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27/11/2017 16:40
Edição 3179

LITERATURA DE HOMENS ELEGANTES

Referência na literatura de gênero, o escritor gaúcho Samir Machado de Machado, que relança Quatro Soldados pela editora Rocco, transita entre o romance histórico, o policial e o fantástico

Por Bruno Alselmi Matangrano 


Samir Machado de Machado 



QUATRO SOLDADOS

 Autor: Samir Machado de Machado 

Editora: Não Editora (320págs.; R$ 39,90)



QUATRO SOLDADOS 

Autor: Samir Machado de Machado

Editora: Rocco (272págs.; R$ 34,90)



HOMENS ELEGANTES

Autor: Samir Machado de Machado 

Editora: Rocco (576págs.; R$ 54,50)



FICÇÃO DE POLPA (VOLUME 2)

Organizador: Samir Machado de Machado

Editora: Não Editora (160págs.; R$ 24,90)



Samir Machado de Machado é um autor gaúcho e designer gráfico. Lançou-se como escritor com a publicação da série Ficção de Polpa, publicada em cinco volumes pela Não Editora entre 2007 e 2012, na qual, juntamente com outros autores da cena porto-alegrense, repensava as ditas narrativas de gênero com ênfase na aventura, na investigação e, muitas vezes, com um pé no fantástico.

Em 2008, lançou o livro O Professor de Botânica, também pela Não Editora, a história de Eduardo Rotgeller, o dito professor do título, que, em meio à crise de quem se depara com o início da velhice e o fim de uma frustrante carreira, percebe uma inesperada última chance de sucesso.


Já em 2013, é a vez de Quatro Soldados (republicado este ano pela editora Rocco), espécie de romance fix-up, em que quatro histórias independentes, passadas no sul do Brasil colônia, entrelaçam-se, reconstruindo uma terra de misticismo, criminalidade e exotismo.


Mas sua obra-prima inconteste é, sem dúvida, seu brilhante e polêmico Homens Elegantes (Rocco, 2016), cujos direitos para o cinema foram vendidos antes mesmo de o livro ter uma editora. Assim como Quatro Soldados, Homens Elegantes se passa num século XVIII recriado com esmero, no qual o leitor acompanha as aventuras de Érico Borges, um espião da coroa portuguesa infiltrado nos círculos sociais mais altos da Inglaterra de então, ao mesmo tempo em que descobre a vida gayescondida nas entrelinhas, nos bares e salões, onde se reúnem homens elegantes de todos os estratos sociais.


Em meio às mais diversas referências, que vão desde literatura clássica e contemporânea, passando por cinema hollywoodiano e culminando em videogames atuais, é visível, portanto, que sua carreira foi permeada pela literatura dita de gênero, transitando entre o romance histórico, o policial e o fantástico.


• Qual a gênese da coleção “Ficções de Polpa” — que completou dez anos em 2017 e pela qual sei que você tem grande carinho — e como foi sua recepção em uma época na qual a literatura de gênero não tinha o espaço que tem hoje? 

Há alguma chance de o projeto ser retomado? Quero dizer, nós, leitores, ainda veremos um volume 6, 7, 8, etc., ou o ciclo do “Ficção de Polpa”já se encerrou de fato?


Na época, a ideia por trás de Ficção de Polpafoi juntar o útil ao agradável; uma forma que me ocorreu de projetar um grupo de novos autores saídos das oficinas literárias daqui do sul, com um tema que me interessava, que eu acreditava ser de interesse popular, que garantisse um interesse nos livros contornando o fato de os autores serem então desconhecidos. Eu era totalmente por fora da cena da literatura especulativa Rio-São Paulo, na época as coisas não apareciam muito aqui no sul, então foi legal contribuir um pouco para a popularização disso, de alguma forma. Quanto ao projeto ser retomado, é sempre uma possibilidade, mas não tenho planos imediatos. Ficção de Polpa foi um trabalho de amor, que eu bancava do meu bolso, dava uma trabalheira tremenda organizar tudo e diagramar, e no momento não consigo encontrar energia para isso e para os meus projetos individuais ao mesmo tempo. Mas nunca se sabe.


• Salvo por “O Professor de Botânica”, em toda a trajetória nota-se um pendor para alguns tipos de literatura em particular, penso na literatura policial (sobretudo, de espionagem), no romance histórico, e no fantástico. Como foi escrever um romance como“O Professor de Botânica”,que se distancia de todas as suas outras obras?Há planos de revisitar essa faceta mais realista e existencialista em futuros trabalhos?

