sábado, 24 de fevereiro de 2018
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29/01/2018 13:50

Trabalho não mata ninguém

Por Claudinei Cabreira


Nos anos cinquenta e sessenta, época da minha infância e juventude, o mundo era muito, mas muito diferente de hoje em dia. As famílias, por exemplo, mesmo as mais abastadas eram numerosas. Dois ou três filhos por casal, eram fatos raros. Já nas camadas populares, a maioria das famílias tinham quatro, cinco ou mais filhos. Meus pais tiveram sete filhos. Era uma verdadeira escadinha.


Como naquela época os tempos eram bicudos, obviamente os meninos do meu tempo tinham que se virar para ter o seu próprio dinheiro, e também ajudar em casa. Então, desde muito cedo, ainda em plena infância, o pessoal da minha geração foi acostumado ao batente. E ninguém reclamava de ter que trabalhar, até porque os meninos daquele tempo, tinham vontade de mostrar serviço, bancando os “homenzinhos’ da casa. Vestir calça comprida para ir ao trabalho, era o sonho de todo menino.


Que me lembre, meu primeiro trabalho, foi quando tinha por volta de oito anos mais ou menos, entregando leite “in natura” com meu pai, nas residências de Fernandópolis. Nesta época eu estudava na parte da tarde, no antigo Grupo Escolar “Afonso Cáfaro”, que ficava na antiga avenida Doze (hoje Av. Américo Messias dos Santos) esquina com a rua Paraíba. Dois anos mais tarde, mudei para a turma da manhã na mesma escola, passando meu lugar na entrega de leite, para meu irmão mais novo. Até porque, já bem mais crescido, podia ajudar meu pai na parte da tarde, trabalhando numa área arrendada na fazenda dos Ingleses, onde ele plantava arroz, milho e feijão, garantindo com isso, boa parte do sustento da nossa família.


Lá pelos treze anos fui engraxar sapatos na Praça Joaquim Antonio Pereira, como fazia a maioria dos meus amigos, sempre defendendo uns trocos que separava para as matinês das tardes de domingo no Cine Fernandópolis, e o resto do faturamento, entregava para meus pais. Foi com essas pequenas economias que comprei meu primeiro radinho de pilhas Mitsubishi.


Nessa época, lá pela metade dos anos sessenta, vi de perto o calçamento da praça Joaquim Antônio Pereira (foto). Lembro que havia enormes montes de pedras pretas, amarelas e até rosadas, amontoadas em volta das ruas São Paulo e Brasil. O pessoal quebrava as pedras maiores na marreta, e depois eram quebradas de novo, dando um formato menor, na palma da mão, protegida por uma espécie de luva feita com pedaços de tiras de pneu. Quebrar pedras era um trabalho duro, era preciso ter “muque”. Já o assentamento das pedras formando desenhos, dando forma e cores diferenciadas na calçada, era uma tarefa mais fácil, meio que artística e puramente artesanal. Até que era bonito de ver o pessoal cantarolando, durante a empreitada.


Por algumas vezes, andei tentando arrumar trabalho lá no calçamento da praça, mas apesar de tanto ter insistindo com o “Baiano”, que era o chefe da empreiteira, por sorte não fui contratado, porque ele achou que eu era muito mirrado para aquele tipo de serviço. Digo sorte, porque logo depois fui trabalhar como aprendiz na Auto Escola São José, de Romildo José Sandrin, e dali, fui para o Escritório União, de Dante Esmerini, onde aprendi tirar decalques dos números de chassi e motores de veículos para licenciamento. E mais tarde, no começo de 1969, fui parar na Gazeta da Região, do meu amigo e mestre José de Freitas, onde com 17 anos, comecei trabalhando como repórter esportivo e policial. Parece que foi ontem, mas lá se vão 48 anos...


Nessa época, lembro que meus amigos de escola e futebol também “ralavam” desde muito cedo, ganhando salários simbólicos, outros trabalhando até de graça como aprendizes em escritórios, oficinas mecânicas, de torno, solda, de serralheria, marcenaria, etc. Naqueles tempos, nossos pais nos incentivavam,  e neste sentido, minha mãe fez eu e todos meus irmãos estudarmos datilografia na Escola Remington, com a exigente professora Ledismam Brambati, que dia desses encontrei lá na Unati. Naqueles tempos, ter diploma de datilografia, era meio caminho andado para arrumar um emprego melhor e subir na vida, como dizia o povo de antigamente.


De todos meus amigos daqueles tempos duros, nenhum deles se tornou marginal. Muito pelo contrário, os que ainda estão morando aqui na “terra de Santa Rita de Cássia”,  são pessoas de bem, homens e mulheres bem posicionados na vida, respeitados na comunidade, até porque, todas as dificuldades vividas no passado, nos ensinaram lições preciosas. Minha geração aprendeu valorizar as oportunidades. Todo mundo trabalhava duro e estudava no período noturno, caminhando quilômetros para ir e vir da escola, mesmo debaixo de chuva e frio. E olhe que naqueles tempos bicudos, não havia essa moleza de ensino continuado, não. Quem não estudava, ficava para segunda época e até levava “bomba”. Então, ninguém brincava em serviço.


Trabalhei desde muito cedo e nem por isso deixei de estudar, nem também precisei de terapeutas disso ou daquilo. Não cresci revoltado com o mundo e sou eternamente agradecido aos meus pais, que sempre me estimularam ao trabalho e à todos que me deram oportunidades de trabalho ao longo da vida e aos mestres que me passaram valiosos conhecimentos. Pelo que tenho notícia, todos meus amigos que trabalharam desde muito cedo, hoje são pessoas experientes, saudáveis e bem resolvidas. Semana que vem tem mais. Até lá.