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28/12/2017 11:12

A Mostra de Arte em Sampa

Por Vic Renesto


Millôr Fernandes dizia que a grande vantagem do homem sobre os bichos é a capacidade de rir de si mesmo.


Mas nem todos os homens, diria eu. Há aqueles que se levam muito a sério, posam de paradigmas, de referências da sociedade, e, vai-se ver, são criminosos, ou tarados, ou chupam o dedão do pé — às vezes, tudo isso ao mesmo tempo.

Definitivamente, esse não era o caso de meu amigo Tito Montenegro. Artista plástico, músico, compositor e boêmio, ele perpassou seus quase 67 anos pelo planeta Terra à la Garrincha: para os dois — o artista e o genial atacante — a humanidade tinha um furo nos fundilhos da calça e não sabia.



Conheci Tito (ou Thito, por força da numerologia, ele explicou) no início dos anos 1970. Eu integrava a AFA, organizadora da Semana Universitária. Tito e outros artistas participavam, expondo seus trabalhos no nosso Salão de Artes.

Logo ficamos amigos, em noitadas de poesia, som e cerveja (ninguém faz amizades eternas bebendo leite). E foi ali que senti, na plenitude, que Walter de Almeida Vilela — era esse seu nome verdadeiro — era uma pessoa especial.

Generoso, divertido, Tito era considerado meio “esquisito” por algumas pessoas, que atribuíam o fato a uma frustração amorosa com a primeira paixão, uma certa japonesinha.


Ora, se fosse Salvador Dalí, o mestre do surrealismo, a coisa seria vista como “excentricidade”. No caso do Tito, a culpa era da japinha? Que nada, essa namorada abriu as portas para que o pintor fernandopolense encontrasse a sua condição libertária de solteiro. Que inveja boa...


Bem, como não sou crítico de artes, prefiro contar “causos” do folclore montenegrino, não sem antes dizer que possuo um quadro intitulado Lua Fantasma, de sua autoria, que é lindo e extremamente perturbador.


1980. Tito Montenegro, Bira Torricelli, Onivaldo Loverde e Sérgio César, artistas de Fernandópolis, são convidados a expor seus trabalhos no saguão da Secretaria Estadual da Cultura do Estado de São Paulo, cuja sede, naquele tempo, era no centro velho da capital paulista.

Claudinei Cabrera, titular da coluna Nos tempos do Botinão, já contou que eles viajaram — artistas e suas obras — na caçamba de um caminhão basculante fornecido pelo prefeito de Turmalina, o falecido Agnaldo Pavarini, na “mais estranha ‘carga viva’ que vi na vida”, segundo o guarda rodoviário que os parou e, boquiaberto, acabou por liberá-los.



Já em Sampa, onde eu vivia, alguém do quarteto me telefonou. Fui ver a mostra e, para minha surpresa, só um deles escoltava as telas, quadros e esculturas: os outros três bebiam num bar, a 50 metros dali. Nesse bar, acredite ou não, já possuíam até conta aberta...


No dia seguinte, o “vigia” das obras de arte era o Loverde. E não é que apareceu uma equipe de reportagem da TV Cultura?! Nessa época, a equipe de jornalismo formada por Vladimir Herzog no canal 2 era referência, tinha uma grande audiência.

A jovem repórter perguntou pelo Tito, o mais conhecido dos quatro artistas. Loverde pediu um tempo, correu até o boteco e encontrou o pintor surrealista contando uma de suas longas histórias aos dois amigos.


Quando teve chance, o escultor contou da presença da equipe de reportagem. E ouviu de Tito Montenegro a seguinte resposta: “Loverde, deixa de mentiras! Televisão é o c...! Esses caras não querem saber de nós, deixa de ser lunático!”

Claro que não rolou a entrevista. Tito, até recentemente, se ria dessa história. Afinal, como autêntico outsider que foi, o nosso artista sempre preferiu o chamado lúmpen...


Não por acaso, a música que Tito mais gostava de tocar ao violão era do também “maldito” Tom Zé, que diz o seguinte:

“Pecado, rifa e revista

o pobre paga é à vista

A felicidade, o conforto

A alegria e a sorte

Vendeu fiado pra Deus

Vai receber depois da morte”