O Professor de Botânicanasceu como um exercício de criação de personagem na oficina literária do Assis Brasil, baseado numa ideia que eu havia escrito aos doze anos. Por mais realista que seja, ainda assim ele tem um toque aventuresco (a reserva ecológica, a morte acidental) que a meu ver é a essência do que eu escrevo. Qualquer que seja o gênero que eu escreva, me considero um autor de histórias de aventura antes de qualquer coisa. Meu próximo romance talvez se assemelhe mais ao Professor nesse sentido, já que será contemporâneo e terá um tom mais realista que os anteriores, mas ainda assim lidará com uma trama de aventura.


• Quais são os desafios, diferenças, dificuldades e facilidades de se escrever uma obra dita realista (como seu primeiro romance) e uma obra que pende para o fantástico (como “Quatro Soldados”) ou para a espionagem histórica (como “Homens Elegantes”)?

Mas meus romances fantásticos também são realistas! Os animais fantásticos de Quatro Soldados nada mais são do que folclore revisto pelacriptozoologia. E, em Homens Elegantes, não podia fazer meus personagens nem atravessar a rua sem antes me certificar de que a) a rua já existisse, b) era socialmente aceitável que estivessem onde estavam, dependendo de quem eram e da época. A maior diferença é que num romance contemporâneo você não precisa se preocupar com os detalhes da construção do universo, ele já está pronto, é o mesmo do leitor. E no romance histórico, você precisa diferenciar para o leitor no que aquele mundo difere do dele.


• Sobre seus trabalhos mais recentes, vemos que você buscou criar uma voz própria que emula (com sucesso) a linguagem setecentista, ao mesmo tempo em que brinca com diversas referências e divertidoseastereggs. Em relação a isso, como foi trabalhar com tantas referências distintas (entre literárias, cinematográficas, históricas, etc.), seja do ponto de vista da própria criação, seja do ponto de vista formal?

A meu ver, parte da proposta de uma linguagem pós-moderna é justamente reconhecer todo o conjunto de símbolos precedentes, é a ironia da ilusão de originalidade. Como construir algo novo quando tudo já foi feito? Cruzando referências inesperadas. E porque as coisas precisam ter nomes, então gosto de me cercar de referências que são importantes para mim. Também é como minha cabeça funciona, tudo parece sempre remeter a outra coisa.Mas se te referes às conexões entre os dois livros, isso se dá porque ambos pertencem a um mesmo “ciclo barroco” de histórias com personagens em comum. Se acontece deQuatro Soldados ter elementos fantásticos e Homens Elegantes ser mais realista, é porque me ocorreu que não haveria mais fantasia numa Europa dominada pelo racionalismo iluminista, mas ainda sim na mentalidade semimedieval do Brasil Colônia. É a justaposição que os dois livros oferecem: a realidade supersticiosa e barroca do Brasil no século XVIII, em contraste com a entrada da Europa na Idade Moderna.


• Em “Quatro Soldados”, recentemente relançado pela editora Rocco, você reinterpreta criaturas folclóricas como a mula sem cabeça e o boitatá, em versões bastante originais, pautadas mais numa possível criptozoologia do que na magia que geralmente acompanha as matrizes de cunho popular. De onde surgiu essa ideia e como foi o processo de escolha das criaturas que você retrataria?

Eu tenho uma certa obsessão com a verossimilhança do que escrevo e, para mim, a maior dificuldade em escrever uma história fantástica é que, sendo uma pessoa bastante cética, não consigo aceitar o sobrenatural.O processo foi uma longa decantação, catalisada quando vi a obra do artista plástico Walmor Corrêa, que trabalhava justamente com isso, com pinturas que eram “autopsias” realistas de animais folclóricos. Isso, e ler o livro Monstruário, do psicólogo Mario Corso, que pesquisava as origens étnicas, culturais e psicológicas de cada criatura do folclore nacional. Foi quando me ocorreu que eu não estava no campo da fantasia no sentido mágico, e sim no campo de uma espécie de ficção-científica barroca.O animal do labirinto poderia ser qualquer um, foi só o caso de escolher um que estivesse presente no folclore da região. A boitatá na caverna foi porque a boitatá é simplesmente um dos animais mais bacanas da nossa mitologia, uma cobra gigante que brilha no escuro. O terceiro animal, o anhanguera, tinha uma carga mística que poderia ficar ambígua na trama, ser apenas um delírio do protagonista. E a mula semcabeça, que no livro tem cabeça e não é nada sobrenatural, traz a bagagem da misoginia tipicamente brasileira que se encaixava bem à trama.


• Como foi pesquisa que está por trás de seus dois últimos livros passados no século XVIII —da qual você fala um pouco na nota histórica que encerra “Homens Elegantes” e quanto tempo ela levou?

