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27/12/2017 12:41

A última história que o Tito me contou

Por Wilson Granella


Segunda- feira pela manhã, 6 de novembro de 2017.


Chego ao velho portão de ferro que mostra o branco desbotado em ferrugens; a sua corrente e cadeado fechado. Depois do puxadinho de madeira, ferro e vidro que se alonga na frente da casa, enxergo a porta de duas folhas entreaberta. Alívio e expectativa. Chamo, aguardando resposta:


— Tito!... Titão, mano véio, é o Granella!...


Logo surge ele com as chaves nas mãos. De passos pequenos e controlados, colocava em evidência o seu frágil estado de saúde. Deixando a descoberto o sorriso no rosto de barba que crescera nas últimas semanas, a sua voz baixa manifesta-se com alegria contida:


— Grana, é você mesmo? Bom ver você, meu irmão...


Depois do abraço, entramos os dois.


Ultrapassada a pequena sala, buscamos acomodação nas cadeiras da dependência maior que se abria para a cozinha, quartos e banheiro; locais que, após o falecimento de sua mãe Rosa, Tito havia transformado em imenso atelier. Do chão ao forro, pinturas, esculturas, fotografias, livros, xilogravuras, colagens, revistas, pastas, centenas de tubos de tinta e pincéis; um atrapalhar-se de coisas que eu conhecia muito bem havia décadas. A pequena televisão, a poltrona estofada da qual gostava, os aparelhos de som e caixas de CDs e DVDs. Cinzeiros vazios. Por conta da doença, obrigado, abandonou a carteira diária de cigarros. O violão há muito abandonado, apartado das madrugadas.


Tito, reconhecido artista plástico, nos últimos tempos já não mais pintava. Continuar batendo na porta dos amigos? Achava-se desgastado, sem forças para continuar levando a sua arte. Inconcebível, porém, a um criador do calibre dele, estacionar. Por trinta anos ele manteve uma produção fértil que se espalhou pela cidade, ganhando a nossa região, com obras adquiridas por admiradores no Brasil e exterior.


Deixando de esparramar tintas sobre telas e de reciclar pequenos materiais, o artista mergulhou no anonimato. Longe do antigo público de suas exposições e das amizades partilhadas, tornou-se um homem isolado; quase invisível ao cruzar as ruas da cidade. Telefone celular, internet, computador nem pensar.


Solteiro convicto, boêmio à sua maneira, flertou em definitivo com a solidão e a quietude de sua residência. Por onde andavam nos dias de hoje os seus pensamentos e o seu coração confessadamente generoso, ele nunca me disse. E por respeito ao querido irmão, em nenhuma circunstância teimei. Tenho as minhas desconfianças. Por nunca, nestes quarenta e dois anos de convivência, tê-lo visto ao menos com uma namorada, reforça a sua grande paixão por uma belíssima filha de imigrantes japoneses.


Corria os anos 1960 e 1970. Porte alto, cordão com crucifixo no peito, bigodes e aqueles óculos redondos à John Lennon, Tito integrava o conjunto musical The Hells, de quem muito se ouvia falar, levando uma multidão em suas apresentações pela região. Os esboços em lápis, desenhos e mais desenhos, pincéis, tintas e telas, de forma discreta e persistente já lhe tomavam a vida; apoderou-se identicamente da alma sensível do artista a meiguice da japonesa...


Nas paredes da casa, fotografias amarelecidas pelo Irmão Tempo. Sob seu controle e sabedoria rolam segundos, minutos, horas, meses, anos e séculos que se encarregam de juntar para dentro de nós tantas cores e espalhar, depois, nem sempre de maneira piedosa, os mesmos pigmentos. Ali está a musa.


Retratos que guardamos com carinho possuem a magia de dialogar conosco. 

Dialogar ou falar consigo mesmo ao folhear as páginas da alma? De longos cabelos negros e olhos puxados no rosto suavemente redondo, a paixão de Tito... nas noites insones com música no ambiente e uma bebida sobre a mesa. De carne e osso, ela foi retratada às escondidas em muitas pinturas surrealistas.


Na manhã de segunda-feira, eu e o Tito.


Recordações tantas e conversas não levadas a sério borbulham entre nós. Planos para o futuro? Nenhum. Observo o meu irmão mais emagrecido. Ao vê-lo se levantar, caminhar para a geladeira e, de lá, trazer copos e uma caixa com água de coco, sinto compaixão. Visível, uma bolsa coletora de urina segue presa em sua cintura.


— Titão, esta sonda não lhe incomoda?


— Na primeira semana você quer desistir... é horrível. Depois acaba quase se acostumando... Logo, logo eu escapo desse saco — manifesta ele, tentando se esquivar do câncer que o devora há quatro anos. Sorri acabrunhado. Delicadeza para comigo?


