domingo, 19 de novembro de 2017
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30/10/2017 16:27
Edição 3161

A HISTÓRICA IMPORTÂNCIA DE ‘CEM ANOS DE SOLIDÃO’

Por Gil Piva 



Da sucessão de vários conjuntos históricos concentraram-se os graus de representatividades e de confrontos metodológicos, redefinindo a singularidade histórica e cultural da América Latina: tratava-se da conjugação das relações de identidades e das manifestações entre todos os países latino-americanos — na qual perpassavam as especificidades da cultura oral e dos temas folclóricos.


Se o dito acima pudesse ser representado por uma única obra literária, com certeza ela seria Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.


Interessante constar que o livro, publicado pela primeira vez em 1967, além de estar comemorando 50 anos, celebra também um feito incrível: a obra latino-americana mais lida no mundo; e considerada, durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em março de 2007, a segunda obra mais importante escrita em língua hispânica, ficando atrás apenas de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Um sucesso com mais de 50 milhões de exemplares vendidos, sendo que apenas sua primeira tiragem foi publicadana Argentina com 10 mil exemplares.


Ainda se não bastassem tais números e recordes, a Fundação José Saramago também dedicou no mês passado um encontro com jornalistas para debater “o legado do jornalista Gabriel García Márquez”. Um pormenor, por assim dizer, pouco comentado sobre como sua experiência profissional no jornal repercutiu na formação de seu método narrativo.


É possível, como consideram certos críticos de sua obra, que a reportagem tenhatido forte efeito no enfoque culturalista, tanto para entender a representação de mudanças contextuais quanto textuais, versando a produção cultural sem evitar descartar determinadas consequências histórico-ideológicas, esboçadas em dois pontos singulares, com o objetivo de manifestar a crítica cultural: ambos os resultados colhidos da construção e desconstrução que se faz do espaço social latino-americano.


Cem Anos de Solidão conta a história de uma aldeia fictícia e remota chamada Macondo, fundada pela família Buendía-Iguarán. A trama divide-se em duas gerações da família, na qual a primeira é formada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, e a segunda parte desenrola-se a partir das particularidades dos filhos, netos, bisnetos e trinetos que virão. Na verdade, tudo é um conjunto visto e acompanhado por Úrsula — a centenária personagem cujas características físicas e psicológicas estão centradas na ambivalência familiar e, se não bastasse, todos os herdeiros têm a missão de desvendar os misteriosos pergaminhos de Melquíades, o Cigano, que foi amigo de José Arcadio Buendía, e que guardam os segredos da enorme e controversa família à espera do último da estirpe, às portas da morte.

O livro mudou a vida de um García Márquez que não estava feliz naquela época. Apesar de pertencer a um bom círculo de importantes e influentes amigos, ele vivia sem dinheiro e não se sentia realizado como escritor, já que seus livros anteriores, O Enterro do Diaboe Relato de um Náufrago,sofreram um fracasso editorial.


Diz a lenda que Cem Anos de Solidão foi concebido num rompante: de férias em Acapulco, após dirigir horas, lhe teria vindo a epifania; García Márquez teria virado o volante do carro de uma vez e entrevisto a frase inicial do romance “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento...”. Depois disso, teria retornado às pressas à capital mexicana e sentado para escrever, de onde só sairia da cadeira após 18 meses.


Mas essa não é uma lenda que caminha sozinha. Há outra que relata que o autor tinha pedido demissão do jornal, reunido 5 mil dólares para trabalhar no livro por seis meses, e que, infelizmente, ele teria levado o dobro do tempo e ficado, assim, na pindaíba, tendo que vender, inclusive, o carro para arcar com as contas.


As duas versões tanto podem ser falsas quanto verdadeiras, se levado em conta o personagem que o próprio García Márquez se tornou e o nível fabular de suas narrativas;afinal, Cem Anos de Solidãoé uma condição, uma metáfora da resistência latino-americana da época. O fato é que daí, da criatividade inventiva do autor, o romance é tomado como um tipo de “método indutivo” entrelaçado à situação da Colômbia. Só que a bibliografia crítica vai além, considera o livro uma chave de acesso para a interpretação da condição humana de modo geral.


Historicidade.Há o método, a circularidade do tempo na narrativa, um paradoxo perante a impotência da natureza humana, sempre oprimida pelos problemas sociopolíticos. Tem, afinal, a figura do herói redentor, expressão histórica da realidade de todo um continente.


Pois é em meio a fortes organizações populares, marcadas por revoluções, que a reflexão literária na América Latina ocupou os intelectuais, críticos e escritores a engendrar posições explícitas ante um contexto econômico, político e sociocultural das décadas de 1960 e 1970. A base dessa atitude estava relativamente ligada à identidade cultural à beira de uma construção da literatura nacional, seguindo um enfoque comparatista entre ambas.


Veiculava-se na perspectiva desses discursos a extremidade da necessidade de análise e interpretação historiográficas, ainda aos moldes tradicionais de algumas teorias europeias. A tentativa reverenciava “desenraizar” as influências herdadas pelos países hispano-americanos durante o processo de independência cultural da Espanha.


Com frequência, desenvolveu-se um discurso (e seguidamente obras literárias)latino-americano voltado para si mesmo — por isso, talvez, Macondo se tornaria futuramente um lugar idealizado, conectado ao inconsciente das pessoas e seus símbolos representativos, algo como o Bloomsday, de Joyce.


Nobel. Em 1982, García Márquez foi congratulado com o prêmio Nobel pelo conjunto de sua obra.  Além do Prêmio Nobel, ele ganhou outras dezenas de prêmios e condecorações; entre eles a Ordem Nacional da Legião de Honra da França, a Ordem da Águia Asteca e também foi Doutor Honoris Causa das universidades de Columbia e Cadiz. O sucesso de Cem Anos de Solidãoapagou os méritos de outras obras suas: Ninguém escreve ao Coronel(1961), O Outono do Patriarca (1975), Crônica de uma Morte Anunciada(1981), O Amor nos Tempos do Cólera (1985) eO General em seu Labirinto(1989).


Melhor dizendo, o valor de Cem Anos de Solidão é tamanho que García Márquez nem precisava ter escrito mais nada. Tem-se uma obra que vale uma vida.


Mistério. Em 2007, o jornal mexicano La Jornadaexibiu uma foto de García Márquez com um olho roxo após uma briga com Mario Vargas Llosa, até então pupiloe amigo íntimo.


Não se sabe ao certo por que demorou tanto tempo para o incidente cair na boca do povo, e muito menos se sabe o que teria acarretado o fato. Certo é que esse misterioso segredo que intervalou a amizade dos dois está à espera do último da estirpe (Llosa), mas tem de ser, como queria Melquíades, às portas da morte.


Em suma, e a título de esclarecimento, é quase impossível falar de García Márquez sem mencionar Cem Anos de Solidão, e vice-versa.