quarta, 24 de janeiro de 2018
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27/12/2017 15:07

Lavar panelas

ELIANA JACOB ALMEIDA, PROFESSORA, ESCRITORA E DIRETORA PROPRIETÁRIA DA ESCOLA EM BOM PORTUGUÊS, É AUTORA DE “ENQUANTO É TEMPO”, “MANUAL DE REDAÇÃO NOTA 1000 PARA O ENEM” E “A FAMÍLIA-MOSAICO DE CAIO E LUÍSA”. ESCREVE CRÔNICAS PARA JORNAIS E REVISTAS DESDE 2003



Um belo texto circula na internet há muitos anos; chama-se Pai, começa o começo!. Nele, a autora Elma Eneida Bassan Mendes conta que, quando criança, toda vez que ia chupar tangerina, pedia para o pai começar a descascar e, então, a partir do primeiro rasgo, que é mais duro, suas mãozinhas delicadas conseguiam continuar descascando a fruta. 


Diz ela que essa experiência acabou sendo incorporada em sua vida e, como seu pai lhe ensinou que Deus é o Pai que nunca morre, hoje, depois de adulta e com o pai já falecido, recorre sempre a Deus para “começar o começo”. Uma bela crônica, capaz de nos fortalecer por meio de nossa fé. 


Pois bem! Comigo foi diferente. Durante minha vida de solteira — na casa de meus pais — tivemos alguém para fazer o serviço doméstico. Entretanto, nos finais de semana e nas férias na praia, esse serviço ficava por conta das mulheres: minha mãe e eu. Eu realizava várias tarefas, mas na parte mais difícil — para me poupar — minha mãe tomava a frente e terminava o serviço. Na hora de arrumar a cozinha, a vez de lavar as panelas, ela assumia o controle. 



Cresci em muitos sentidos; hoje percebo que diante dos desafios, sou ousada, corajosa, me jogo de cabeça em meus projetos com um otimismo quase infantil. Entretanto, quando surgem os obstáculos maiores — “as panelas” —, espero sempre que alguém venha me ajudar. 


No meu trabalho, preparo aulas, leciono, corrijo textos, mas na hora do serviço burocrático da escola, meu filho que me socorre. Se a questão é carro — conserto, pagamentos de multa, IPVA, seguro, licenciamento — meu marido que resolve tudo para mim. Com relação a minha dificuldade com aparelhos eletrônicos, claro!, meu neto de 10 anos que “desembaça as paradas”. 


Essas são as minhas “panelas” e há ainda muitas outras: detesto ir a bancos; tenho vergonha do número de vezes que peço ajuda aos funcionários. Chego a suar quando preciso preencher formulários pela internet — errar datas, colocar informações no lugar indevido — e, se tiver que realizar qualquer transação por meio de sites, minha filha que me salva. Em casa, problemas que exigem uma providência minha em chamar eletricista, encanador, técnico de televisão me deixam tão aflita que tenho vontade de viajar e voltar só quando tudo estiver pronto. 


Amadurecer é preciso! Adio, delego, espero um socorro, mas quando não tem jeito, é lógico que eu encaro. Até porque esses não são grandes problemas; são apenas minhas limitações. Agora mesmo, quando acabar de escrever essa crônica, preciso enviá-la ao jornal. Devo enquadrá-la num modelo cheio de detalhe — simples para muita gente, mas de mim exige atenção dobrada e um esforço olímpico. Eu sei que vou dar conta, mas já escrevi o texto, fiz minha tarefa. Seria tão bom se tivesse alguém acordado para lavar para mim essa panela!...