terça, 23 de janeiro de 2018
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26/12/2017 14:32

Um pouco de cada arte

Por O. A. Secatto


Antes de morrer, o Mário Sérgio fez um autoexame de consciência. Fora um bom homem, religioso, funcionário comprometido, pai atencioso, ajudara causas sociais, entidades beneficentes, guardara incontáveis vezes e a muito custo sua raiva para si — poupando as pessoas ao seu redor —, pagara o dízimo todo mês e nunca, nunca traíra a esposa. Deu um sorriso de satisfação e passou desta para melhor. 


Mais ou menos. 


Quando deu por si, estava pelado numa imensidão branca e vazia, flutuando, subindo, subindo, e atravessava um círculo de luz que o cegava. 


Após a travessia, deu de cara com um homem de pijama e pantufas, sentado numa poltrona comendo pipoca. Tudo à sua volta era escuridão, exceto o homem e a poltrona sobre um tapete branco, que eram iluminados pela forte luz que vinha do círculo abaixo. O Mário Sérgio, então, continuou a flutuar, só que mais lentamente agora. Até que parou, suspenso no ar. Pelado.



— Então, é isso — suspirou aliviado. — Estou pronto.

— É isso o quê? Pronto pra quê? — estranhou o homem de pijama.

— Ué, aqui não é a entrada para o Céu?

— Não. Quer pipoca?

— Pipoca?

— Acho que ele não gosta de pipoca — disse a si mesmo. Então sacudiu a mão. E o Mário Sérgio voltou a subir, lentamente. — Bem, é isso. Tchau!

— Opa, opa, opa! — desesperou-se, agitando os braços. — Ei, ei! Peraí!

— Que foi?

— Como assim, “tchau”? Pra onde eu tô indo?!

— É complicado...

E o Mário Sérgio subindo.

— Eu mereço uma explicação!

— Todos merecem... — desdenhou.

— É sério!

— Tá bem — disse ele, e sacudiu a mão novamente.

O Mário Sérgio desceu um pouquinho e parou, suspenso no ar.

— Vamos lá.

— Se aqui não é a entrada do Céu, é o quê?

— A antessala do Nada.

O Mário Sérgio coçou a cabeça; não entendeu. Pareceu que ficaria muito filosófico. Preferiu não insistir. Mudou de assunto.

— E você, quem é?

— Eu sou eu.

— Hã?

— Eu sou o que sou.

— Não estou entendendo nada. Dá para parar de falar em enigmas?

— É legal, né? — sorriu o de pijama, mandando mais pipoca para a boca.

— Não é, não — reclamou o Mário Sérgio com uma careta.

— Sou eu que recepciono o pessoal que morreu. Mas só do nosso país — ressalvou.

— Como assim?
— É um por país. Eu estou pelo Brasil.
— Todo mundo do Brasil?
— Hum-rum.
— Mas morre gente todo segundo, é muita gente de uma vez para passar por aqui.
— O pessoal vai entrando na fila para passar por aí — ele indicou o círculo de luz abaixo.
Depois, aproximou-se do Mário Sérgio e com a mão no canto do rosto sussurrou: 

— Ouvi dizer que com o do Japão é mais rápido, os do Iraque e da Nigéria são complicados, e o da China um verdadeiro deus nos acuda.
— Essa fila deve estar enorme!
— Que nada. O tempo é relativo: lembra do Einstein? É tudo bem planejado. A pessoa nem percebe que ficou esperando, só acorda quando já está perto do círculo de luz. Não foi assim com você?
— Na verdade, foi. E você está...
— Nesta função, sim.
— Você está aqui desde sempre, desde o início de tudo?
— Não, não.
— Então, desde quando?
— Já não me lembro. Mas recordo que de tempos em tempos somos trocados. Geralmente quando o que está aqui enjoa. Eu fiquei no lugar do outro.
— Que outro?
— Um tal de Machado. Perguntou se seu não queria ficar no lugar dele. Desistira de
esperar por seu hipopótamo.
— E aí?
— Ele se foi falando “Querida, ao pé do leito derradeiro... Carolina! Carolina!”. E eu fiquei no lugar dele.
— Não acredito... Mas e Deus? Ele não tem um plano para nós, alguma coisa, uma outra chance, algum...?
— Acha!
— E as virgens, os rios de leite e mel?
— Hã-hã.



