domingo, 25 de fevereiro de 2018
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29/01/2018 15:29

'A GALERA GOSTOU DE MIM E FALOU ‘PIRA AÍ!’. AÍ EU PIREI!'

Finalista do Prêmio Jabuti de 2017 com Savana de Pedra, Felipe Castilho lança Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Intrínseca), obra criada dentro do universo compartilhado de Untherak


ORDEM VERMELHA: FILHOS DA DEGRADAÇÃO

Autor:

Felipe Castilho

Editora:

Intrínseca

(448págs.; R$ 44,90)


FERRO, ÁGUA &

ESCURIDÃO

Autor:

Felipe Castilho

Editora:

Gutenberg

(288págs.; R$ 44,90)


Untherak.Mapa da cidade fictícia 




Felipe Castilho sempre se cercou de livros. É leitor desde pequeno e sempre quis ser escritor. Na infância, fazia livretos de papel dobrado para seus contos e quadrinhos, enquanto brincava de editora com seu irmão. Trabalhou nas maiores livrarias do país, antes de ingressar no mercado editorial. De lá, passou para a Ed. Gutenberg, onde trabalhou por vários anos, tendo sido responsável pela publicação de importantes autores brasileiros e estrangeiros de fantasia. Também foi pela Gutenberg que lançou seu primeiro livro, Ouro, Fogo & Megabytes, primeiro volume da saga Legado Folclórico, em 2012, ao qual se seguiram Prata, Terra & Lua Cheia (2013) e Ferro, Água & Escuridão (2015), o quarto — e último volume — da saga está em fase de escrita. Em 2014, lançou sua primeira HQ, Imagine Zumbis na Copa, com o ilustrador Tainan Rocha, pela Giz Editorial. Seu segundo álbum, Savana de Pedra (Ed. Alto Astral), desenhado por Tainan Rocha e Wagner William, foi finalista do Prêmio Jabuti de 2017, ano em que se criou a Plot!, selo dedicado à publicação de quadrinhos do Grupo Astral Cultural, no qual Castilho atua como editor-chefe. Ainda em 2017, publicou Ordem Vermelha: Filhos da Degradação (Ed. Intrínseca), obra criada dentro do universo compartilhado de Untherak, criado por Felipe, um ilustrador e um escultor, sob direção de Érico Borgo, da Omelete. O livro foi lançado na ComicCon Experience (CCXP) de 2017, maior evento de cultura nerd do país e, desde então, tem agitado o mercado nacional de fantasia. Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade ao Cultura!.


• Para começar, Felipe, o que um leitor que ainda não ouviu falar de “Filhos da Degradação” deve esperar de seu novo livro?

Pode esperar tudo o que faz de um livro de fantasia ser “apetitoso”, mas com uma dose de sofrimento e sujeira extra! Acho que, se Filhos da Degradação fosse uma música, seria uma cheia de distorções, várias mudanças de andamento e sem nenhum refrão.


• Como foi o processo de criação do mundo de Untherak? Você teve total liberdade criativa na redação do livro? Quais foram as diretrizes que nortearam este trabalho?

O início do universo da Ordem Vermelha já foi uma saga em si. Um dia eu fui no Omelete conversar com o Érico Borgo, o Renan Pizii e o Daniel Lameira (da editora Intrínseca), sobre um possível projeto que teria muito a ver comigo. O Victor Hugo Sousa e o Rodrigo Bastos tinham uma ideia de criar um universo da CCXP, e o Renan e o Érico deram total liberdade para eles criarem uns personagens do zero, e foi aí que eu entrei — eu criaria o backgrounddesses personagens e do mundo onde viviam, criaria uma linha narrativa, motivações... O que vestiam, o que comiam, onde viveriam; tudo isso teria que passar a existir junto com aquelas artes incríveis. Aí o processo se tornou algo bem interessante, porque uma ilustra do Rodrigo me inspirava a criar um novo personagem, algo que eu dizia gerava uma arte conceitual do Victor e aí por diante. Untherak, a cidade onde a história se passa, foi sendo expandida para todos os lados ao mesmo tempo. Mas sobre a minha escrita, o mais legal foi isto: a galera gostou de mim e falou “pira aí!”. Aí eu pirei!


