzsche, a faceta ético-moral, e Freud, a sexualidade.


O aspecto econômico abordado por Marx deflagra a aberração imposta por um modelo injusto, responsável por propiciar um abismo social, econômico, político, cultural e ideológico entre as classes sociais.

MARX (1818-83): o imortal que dividiu o mundo ao meio.Em que pesem eventuais críticas ao filósofo acima, as mesmas, acredito, incidem nos reflexos práticos de sua teoria. Quero dizer, o apresentado teoricamente por Marx, em pleno século XIX, efetuou a práxis, de certo modo, apenas no posterior. A saber: a primeira vez em que o filósofo esteve à frente de evento histórico foi durante a Revolução Russa, em outubro de 1917. Lembrando, Marx viveu e faleceu no século anterior.
O que defendia Karl Marx?


Juntamente com o amigo e parceiro intelectual Engels (1825-98), resolveu investigar a razão do abismo social, econômico e político, o qual antagoniza duas classes: burgueses e proletários, isto é, como explicar o fato de poucos terem muito e muitos terem pouco ou nada?


Leitor atento de Hegel (1770-1831), o jovem Marx cedo se encantou com o idealismo do homem de Stuttgart, professor da Universidade de Jena, autor da bela Fenomenologia do Espírito.


Hegel, representante do idealismo, parte da premissa de que “o racional é real”, ou seja, a realidade é produzida na ideia, é o pensamento que a constrói. Portanto, sua obra maior parte do mais abstrato possível, para atingir o concreto. É a ideia quem conduz o mundo.


Ao contrário, o judeu alemão refez o percurso reflexivo de Hegel: “O real é racional”, quer dizer, é a realidade quem deve produzir a ideia. Consequentemente, parte do mais concreto ao abstrato.


Os hegelianos diziam que Marx e Engels inverteram a dialética; o parceiro intelectual de Karl dizia: “Não a invertemos. Recolocamos a cabeça sobre os pés.”
Denominada de materialismo dialético, a obra de Marx-Engels pretende realizar a “crítica da economia política”. Para isso, retomam a própria Filosofia, em especial Hegel, a economia — uma leitura atenta e crítica do liberalismo econômico, sobretudo Adam Smith (1723-90) e David Ricardo (1772-1823) —, além de debruçarem-se sobre a História, o Direito, Estatística, por exemplo. Rechearam o trabalho com as mais belas páginas da literatura.


Em termos mais compreensíveis: se para Hegel é a ideia quem movimenta o mundo — o filósofo nos fala que há um espírito que conduz a história —, para Marx e Engels, é o mundo que conduz a ideia.


Importante: em Filosofia os conceitos são muito precisos. A palavra “dialética”, do grego, significa: dia, ‘dois’ ou ‘duas’, -lética provém de léktkós, quer dizer, ‘fala’/’vozes’. Assim, “duas falas ou vozes”. Portanto, um diálogo. Lembrando, logos em português designa ‘palavra’, ‘razão’, ‘estudo’ e ‘lógica’. Duas pessoas falam racionalmente acerca de alguma coisa. Trocam ideias, opõem-nas.


Todavia, os filósofos fazem uso conceitual das mesmas de forma específica e exata. Em outras palavras, cada um tem sua conceituação. Hegel trata dialética em termos idealistas, abstratos; enquanto Marx aborda-a de forma concreta, isto é, a partir do real. Ainda que, para ambos, o conceito seja definido como oposição ou embate de ideias.


Então, Hegel arquiteta a realidade com base na ideia. Ela deve conduzir o processo para o “absoluto relativo”. O Estado ideal, o máximo da racionalidade. Trazido pelas mãos da História, sob a batuta da Filosofia. Concluído o processo, seria o “fim da Filosofia”. (Muita sandice foi dita, a partir de uma leitura deturpada do termo.)
Diferentemente, Marx e Engels, dialeticamente, verificaram as contradições inerentes ao processo histórico — por isso também sua Filosofia é nominada de materialismo histórico —, a fim de apresentarem saídas concretas para o problema.
Com todo arcabouço teórico, Marx e Engels investigaram a gênese dessa contradição ou antagonismo de classe. A mesma foi detectada naquilo que denominaram previousacumulation, traduzido por “a chamada acumulação primitiva”, descrita nas páginas da obra O Capital, redigido originalmente em inglês. 