Com Quatro Soldados eu levei oito anos produzindo o texto, em parte pela pesquisa, em parte para encontrar uma voz autoral satisfatória. Comecei a escrever Homens Elegantes um mês depois do lançamento do Soldados em 2013, já com uma bibliografia básica, e com um esboço de trama. No caminho, algumas coisas foram surgindo — como descobrir que, no período em que Érico estava em Londres, teriam de fato ocorrido dois “terramotos gêmeos”, algo que eu não poderia ignorar e que teria que entrar na história. O risco da pesquisa histórica é que a gente descobre tanta coisa interessante, tanta riqueza de detalhes e paralelos da época com o mundo atual, que precisei tomar cuidado para não colocar informações demais só pelo gosto do didatismo.


• Ainda em relação a seu processo criativo, como foi o desafio de recriar personagens históricas (como o Conde de Oeiras), literárias (como o Mr. Fribble) econtemporâneas (como o insidioso vilão) em “Homens Elegantes”?

Não foi tanto um desafio quanto parece. Os personagens tinham papéis a cumprir dentro da trama, só precisei ajustar isso dentro da personalidade ou bagagem de cada um. No caso dos personagens históricos, como Oeiras (futuro Marquês de Pombal), ou mesmo figuras históricas menos conhecidas, como Ignátio Sancho ou William Beckford pai, eu me apeguei aos aspectos mais marcantes de cada um, uma coisa meio Dickens de deixá-los planos para que o leitor os diferencie bem no meio de tanta gente. Já os literários, eu descaradamente os peguei para mim e os reescrevi conforme quis, o autor que levante da tumba e venha reclamar. No caso de Mr. Fribble, um personagem criado por David Garrick no século XVIII, ele era originalmente uma caricatura simplista e ofensiva do estereótipo de um homem efeminado. Eu pensei, ora, e no que ser efeminado o impediria de ser um ótimo espadachim, o melhor duelista do grupo, por exemplo? Quanto ao vilão, bem, ele precisava de um nome, e considerando que o protagonista do livro é gay, precisava de um nome que o leitor entendesse imediatamente que estava a tratar com o antagonista, como num filme de James Bond.


• Pensando agora especificamente no terrível vilão de “Homens Elegantes”e no universo gay que você recria com rigor histórico neste livro, é inevitável fazer alguns paralelos com alguns lamentáveis acontecimentos recentes, inclusive alguns posteriores ao lançamento do livro, como o fechamento da exposição “Queer Museum” em Porto Alegre, os protestos contra a palestra de Judith Butler em São Paulo, e o ultrarrecente caso de sua palestra com a Natália Borges Polesso“Os livros fora do armário: a literatura orgulhosamente queer”, no âmbito da Feira do Livro de Porto Alegre, que foi suspensa duas vezes por receio de protestos ultraconservadores antes de finalmente poder acontecer no domingo dia 12 de novembro de 2017 — o que só confirma a validade e pertinência dessas discussões e publicações. Qual a importância dessa literatura “fora do armário” que, felizmente, tem sido publicada com mais frequência, justamente num momento de crescente intolerância? Como foi sua palestra com Natália Polesso?

Representatividade importa porque compartilhar histórias é o que cria um senso de identificação e comunidade. Escrevi Homens Elegantes por sentir falta de narrativas de aventura heroicas com protagonistas gays. Se isso se torna político, é porque não há como um homossexual ser apolítico numa sociedade homofóbica, que começa tentando silenciar e apagar nossas narrativas para depois nos eliminar.Quanto ao debate com a Natália, no final das contas tivemos um público excelente, uma ótima troca de ideias sobre nossas obras e literatura LGBT em geral, e nenhum protesto. Nunca achei que haveria algum de fato, mas houve ameaças e problemas em outros debates, e o Santander Cultural abriu um precedente perigoso na resposta ao Queermuseu. Agora, o medo da possibilidade de protestos serve para se censurar eventos com base no quão incômoda a temática seja — ou para mascarar a homofobia institucional, nunca saberemos. Felizmente, a organização da Feira do Livro esteve comprometida em fazer o debate acontecer.


• Para terminar, ainda falando na importância deste tipo de material“fora do armário”, seja literário, seja em outras linguagens, você poderia comentar algo sobre a prometida adaptação de “Homens Elegantes” para o cinema? Tenho certeza de que não sou o único que está curioso.

Ah, por tudo que sei, será entre hoje e algum dia no futuro. E se eu ainda estiver vivo para ver o filme pronto, ficarei feliz! Mas realmente, no momento, só o pessoal da RT Features pode dar essa resposta. Enquanto isso, fico aqui fantasiando um elenco imaginário.


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BRUNO ANSELMI MATANGRANO, TRADUTOR E AUTOR DE DIVERSOS CONTOS E ARTIGOS, É MESTRE E DOUTORANDO EM LETRAS PELA USP


Debate. Na Feira do Livro de Porto Alegre deste ano coma escritora Natália Polesso