• Você disse em uma publicação da “Revista Omelete Box” de dezembro de 2017 que seu livro seria uma espécie de “‘Trainspotting’ na Terra Média”, uma “‘Cidade de Deus’ em Westeros”, mas que, ao mesmo tempo, se afastaria das obras de Tolkien e George Martin. Qual o desafio de se escrever dentro de um sistema tão estabelecido como é a Fantasia, que por si só já traz expectativas dos leitores? E, mais do que isso, qual o desafio de se fazer uma fantasia que, ao mesmo tempo, propusesse um novo mundo e dialogasse com a realidade brasileira e com um sentimento de brasilidade?

Acho que o livro começa com um aceno para todos os grandes autores da fantasia que continuarão encantando novos leitores para sempre, mas depois parte para um rumo que me motivou demais a criar cada beco sujo de Untherak: eu sentia falta de me sentir parte da periferia dos reinos fantásticos. Eu sei como é ser da periferia no mundo onde vivo, mas normalmente os lugares miseráveis dos livros de high fantasy acabam sendo um cenário temporário, pois o herói e a heroína logo partem dali para alguma aventura incrível. Nos meus livros do Legado Folclórico,eu mostrei o meu Brasil através de seus mitos e lendas urbanas, e na Ordem Vermelha eu apresento parte dos nossos problemas políticos e sociais sendo criados através da espada e de uma magia eclipsada pelo obscurantismo.


• Untherak é uma teocracia ditatorial, governada por uma deusa imperatriz, um general e uma cúpula de conselheiros não eleitos, que oprimem um povo que vive sob um regime de servidão ou de uma pseudoliberdade.Comente um pouco essa estrutura de poder, que você criou e que tanto evoca os governos de Distopias. Além disso, deixo uma provocação: essa seria sua forma de mostrar os perigos de se misturar política e religião no governo de uma nação?

Por mais que o livro tenha essa sombra distópica, ela foi naturalmente evocada quando defini usar esses elementos de poder absolutista centralizados em Una, no General e na Centípede. Daí foi um pulo para eu me ver cercado de questões que as minhas distopias preferidas abordam. Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 (meu favorito), 1984... estão todos ali, ao lado das minhas referências no insólito — Ursula K. Le Guin, Terry Pratchett, Philip Pullman. Sobre a ótima provocação, respondo com outra, direcionada: posso dizer que essa foi a minha forma de provocar a ideia ridícula de uma nação que ignora a existência do plural e do diverso. Quando o Estado decide que só existe uma escolha possível, uma linha de pensamento, uma forma de economia e uma orientação sexual, cabe a todos os excluídos se revoltarem, sim.


• Pensando agora numa questão um pouco mais leve... Até agora você era conhecido como autor de literatura juvenil (além de quadrinista, é claro), sendo “Filhos da Degradação”sua primeira incursão na dita “ficção adulta”. Quais são os desafios de escrever para jovens leitores e para leitores adultos?

Acho que não teve tanto desafio, até porque os meus livros mais juvenis têm o intuito de elevar o jovem ao patamar do adulto, sem subestimar a inteligência do leitor. Filhos da Degradação teve apenas uma pequena mudança de marcha — além da liberdade de poder derramar mais sangue, claro.


• Por fim, o que nós leitores podemos esperar de Untherak? Quais são os planos para o universo de “Ordem Vermelha”?Afinal, o primeiro livro termina em aberto, criando muitas expectativas. Mas, além disso, tenho outra curiosidade: como você também é quadrinista, há chances de vermos Aelian e os outros heróis de “Filhos da Degradação” em uma história em quadrinhos?

Tem MUITA coisa da Ordem Vermelha acontecendo nos bastidores, não só na literatura, e isso me empolga demais! Além da sequência, existem planos para quadrinhos, sim. Talvez não com Aelian, Raazi e essas figuras que protagonizam o primeiro livro, mas definitivamente veremos Untherak através da névoa dos tempos — e um vislumbre de rostos conhecidos!


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BRUNO ANSELMI MATANGRANO, TRADUTOR E AUTOR DE DIVERSOS CONTOS E ARTIGOS, É MESTRE E DOUTORANDO EM LETRAS PELA USP


Autores.Com o escritor EnéiasTavares 



Parceiros.Com o ilustrador Tainan Rocha na CCXP de 2017 



Amigos de Letras.Com o escritor Samir Machado de Machado