Sei bem que as dores pelo seu corpo são quase insuportáveis. Tito esconde que já está tomando injeções de morfina. Um analgésico para também aliviar a dor no meu peito, no coração, na alma? É ele quem retoma a conversa:


— Grana, você conhece aquela história do Henry Ford e o carro quebrado?


— Não — respondo de pancada. — Não li quase nada sobre este engenheiro e inventor. Sei que ele produziu o Ford bigode para o mundo...


— Dizem que ele certa vez se deparou com um motorista em apuros. O carro que o dono feliz dirigia, de maneira repentina, apagou. Em nada valeram as tentativas de achar o problema. Ninguém por perto que pudesse consertar, reparar o defeito. Já desanimado, se viu abordado pela cortesia do estranho que se aproximou. Sem dar muito crédito, o desolado motorista acompanhou o homem entrar capô adentro e mexer em dois ou três lugares. Depois, sem que houvesse sequer sujado as mãos de graxa, o mecânico foi lá na chave e deu partida. Boquiaberto, o motorista desejou, antes de qualquer agradecimento, saber daquele estranho como ele sabia do defeito. Em resposta, o homem se apresentou: “O meu nome é Henry Ford. Conheço bem como estas máquinas funcionam. Eu as projetei e fabrico!”

Aceno com a cabeça. Deixo escapar ao amigo que eu, em parte, havia compreendido a lição, ao que ele completou:


— Pois é, Grana, Deus me criou e sabe do meu funcionamento e de todos os meus defeitos. Só Ele pode me remendar, curar. Estou na posição do motorista com o seu carro que apresentou um defeito...


Nenhuma resposta que eu pudesse retirar da minha trouxa de guardar ganhos e perdas eu lhe dei. Necessitava? Considero naqueles instantes que sou o autor dos meus próprios desastres. Atrás dos óculos, nós dois, velhos amigos e companheiros na arte, seguramos as lágrimas e a respiração. Em sua opção alternativa de tratar o câncer ósseo, Tito confidenciara-me, três anos atrás, que doravante buscaria uma proximidade com o Todo-Poderoso. Conduta serena que escondia pura teimosia?


Hora depois, com redobrado alívio e expectativa de quando cheguei, abraço-o, deixando a sala. Ele me acompanha até o portão. Prometemos nos reencontrar entre as suas idas ao Hospital do Câncer de Barretos-Jales. E nos encontramos novamente. As duas últimas vezes ocorreram na manhã e noite de domingo. Antes de me apartar dele e sem testemunhas, olho no olho, tivemos um diálogo, cujo conteúdo trago comigo. Novo encontro na segunda-feira? Ele estava a um mês de completar sessenta e sete anos.


Internado apressadamente na madrugada da segunda-feira, Tito enfrentou os últimos degraus do seu calvário. Na manhã de quarta-feira, 15 de novembro de 2017, a notícia do seu desencarne. O pintor, escultor e músico fernandopolense Tito Monthenegro, nascido Valter de Almeida Vilela, deu seu último suspiro em quarto de hospital, apagando a máscara de dor sem maiores rodeios e de maneira suave. Certamente ele, espírito imortal, não precisou aguardar muito tempo ao lado do seu carro exaurido, quebrado, para, auxiliado por almas queridas, empreender viagem de retorno ao Grande Além.


No entardecer de céu com cores que somente o Criador consegue misturar, o féretro de Tito seguiu o seu destino; por companhia, familiares, parentes e uns poucos amigos. Palavras de carinho lhe são dirigidas, rosas e aplausos. Na difícil arte de dizer adeus, somos todos aprendizes. Poderia ser diferente? Com as lágrimas não estancadas, o caminho de volta. Quase silêncio no Cemitério da Consolação. Tranquilizar a alma, resignar-se sob os olhos e as sábias leis do Eterno, compreendendo, de maneira racional, que a vida prossegue em progresso contínuo?


Não deixo de reflexionar nas palavras do Espírito Humberto de Campos, escritor desencarnado debaixo de grandes sofrimentos físicos e sua observação através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier: “O que tenho aprendido, acima de tudo, depois da morte, é que, nas esferas imediatas à existência humana, as entidades desencarnadas são, quase sempre, tão bem-intencionadas e tão imperfeitas como os homens. A evolução é obra paciente dos séculos e alguns dias de experiência, quais os que se verificam na carne, desde o berço risonho ao sepulcro sombrio, não bastam à iluminação efetiva da alma...”


Nas mãos de Deus, enfim, o querido irmão Tito parcialmente consertado!