domingo, 17 de dezembro de 2017
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04/12/2017 11:04

Lembrando os embalos de sábado à noite

Por Claudinei Cabreira


Dia desses procurando um antigo documento, revirando uma dessas caixas de trecos que a gente guarda pelo resto da vida, acabei encontrando algumas fotos em preto e branco dos bons tempos da minha juventude e confesso que me diverti muito. Ali estava a prova viva de que a gente andava na moda ou melhor, ”nos trinks” como dizia a moçada lá pelo final dos anos sessenta, começo dos anos setenta. Mas, cá prá nós, o povo era corajoso demais. Que moda era aquela?


Pra se ter uma ideia, por aqui, a moda que era comportadíssima no início da década de sessenta, acabou sofrendo a influência de tudo o que acontecia no mundo. E o surgimento da Jovem Guarda, em 1967, teve grande importância nesse processo. Sem perceber, acabamos adotando várias tendências dos movimentos jovens, uma nova linguagem, nova forma de se comportar e de se vestir que logo virou febre entre os jovens. Usar expressões como, “barra limpa”, “papo firme”, “máquina quente”, “broto” e centenas de outras gírias, roupas prá lá de coloridas, acessórios exagerados e os cabelos longos, era o passaporte para embarcar nas ondas do iê-iê-iê...


E lá ia todo mundo para a praça estreando camisão de cores lisas, berrantes e extravagantes, de gola alta com entertela engomada, combinando com calças listradas, xadrezes abusados ou lisas. Dois meses depois, pronto, tudo mudava de novo. O que era chique virava brega. Aí era a vez das camisas ultra coloridas com cores vivas, xadrezes, listradas ou até imitando pele-de-onça, com calças lisas. Era a tal moda psicodélica! E a linguagem era “paz e amor, bicho!”


E o corte das calças dos rapazes, então? Apertadas no quadril e nas pernas, abrindo da metade da canela para baixo. Vai me dizer que você nunca viu ou nunca usou uma calça boca-de-sino?  Parece piada, mas muita gente séria por aí usou aquelas aberrações um dia e “botou banca” de playboy. Por sorte, mais tarde elas saíram de moda e aí, aconteceu o contrário. A nova moda era o oposto, calça folgada na cintura e nas pernas, na metade da canela ia afunilando, até ficar bem justas lá embaixo. Talvez por isso, ganharam dos nossos pais que eram “quadrados”, o jocoso apelido de calças de “pular brejo!”. Prá piorar as coisas, a gente completava o conjunto com sapatos de salto “carrapeta” ou botinhas sem meias. Nossa, e pensar que nós usamos aquilo! Claro que era prá lá de ridículo, mas a moçada era “prafrentex”, “uma brasa, mora!”. E pensar que a gente se achava o máximo!


A moda para os rapazes era cabelos lisos e compridos, com uma franja caindo de um lado da testa, quase tapando o olho. Era o começo da “beatlemania”. A gente também imitava o corte de cabelo do “rei” Roberto Carlos e do “príncipe” Ronnie Von. Daí, devido nossa “juba”, éramos chamados de rebeldes, playboys e cabeludos. Quem tinha cabelo ondulado, cacheado ou carapinha, levava uma grande desvantagem na paquera. Foi aí que o pessoal descobriu um truque bem caseiro; dormir com improvisadas toucas de meias de seda. O problema é que no dia seguinte ficava uma marca, um risco bem fundo no meio da testa. Mas a tática funcionava que era uma beleza.


Nos sábados à tarde, a moçada começava se produzir para cair na “balada”, os famosos bailinhos dos anos sessenta. Era preciso fazer a barba bem feita, prá ficar com o rosto bem lisinho. E isso sim, era prá lá de complicado. Era preciso caprichar, afinal, a gente dançava de rosto bem coladinho com as meninas. 


Todo cuidado era pouco para manusear o aparelho de barbear, com aquelas perigosas lâminas afiadíssimas. Qualquer movimento em falso ou um descuido, pronto; estava feita a tragédia. Principalmente para aqueles que como eu, tinham o rosto tão cheio de espinhas, que Minancora nenhuma dava jeito. E todo mundo se cortava. Aí, quando a gente tirava um bife do rosto, a saída era usar álcool, talco e Aqua Velva! Em último caso, um bandaid.


Eram os tempos da brilhantina e dos embalos de sábado à noite. Perfume bom era o Lancaster e para a beleza dos cabelos dos rapazes, Óleo Glostora ou Jonhson. Tinha também a brilhantina da Gessy, com uma propaganda duvidosa que dizia: 


“Sensationelle, é o que dizem os cabeleireiros de Paris. Se você usar, elas vão olhar duas vezes!” Havia ainda o Óleo de Mocotó Colibri, que garantia: “proteção para os cabelos, beleza para o penteado e que perfume!”. Semana que vem tem mais. Até lá.