domingo, 17 de dezembro de 2017
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27/11/2017 16:51
Edição 3179

NIETZSCHE, O (DES)DOUTRINADOR

Nietzsche é um dos maiores nomes da Filosofia em todos os tempos, na medida em que empreendeu uma crítica radical à moral vigente; escancarou o quanto o humano é pequeno, mesquinho, fraco, covarde, omisso, cínico

Por Zé Renato 


O filósofo.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)



Muito tem se falado a respeito do filósofo. Todavia, de modo geral, quando não se diz o óbvio, produz-se uma série de incorreções calcadas em preconceitos estúpidos.


Nietzsche é um dos maiores nomes da Filosofia em todos os tempos, na medida em que empreendeu uma crítica radical à moral vigente; escancarou o quanto o humano é pequeno, mesquinho, fraco, covarde, omisso, cínico. Para piorar, apontou que não há saídas coletivas. Estamos sós no universo. O mundo é um lixo. A vida não vale ser vivida, se dentro da mediocridade imposta. Enfim, o mundo não é para os fracos. Quando estou a dizer fracos, não me refiro à força física, política, econômica, todavia, ética, moral, caráter. Digo em termos de virtude. Virtù, virilidade, coragem, força para empreender vontades. Tais quais os guerreiros espartanos. Aqueles que, corajosamente, brindavam a morte, no momento da batalha. Vontade de poder. Poder no sentido de força interior para realizar. “Eu vos trago o Übermensch!”


É muito difícil falar de Nietzsche sem recorrer a sua vida.

Nascido no seio de uma família protestante, cujo pai era pastor, aos dezesseis anos iniciou os estudos no tradicional colégio de Pforta, a fim de encaminhar sua trajetória.


Concluídos os estudos com brilhantismo, ingressou na Universidade de Leipzig, para cursar Filologia. Estudante exemplar, graduou-se em Filologia Clássica. Aos vinte e quatro anos foi nomeado professor de Filologia Clássica na Universidade da Basileia.


Em 1870, eclode a guerra franco-prussiana, Nietzsche alistara-se como enfermeiro. Ao final do conflito, retorna à Suíça, porém, logo abandonará a cátedra, em razão dos primeiros sinais do colapso mental que o vitimou. A origem deste está, provavelmente, na sífilis, doença sexualmente transmissível, contraída em face da solidão, por isso a frequência em bordéis. Segundo seus principais biógrafos (Charles Adler, Curt-Paul Janz), o filósofo não foi atingido na época do serviço militar. O moralismo assim tentou minimizar a questão, como se fosse fatalidade.

No ano seguinte, Nietzsche começa a sentir os resultados da contração da doença: dores de cabeça, vômitos, males súbitos. Afastou-se da cátedra. Obteve uma pequena pensão do governo germânico, com a qual passou a viver.


Seu retorno à Alemanha foi marcado por fato decisivo em sua vida: os contatos pessoal e artístico com o maestro Richard Wagner (1813-83). Nietzsche entendeu que o compositor trazia em sua música a essência das tragédias, ao recuperar mitos e lendas, entregando à música a trama necessária para revolucionar a cena cultural da Europa.


O encantamento foi tamanho que o filósofo redigiu sua primeira obra: O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, de 1872. Obra que elucida dois conceitos muito caros ao acervo nietzschiano: o Apolíneo e o Dionisíaco. O primeiro baseia-se em Apolo, deus grego, representando o equilíbrio, a sobriedade, a racionalidade. O segundo, Dionísio, importadopelos gregos junto à Pérsia, significa o frenesi, o êxtase sexual, o deus da embriaguez, quer dizer, é o instinto criador, o improviso. Juntos, apolíneo e dionisíaco criam a dramaticidade, a tensão necessária para a construção das tragédias, as quais levam às lágrimas, para, em seguida, provocarem o sorriso. Construindo, intuitiva e instintivamente, as sensação e ideia de que: uma alegria somente é legítima, se antes houve dor; uma dor somente é verdadeira se antes existiu a alegria. A dialética (lembram-se?), agora na versão de Heráclito de Éfeso (século V a.C.).


Nietzsche começa a elidir uma importante tese: cultura e vida são indissociáveis. Cultura e Estado não se coadunam.


