segunda, 20 de novembro de 2017
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06/11/2017 09:51
Edição 3165

Finados à beira da morte

Por Sérgio Piva

Há anos não ia ao cemitério no Dia de Finados. Sempre ficava sabendo da movimentação visitante e comercial do feriado pela televisão. Mas na última quinta-feira, pude presenciara evoluçãoda festa da melânica, como costumavam chamara data por brincadeira.


Não predomina mais a venda daquela fruta. Ao contrário, até o comércio de flores de plástico, velas e fósforos foi relegado a segundo plano. As pequenas bancas de madeira deram lugar, há algum tempo, a barracas de cocadas bem organizadas e, agora, ao comércio de todo tipo de comida e guloseimas em trailers e outros estabelecimentos com excelente infraestrutura e ordenação, ladeados por ambulantes vendendo topo tipo de produtos. Afinal, para ficar vivo é preciso trabalhar e ganhar dinheiro.


Na entrada do cemitério velho recebi um pequeno panfleto cujo rodapé informava ser de distribuição gratuita, patrocinado por um estabelecimento gráfico que perdeu a oportunidade de fazer sua propaganda, tamanho o amadorismo do impresso. Como cavalo dado não se olha os dentes, fui ao texto principal. Nele havia um poema intitulado “Saudade”, falando da morte e da vida, coincidentemente o mesmo nome daquele cemitério e do sentimento que permeia o feriado e os rostos da maioria das pessoas que nesse dia visitava os entes falecidos.


Andando por todo o perímetro do cemitério, observando as pessoas, os túmulos e ouvindo as conversas e, ao longe, a missa que era celebrada sob duas tendas brancas armadas provisoriamente, não encontrei o túmulo que procurava, mas encontrei outro que parecia ser o símbolo da saudade e do amor a quem partiu deste mundo.


Tinha-o visto de longe, por chamar-me tanto a atenção me aproximei para examinar melhor. Era uma sepultura simples e pequena, no entanto com uma beleza capaz de expressar o sentimento de respeito, admiração e amorpelas pessoas que ali foram sepultadas. Segundo a quantidade de placas enumeradas, foram três pessoas, sem identificaçãode nomes,datas ou qualquer epitáfio.


Não era preciso. O cuidado com aquele local deixava indubitavelmente registrado em imagem aquilo que as letras não podem explicar, mas somente o coração e memória daqueles que aqui ficaram o sabem. Aquele túmulo pintado inteiramente na cor rosa, com uma extremidade mais alta, como fosse uma lápide, também toda rosa, apoiando uma pequena escultura de concreto em formato de anjo segurando um buquê de flores, todinha branca, e no meio sustentando um modesto vaso, pintado do mesmo branco da escultura, preenchido com rosas cor-de-rosa de plástico, segurando folhas verdes, as quais, no meio de tanta beleza, pareciam estar vivas.


Em seguida, caminhei até o cemitério novo, da Consolação, onde encontrei muitas pessoas conhecidas, quase todas vivas, porque descobri outras falecidas nas fotos das lápides dos túmulos e capelas que já preenchem quase toda área daquele cemitério.


Foi lá que vi o segundo exemplo de reverência aos entes queridos falecidos,uma arvorezinha, ao lado de uma sepultura modesta, aparentando sair de dentro daquele túmulo, verdíssima e podada em formato arredondado com maestria, e imagino que também com todo respeito, admiração e amor, cuja arte expressava, aos meus olhos, muito carinho dispensado à memória daqueles que lá jaziam.

Nos dois cemitérios havia certa quantidade de pessoas que gradativamente foi aumentando com o passar das horas. Poucos jovens em companhia dos pais, muitos senhores em calças sociais e jeans, poucos em bermudas, e senhoras de idade em seus vestidos floridos, moças com vestimentas do dia-a-dia, outras que pareciam prontas para uma festa, crianças curiosas, idosos com dificuldade de locomoção aparados pelos filhos, entretanto fazendo questão de manter a tradição da dataliturgica.


Quando voltava para casa, próximo a uma esquina, vi três crianças que tentavam se esconder do sol escaldante à sombra de um portão velho de lata. Os meninos, três irmãos, descobri depois de fazer uma breve entrevista, quando falaram também os nomes e as idades, estavam emparelhados como uma escada cujos degraus foram definidos, provavelmente ao acaso, pela estatura e idade, doze, oito e seis anos.


Não vieram visitar os mortos. O que lhes interessavam eram os vivos, mais precisamente o dinheiro deles, já que os meninos eram mais vivos que todos que por lá circulavam. Estavam a trabalho, guardando os carros estacionados na via, e recebiam uma gratificação financeira pela labuta, a critério dos proprietários.

E foram eles, os carros, que me suscitaram a dúvida que me fez botar reparo mais demoradamente na quantidade de veículos estacionados. Parecia muito menos que em outros anos. De fato, revendo na memória as visitas anteriores aos cemitérios nos finados passados, comparando com aquilo que vi hoje, tanto o volume de carros como de pessoas que ziguezagueavam por entres os túmulos era bem menor que em outras épocas.


Para conferir, retornei aos cemitérios à tarde e refiz o trajeto realizado pela manhã, quando costumeiramente, para fugir do sol e das altas temperaturas, há um número maior de pessoas. Dito e feito, naquela hora tinham mais comerciantes tentando agarrar um freguês do que gente visitando os parentes falecidos.


Parece-me que algumas tradições não durarão por muito mais tempo. O Dia de Finados talvez não permaneça perpétuo como as sepulturas. Assim como outras datas comemorativas populares brasileiras que agonizam nas antigas folhinhas de parede, o Finados provavelmente também será um falecido futuramente, por mais redundante que possa parecer a sentença.


Aliás, sentenciadas estão diversas dessastradições da cultura brasileira, seja pela indiferença e falta de senso cultural dos mais jovens, seja pela condenação de religiões adversas aos costumes de outras, seja pela invasão de culturas estrangeiras, ou mesmo pela evolução, ou declínio, não sei, da sociedade e de seus modus operandi. O fato é que as coisas mudam.


Se as mudanças são para melhor ou para pior, só saberemos no futuro, e se, até lá, eu não for pretérito, talvez possa falar novamente sobre esse assunto. Mas não agora, porque o sol que estava de torrar pensamentos e o anda-pra-lá-e-pra-cá me deixaram morto.





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