Os mestres verificam que a acumulação de riqueza da burguesia inicia-se no momento em que pequenos camponeses são expropriados das terras nas quais sobreviviam, em face de seu interesse privado em transformá-las em áreas de pastagens de ovelhas, em virtude do rentável comércio de lã na Europa. Os livros de História chamam-na de “política de cercamentos”, os filósofos rebatizaram-na de “expropriação do campesinato”, pois estes foram expulsos, perderam os meios de sobrevivência, ferramentas e a terra. Não lhes restou alternativa, a não ser dirigirem-se para os centros urbanos, para venderem sua força de trabalho nas recém-nascidas manufaturas. Mais um problema: não havia empregos para todos. Resultado: começam a proliferar o desemprego e a exclusão. Detalhe: Marx e Engels anunciam no prefácio da obra O Capital: “Há uma fábula teológica que procura explicar a riqueza e a pobreza.”


A situação se agrava para os trabalhadores, na medida em que se eleva a produção em função do crescimento do consumo. Produz-se mais, vende-se mais. Alguém observa e conclui: por que não uma máquina? Fará mais, mais rápido, sem erros e reclamações.


Entramos na Revolução Industrial, segunda metade do século XVIII. Tristes belas páginas da literatura mostram-nos a desdita. Jornadas de trabalho de vinte horas diárias, sete dias por semana. O agora proletário — termo cunhado por Marx e Engels — submete-se, sem opção a essa realidade, ao infortúnio de ser arrancado de uma vida bucólica, para habitar cortiços fétidos, em cidades cujo céu tornou-se cinza, em face da fuligem e fumaça expelidas das incessantes chaminés. Vale ler um poema a respeito do tema de autoria do genial William Blake (1757-1827). Pior: mulheres e crianças também são “convidadas” a ingressarem no mercado de trabalho. Com os mesmos “direitos” dos homens. Mais uma sugestão: O germinal, de Émile Zola (1840-1902), retrata com tintas fortes e reais a condição dos mineiros nesse período.


Ali está o “ovo da serpente”! A exploração do trabalho — mais-valor, conceito marxista — são as horas as quais o proletário desempenha, ou seja, vende sua força de trabalho, produz, porém, não recebe pelo trabalho. Em algumas horas de labuta, realizou o suficiente para fazer jus ao percebido. No entanto, há mais dois terços de sua jornada, nos quais produz, porém, não recebe. Para simplificar: nessa nova lógica o trabalhador nunca recebe aquilo que verdadeiramente deveria. Sempre produzirá muito mais do que ganha. Produzindo um produto gigante e invisível, por Marx e Engels denominado mais-valor. Esse ganho extra dos patrões gerará acúmulo de capital, o qual produzirá ganhos cada vez maiores, apenas para o dono da produção, pois esse não produz e possui aquilo que é produzido por outro, o qual faz, porém não possui.


Essa perversa contradição gera uma sociedade pautada na dicotomia explorador e explorado. Poucos com muito e muitos sem nada. O capital privado, na visão de Marx e Engels, é responsável pela exploração do trabalho e o acúmulo de propriedade privada. Dito em poucas palavras: ricos e pobres. O pobre trabalha e o rico explora seu trabalho.


Com base na análise racional da realidade, apresentaram um modelo econômico cujo objetivo era superar essas distorções.


Tudo isso, lembremo-nos, século XIX. O capitalismo — modelo criticado por Marx e Engels — ainda passaria pelas fases produtiva e especulativa. Logo, muito além daquilo que puderam pensar escrever e prever.


Portanto, é um argumento falacioso aquele que, equivocadamente, aponta o malogro da teoria marxista.


É possível afirmar que a práxis — isto é, a teoria fazer-se prática e esta redundar revisão da teoria — fracassou, na medida em que os modelos políticos, econômicos, ideológicos e culturais que se elidiram no século XX apontam uma debacle. Ditaduras sanguinárias e corruptas, atrasos econômicos e sociais nasceram em nome do filósofo germânico. Vale dizer: o mesmo falecera em 1883.
Em seu favor, há que se lembrar: não era possível prever tamanho salto do capitalismo. De industrial passou para financeiro, até atingir o estágio do especulativo, movido pela prática neoliberal e de “Estado Mínimo”. Nesse patamar o próprio Estado entrou em crise, no sentido de perder seu poder de decisão, por ficar à mercê dos interesses dos especuladores.


No entanto, vale salientar, apesar do fracasso na prática, sua teoria permanece viva e, mais do que tudo, o método de análise da realidade ainda se comprova eficientíssimo.


Os clássicos não envelhecem.