Apesar da incontida e ilimitada admiração, o rompimento entre Nietzsche e Wagner ocorreu quando o filósofo percebeu que o maestro estava mais preocupado com fama e fortuna ao invés de transmutação estética. Todavia, a dor provocada pela atitude marcou a vida do autor de Zaratustra.


Vieram à luz as Considerações Intempestivas, espécie de panfletos nos quais Nietzsche discorre acerca de vários temas: o conceito de História, o cenário da educação europeia, mas principalmente em Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral começa a apresentar sua grande tese: a moral é uma mera conveniência, a fim de estabelecer códigos de conduta, com os quais o humano enfraquece, no sentido de abrir mão de seus instintos e quereres, tornando-se doentio e domesticado. Verdade e mentira são apenas palavras, linguagem que visa dar ao homem a pretensa e equivocada ideia de que ele é o centro do mundo. Segundo o autor, se pudéssemos conversar com a mosca, nós nos certificaríamos de que ela acredita ser “o centro do universo voante”.


Sua tese clarividencia-se após a publicação de Para Além de Bem e Mal e Genealogia da Moral, com as quais discorre sobre: ao humano cabe viver para além desses valores decadentes, não reproduzir a moral gregária, de rebanho, portanto, acima dos valores citados, que apenas enfraquecem e domesticam. Assim, diz o filósofo, esse é o médico, cuja tarefa é realizar a genealogia da moral, para verificar e destruir esse código, pautado nos valores judaico-cristãos, que tiram os instintos criadores, vontade, o querer, em troca dos “ideais ascéticos”.


O homem preso aos valores decadentes — verdade e mentira, bem e mal — sobrevive à espera da ascese, da salvação da alma, em detrimento do corpo. Abdica de seus quereres e vontades, torna-se doentio e culpado. A marca maior é o ressentimento, o rancor.


Por fim, Assim Falava Zaratustra, polêmica e não compreendida, tem o intento de apresentar o personagem da religião persa — o Zoroastrismo — como o responsável por trazer o Übermensch, o “além do homem”, quem trilhará a ponte que separa o homem e sua meta, para além de bem e mal. Críticas ácidas contra o ressentimento, o fingir, a covardia, a pretensa salvação espiritual em prejuízo da vontade. Esse “alémdohomem” transmutar-se-á em três espíritos: camelo, leão e criança. O primeiro é o momento em que se carrega o fardo pesado do conhecimento; o segundo, de posse dele, dará o não à mediocridade e o sim à vida. Quanto ao último, é o instante no qual tudo flui, vive-se para si, em si, para além de bem e mal, longe dos ideais ascéticos. É querer puro. Longe de regras e normas, de domesticação e moral gregária, para muito além dos dogmas e imposições sociais. Faz-se aquilo que se quer e o que deve ser feito, sem esperar recompensas morais e rótulos. Ou seja, tal qual o guerreiro belo e bom.


O filósofo também se preocupou em discutir o conceito de História, na medida em que rejeita a mesma narrada a partir de fatos e conquistas dos “vitoriosos”. Diz: “Não há fatos, somente interpretações”.


Quanto à Educação, deixa um ensinamento cada vez mais atual: não há conhecimento sem vida! Isto é, aprender por mera erudição é inútil. O aprendizado deve nos transformar, ética, moral e esteticamente.


Nietzsche deixou-nos um aforismo — sua opção estética para redigir sua obra — sem título, que ficou conhecido como “A morte de Deus”, onde apresenta talvez o mais crucial tema da Filosofia nos séculos posteriores: a crise da razão. A mesma é transformada em instrumento de profissão de fé, do fundamentalismo. Não se argumenta. Professa-se fé. A razão esclarecida, esclarecedora, deu lugar ao instrumento de imposição de dogmas e pretensas verdades. Não se discute, impõem-se, pela força, pelo poder. Marca de nosso tempo!


Nietzsche descrê por completo em modelos políticos e econômicos, ao seu ver, todos são falhos, na medida em que nivelam o humano por baixo, tratam apenas de suas mazelas e fraquezas.


Não há saídas coletivas. O problema é individual. Redimensionar-se. Ética e esteticamente. Para além do humano, demasiado, humano.

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