— Campos floridos e verdejantes, céu azul ensolarado, felicidade eterna?
— Bobagem.
— Não pode ser. Pelo menos uma...?
— Não, não.
— Mas então Deus não...?
— Se Ele existir, Ele já deve ter aguentado o homem o suficiente na Terra... Não tem mais saco para outras vidas, não.
— Não foi mesmo Ele que pôs você nessa função?
— Não, não. Até onde eu sei, ninguém nunca o viu. O que estava antes de mim foi incumbido por outro antes dele e assim por diante. A história que ele me passou foi a que recebeu do outro, que recebeu do outro... Ninguém nunca viu ou ouviu o Chefe, caso exista.
— Não pode ser.
— Mas é. E vou lhe contar: é divertido ver políticos e falsos religiosos passando por
aí. Para alguém ficar no meu lugar, eu tenho que oferecer. Mesmo assim eles tentam.
— Posso imaginar.
— Mais engraçado ainda é quando eles se dão conta de que estão nus e não têm nada do que pretendiam me oferecer.
— Mas e o Céu, o Purgatório, o Inferno, essas coisas?!
— Tudo invenção de geminianos. São muito criativos. Às vezes até demais.
— Fala a verdade: eu estou em coma no hospital e isso tudo está acontecendo só na minha cabeça.
— Nana-nina-não. Você até queria, mas não.
— Sério mesmo?
— É, eu também fiquei assim no começo.
— E vocês aqui só para avisar... Isso é...
— Pura maldade, eu sei.
— Mas realmente não tem algo depois da vida, uma...?
— Hã-hã. Acabou. C’est fini.
— E o que...?


— Olha para cima. — O Mário Sérgio fitou o negrume do alto. 

— Não dá para ver porque tudo é escuro, mas há um círculo negro bem
acima da sua cabeça. Igual ao de baixo, mas totalmente negro.
— Tudo bem, mas o que acontece quando...?
— Você vai até ele e puf! Acabou.
— Como assim, “puf”?
— Tipo triturador de cana, entendeu? Moedor de carne, liquidificador... Tipo...
— Tá bom! Tá bom!
— Reciclagem — disse o homem de pijama, feliz por ter lembrado. 

— Isso, reciclagem! Lembra do Lavoisier?
— Não acredito nisso...
— Fazer o quê? É a vida. Quer dizer, a morte.
— Merda.
— É o que a maioria fala. Exceto os mais desregrados e os ateus, que falam “Obrigado, Senhor!”, rindo.
— Eu sempre me controlei, refreei os impulsos, segui a moral, respeitei os bons costumes, agi com ética. Fui honesto, sincero sem ser rude...
— Porque quis.
— “Porque quis” o escambau. Foi por medo! E medo de algo que não existe. Por uma recompensa que não vou receber. Que merda.
— Pois é. Se a vida já era uma caixinha de surpresas, a morte se superou, né? — ele comentou; e disparou a rir.
— Eu devia ter pegado a vizinha quando ela quis. Ela estava me dando mole... E eu me contive. Puta que pariu, que vacilada! Que merda. Que merda!
— É, é.


Passaram-se alguns segundos. O silêncio cortado apenas pelo homem de pijama comendo pipoca. O Mário Sérgio pareceu conformar-se.


— Vamos logo com isso, então — disse ele, voltando a subir, lentamente.
— Espera só um minuto — falou o de pijama, abanando a mão e fazendo o Mário Sérgio parar.

— Me fala uma coisa... — ele se aproximou.
— Como é que era essa vizinha?