domingo, 25 de fevereiro de 2018
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29/01/2018 15:40

ADEUS A MÁRCIA GIANNETTI

“Aos 61 anos, viúva e um casal de filhos, havia anos que buscava auxiliar os necessitados que lhe batiam às portas do consultório e da alma, esta cheia de moedas de ouro da solidariedade”

Por Wilson Granella  



Márcia Giannetti, médica oftalmologista há décadas radicada em Fernandópolis, fechou os olhos de um azulclaro-profundo de se perder de vista. Na madrugada deste sábado, 20 de janeiro de 2018, o seu coração, lá sem aviso nenhum, abruptamente se negou a continuar batendo no peito da mãe responsável, da filha extremamente carinhosa, da nora cheia de cuidados, da esposa corajosa e cheia de aceitação com os anos em que, feita chama resignada, velou e iluminou as noites do marido Marcos, vitimado por impiedosa doença.


No tórax da amiga e profissional profundamente ética, o coração deu um jeito de se aquietar no silêncio da casa e das horas que avançavam pela madrugada. Abrir os olhos para o clarão do novo dia? Os seus clientes de consultas marcadas, sim. Tratar possíveis doenças na visão e nos olhos com aquela mulher de rosto, gestos e voz suaves que sempre consideramos uma pessoa da nossa própria família? E não era? O telefonema e a notícia que fez mais apressados os caminhos. Nenhuma chance para Márcia.


Aos 61 anos, viúva e um casal de filhos, havia anos que buscava auxiliar os necessitados que lhe batiam às portas do consultório e da alma, esta cheia de moedas de ouro da solidariedade, do carinho, da compreensão, do abraço fraternal. No socorro aos aflitos — velhos e crianças —, a doce médica com o oftalmoscópio e o bisturi, trouxe foco, nitidez e mais cores aos olhos de milhares de pessoas. Por certo, quantas vezes, visitada pela dor, ela não necessitou de nenhum colírio para lubrificar os olhos azuis, deixando as lágrimas vazarem até a última gota? Verdade é que ninguém avança para melhor sem alguém. Compreendendo que virtude solitária não passa de um pão exposto na vitrine, Márcia tornou-se espírita; humildemente dando lições para aprender encontrar o próprio caminho de sua fé raciocinada.


— Granella, vou lhe receitar óculos com lente multifocal. Não acredito que você faz uso de dois óculos — perto e longe — para ler em curta distância...


— Não me acostumo.


— É treino. Em uma semana você estará fazendo as suas tarefas normalmente — explicava ela com paciência e sorriso gentil.


Na primeira sala do Velório Municipal, o corpo exposto é tocado com carinho. Preces e rostos emocionados com lágrimas furtivas. Esquivar-se ao último adeus, tendo por companhia amigos e familiares daquela amorável mulher em quem o coração, lá sem aviso nenhum, abruptamente se negou a continuar batendo no peito? De jeito nenhum. Afinal, a Márcia sempre fez questão de prestigiar os eventos sociais dos amigos. Nas pequenas promoções da Associação Filantrópica Henri Pestalozzi, lá estava ela, colaborando; igualmente socorria as crianças da entidade, necessitadas dos seus olhos azuis e das mãos aquecidas de afeto, da sua alma tão farta de naturalidade... e bem longe da vaidade! Como pagar?


Três dezenas de coroas de flores servem de alameda ao caixão, à inapagável lembrança e em memória da Márcia, cuja alma agradecemos ao Todo-Poderoso pela convivência. Leio na faixa de uma delas, acomodando os óculos...Os dois juntos — para longe e para perto — em flagrante gesto de que não me acostumei com a lente multifocal, mesmo com todo o aconselhamento da Márcia: “Saudades eternas do seu jardineiro Osvaldir”.


Quem recebe uma corbélia tão colorida e faixa com dizeres simples assim... de um jardineiro? Somente ela: a Márcia que amava os livros e as flores... que através dos seus olhos de um azul claro-profundo enxergava o nosso mundo um pouco diferente; a Márcia que nos amou a todos!


Fel da separação? Não, absolutamente! No chamado grande adeus, somente a separação física. Liberta, a alma prossegue. Depois do breve nevoeiro, que a nossa amada Márcia, o seu Espírito, nos fale ao pensamento debaixo da luz das nossas orações.


Obrigado por tudo, Márcia!