sábado, 24 de fevereiro de 2018
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29/01/2018 09:13

Variações sobre uma mesma nota

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

No final do ano passado estive em São Paulo, com a Jacqueline.


O fato rendeu uma coluna.


Não havia mencionado que também estivemos na chamada “Galeria do Rock”. 


Sinceramente, hoje, e há muito, soa-me como blasfêmia, usar o termo rock. É puro comércio. Mais nada. Todavia, estava com saudade de caminhar no centrão de São Paulo...Fomos.


Numa das lojas, encontrei camisetas com rostos de diretores de cinema. Queria uma vermelha – ah! Essa cor – do Hitchcock. Não tinha para meu tamanho. 


Encontrei duas outras: uma que fazia referência ao filme “Poderoso Chefão”, cor preta; outra, em azul com o rosto do Woody Allen. O filme de Coppola é um dos maiores da história do cinema. Amo-o. Quanto a Allen, não é meu cineasta preferido, todavia, tem grandes filmes e uma película, a meu ver, a maior: “Meia Noite em Paris”, da qual sou devoto.


Comprei ambas.


Recentemente, passou a ser temerário circular com uma camiseta com o rosto de Woody Allen, na medida em que, entrou no rol dos “criminosos de Hollywood”: acusado de assediar uma das filhas, me parece adotiva. Não está nada provado. Há uma guerra entre o cineasta e a atriz Mia Farrow, sua ex-mulher, em razão da separação do casal e do casamento de Woody com uma filha adotiva de Mia com Andre Previn. Por sinal, sua mulher até hoje.


Nesse imbróglio entre Mia e Woody a porcaria foi jogada aos montes no ventilador. Espirrou para todos os lados, em cima e embaixo. Filhos acusam Woody; filhos desmentem, mentem. Acima de tudo, me parece, que há ou havia, uma imensa “dor de corno”, pairando na merda toda.


Cuidado!


Usei um termo perigoso.


Estamos num momento da História que é nojento!


Explico: o politicamente correto chegou a um grau de insuportabilidade inimaginável.


Qualquer coisa é assédio, é machismo, é racismo, é homofobia, é transfobia – nem sabia que criaram esse termo -, é toda merda de fobia.


Ontem procurava – em vão – o jogo entre Barcelona e Espanhol. Num canal passava “50 tons de preto”. Paródia de “50 tons de cinza”. Não li o livro e não vi o filme. Conheço a história, em face de uma das minhas filhas ter lido o livro. 


Bobagem. Porém, parei para prestar atenção. O momento do filme mostrava a entrada de uma jovem, mulher negra bonita, numa rica sala, na qual estava um jovem negro. Cristhian Black. Seria entrevistado por ela. A moça perguntou-lhe de onde vinha sua fortuna. O mesmo respondeu que da mesma forma que a de todos os negros: tráfico de drogas. Em seguida começa uma sequência de cenas-pastelão. Me encheu o saco. Mudei de canal. Suportei os cinco minutos-limites que uma “obra” como essa permite.


O que tudo tem em comum?


Tenho certeza: não tardará e o maldito politicamente correto fará o “justiçamento” do escracho. Chamará de racista, homofóbico, machista e por aí vai.


Não defendo nenhuma atitude de segregação. É desnecessário dizer, porém, não custa.


Incomoda-me o exagero. A fobia, a baba do ódio fundamentalista que tratam questões que poderiam e deveriam, a meu ver, ser tratadas como esculhambação. 


O velho bom humor.


Diante desse quadro escroto, é perigoso circular com a camiseta de Woody Allen. Posso ser acusado de defensor da violência sexual contra crianças; de fazer apologia da pedofilia.


Óbvio, poucos são capazes de separar a obra e o criador.


Nada foi provado contra o cineasta. Nem sei se há provas de fato.


Todavia, já ocorre a condenação. Como a “Escola de Base”.


Além disso, se não formos capazes de separar obra e criador: Fernando Pessoa era salazarista; Nelson Rodrigues era amigo de generais; Guimarães Rosa era reacionário. E daí?


Escrevo relaxadamente. Cercado pelos meus cães, os quais estão refestelados, deitados a minha volta. Sobre a mesa um bule de café. Que perigo! Ele é vermelho!