terça, 23 de janeiro de 2018
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08/01/2018 09:15

Já pediu 'boas festas' no Ano Novo?

Por Claudinei Cabreira


Vivendo e aprendendo. Logo bem cedinho, neste lº de janeiro, a campainha de casa tocou. Justo neste dia, que havia planejado dormir até bem mais tarde, tive que pular da cama um pouco antes das 7 da manhã. E ao atender o interfone, ainda meio sonolento, vozes de crianças em algazarra: “Tio, Boas Festas e bom princípio de Ano Novo!”

Para minha alegria e surpresa, a velha tradição de crianças “pedirem Boas Festas” no dia de Ano Novo, ainda estava bem viva, pelo menos aqui pelas bandas do meu bairro, a Vila Bom Jesus. Claro que fui apanhado desprevenido, nem mais me lembrava que antigamente, nesse dia, a gente providenciava um bom estoque de balas, bombons e outras guloseimas para fazer a alegria da meninada. Naquela manhã, vários grupos de crianças apareceram aqui em casa. E o jeito foi apanhar um cofrinho de moedas e distribui-las para a alegria da petizada. É tal da história; quem não tem cachorro, caça com gato!

Isso acabou me remetendo na espiral do túnel do tempo, de volta aos anos sessenta, quando essa tradição era mantida ao pé da letra. Lembro que alguns dias antes do dia de Ano Novo, eu e meus irmãos já começávamos negociar quem formaria a dupla que ajudaria meu pai entregar leite in-natura neste dia tão especial. Era certeza de ganhar presentes e muitas guloseimas da clientela. Todo mundo queria ir, é claro.

Era um dia muito corrido e o serviço começava bem mais cedo, com o dia mal clareando, porque às 8 e meia, a gente tinha o compromisso mais importante do ano. E lá íamos nós, correndo contra o relógio para fazer o serviço render, terminando no prazo previsto. E assim, ao tocar a campainha dos fregueses mensalistas para a entrega do leite, nem era preciso dizer a frase de boas festas: a gente ganhava bombons, balas, cerejas, castanhas, nozes e às vezes, até um brinquedo. Trabalhar neste dia, para nós, era muito melhor que no dia de Natal. Foi assim que conhecemos os famosos frutos da época, que eram muito caros e essas coisas só vinham nas famosas Cestas de Natal Amaral, lembra?

Mas o melhor de todo Ano Novo era o almoço no sítio dos meus avós materno. Era terminar o serviço e rumar para lá, onde a gente passava o dia inteiro. Lembro que um de meus tios tinha um caminhão Mercedes-Benz, desses de carroceria de madeira e ele ia passando na casa dos parentes recolhendo o pessoal. Todo mundo viajava na carroceria, inclusive nossas mães. Naqueles tempos bicudos, ninguém da família tinha carro e quando havia alguma tia com priminho de colo, ou alguma tia mais idosa, sempre ia na cabine do caminhão com o saudoso tio Titão, também conhecido como Alemão.

Chegando no sítio, que ficava uns dois ou três quilômetros depois de Pedranópolis, a meninada se espalhava na larga, parecendo passarinho quando escapa de gaiola. A caipirada da cidade colocava o sítio de pernas pro ar; era uma festa. Os meninos mais mocinhos se juntavam em duplas com os mais velhos e o tempo fechava num animado campeonato de jogo de bochas, num campo improvisado ao lado do casarão. Meu pai e meus tios cuidavam de montar o mesão com pranchas de madeira sobre cavaletes, e caso o tempo estivesse armando para chuva, eles também erguiam uma grande barraca de lona sustentada por bambus. Se o tempo estivesse firme, o mesão era montado sob a sombra de um grande e frondoso Tamburi.

Lembro que não se fazia churrasco como hoje em dia. Assava-se muitos frangos caipiras no grande forno à lenha e ainda, uma ou duas leitoas, nas churrasqueiras improvisadas em buracos feitos no chão. Mas aí havia uma regra importante; esse “fogo de chão” tinha ser feito sempre do lado oposto do grande quintal, bem longe da “geladeira cavada no chão”, forrada com lona e cheia de palha de arroz e algumas barras de gelo, onde meu avô Ricieri Tarlau, um austríaco grandão, colocava suas cervejas que tinham que ficar no ponto: oito graus centígrados! E ele brincava, medindo a temperatura da garrafa com um termômetro!

O prato principal era a macarronada da nossa “Nona italiana”, feita à mão e servida em grandes baciadas, queijo caipira ralado com fartura e os assados. O molho de tomate era de tomate mesmo, colhido ali no sítio. Era tudo artesanal, sem química nenhuma. Quando a mesa estava pronta, minha avó Egle tocava uma sineta e todos tomavam seus lugares nos bancos de madeira. Numa cabeceira da mesa, o nosso avozinho e na outra ponta da grande mesa, a noninha Egle. Era tradição.

O velho Ricieri esperava a Noninha se acomodar ele, ainda de pé, em silêncio, com um olhar demorado, passava a “tropa em revista” e não se ouvia um pio na mesa. Ele sentava e fazia a prece agradecendo à Deus as boas colheitas, as boas coisas do ano que terminava, agradecia a presença da família ali reunida, a boa saúde de todos, a mesa farta e de repente, dava um animado viva ao Ano Novo, sempre seguida da primeira garfada no prato de macarrão e aí sim, começava de verdade, o nosso grande almoço de Ano Novo.

Essa tradição durou muitos e muitos anos e só acabou, quando eles bastante já idosos, venderam o sítio e vieram morar na cidade, perto dos filhos. Bons tempos aqueles, que nessa época do ano, a gente ainda encontrava gabiroba madura por aquelas bandas. Lembra quando foi a última vez que você comeu gabirobas? Então, tenha um ótimo Ano Novo, muita saúde e grandes realizações. Semana que vem tem mais. Até lá.