segunda, 20 de novembro de 2017
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06/11/2017 08:53
Edição 3165

Que tempos são estes?

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Não sou uma usuária constante do celular. Outro dia uma amiga, ao verificar meuWhatsapp se espantou porque havia mais de mil mensagens nos tais grupos, cuja imensa maioria não havia lido. Ela então ensinou-me a apaga-las, segundo sua orientação, para não travar meu aparelho. Para acalmá-la disse que não abria as mensagens pois tinha muita bobagem, principalmente as tais “fakenews” (notícias falsas), que me irritavam profundamente. Em tempo, não são as falsas notícias que me aporrinham, é a ignorância das pessoas que reproduzem coisas sem ao menos verificar se são verossímeis.


Recentemente recebi um áudio pelo aplicativo e a pessoa me pediu a opinião sobre o conteúdo. No áudio, umapsicólogapropõe abolirmos os “festejos” do Halloween pelo Thanksgiving ou Dia das Bruxas pelo Dia de Ação de Graças, alegando que o primeiro deixa as crianças melancólicas, deprimidas pois não é uma brincadeira que contribui para a formação do “eu” das crianças, para que as mesmas cresçam emocionalmente saudáveis e que a gratidão seria uma proposta mais saudável.

Respeito a opinião da profissional, mas não concordo com seus argumentos, até porque o Dia das Bruxas e o Dia de Ação de Graças, apesar de serem festas populares norte americanas, são comemorações distintas em seus contextos e origens. O primeiro é de origem celta e o segundo é exclusivo dos Estados Unidos e surgiu em 1620.


O Halloween é uma comemoração que se espalhou mundo afora e tem diferentes finalidades: celebra os mortos ou a época de colheita e marca o fim do verão e o início do outono no hemisfério norte. Ao mesmo tempo em que se apresenta de novas formas e agregando outros símbolos dá oportunidade para que crianças – e também adultos – brinquem com seus medos e fantasias de uma forma socialmente aceitável.


Aliás, os contos de fada também têm esta função. Em “A psicanálise dos contos de fadas”, Bruno Bettelheim mostrou que eles são ímpares, não só como uma forma de literatura, mas como obra de arte integralmente compreensível para a criança, como nenhuma outra forma de arte o é, afirmando que seu significado mais profundo será diferente para cada pessoa e diferente para a mesma pessoa em vários momentos de sua vida; momentos mágicos, no qual os medos se transformavam em coragem, os anseios em esperança e a tristeza dá lugar à felicidade.


Lembro dos meus filhos, quando pequenos, que adoravam Branca de Neve, Bela Adormecida, O caldeirão mágico. Em suas brincadeiras cotidianas eles reproduziam diversas falas dos vilões. Depois, mais crescidinhos, se encantaram com Harry Potter. E ficavam fascinados pelos contos de terror – até hoje se divertem com o conto da cultura equatoriana “Maria Angula”. E não são diferentes da maioria das crianças de qualquer lugar deste planeta.


Ilan Brenman – escritor e pesquisador de contos e narrativas–  comenta que brincar de bruxa não nos transforma em bruxas, ao contrário isso contribui para que as crianças sejam menos melancólicas – a experiência prática e familiar lhe mostra em oposição ao que a psicóloga falou –;ao brincar com seus medos as crianças serão mais saudáveis, mais vitais, compreendendo mais o seu mundo interno.“Se não deixamos as crianças experimentarem o Dia das Bruxas, elas se tornam 'bruxas' reais no futuro”.


A arte e as brincadeiras são poderosas ferramentas para a transformação do que nos aflige e estão presentes em diversas culturas, em todos os tempos. O Halloween, assim como o Carnaval – outra festa ancestral feita para extravasar – permite “pôrpara fora nossos monstros”, as nossas pulsões, subverter normas sociais ou explorar o lado obscuro do comportamento humano, unindo religião, natureza, morte e fantasia, isso talvez explique a razão de sua grande popularidade.

Que tempos obscuros são estes que temos que defender o óbvio? Só espero que não nos coloquem na fogueira por isso!




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