sábado, 24 de fevereiro de 2018
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01/02/2018 09:33

É Luz!

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Por não estar presente no momento, não posso atestar a veracidade de tal assertiva. Todavia, fala-se que Goethe – gênio da literatura germânica e mundial – e Einstein – gênio da Física -, teriam proferido essa afirmação pouco antes de falecerem. Não sei. Não importa.

A afirmação vista e lida aos olhos da racionalidade, denota a luz do conhecimento, àquela que levaria os humanos a maioridade do pensamento, segundo dissera Kant, um dos maiores nomes das luzes, “Aufklärung”, do “Iluminismo”.

Sim, o século XVIII foi uma ruptura significativa no pensamento filosófico europeu e mundial. Rompeu definitivamente com os dogmas impostos pela religião; começou a operar a cisão entre fé e razão, ciência e religião e conclui aquilo que se iniciara com Descartes, a separação entre Filosofia e Teologia.

Dogmas e rupturas à parte: essa leitura é eminentemente branca, eurocêntrica, preconceituosa e, por que não dizer, racista.

Explico-me: primeiro, a chamada Idade Média é nominada como “idade das trevas”, ao passo que, o século XVIII, em oposição, é chamado de “século das luzes”. Por quê? Ora, o homem branco clareou “as coisas” com o uso da razão. Entendam: o branco europeu. Pois, os demais eram, no máximo, “bons selvagens”, como diria o equivocado Rousseau.

Todavia, novas pesquisas, “achados” e estudos, apontam novas luzes.

A Folha de São Paulo, em sua edição de domingo, no caderno “Ilustríssima”, trouxe importante texto, escrito por Dag Herjornsrud, historiador das ideias e fundador do “Centro de História Global e Comparativa de Ideias, sediado em Oslo, cuja temática é apresentar que um etíope chamado Zera Yacob, tal qual Diógenes, habitante de uma caverna, apresentou um século antes, as teses centrais de Hume, Locke e Kant; assim como, o ganês Anton Amo usou noções da Filosofia alemã, antes de ser registrada, antecipando Marx.

São poucas traduções, poucos registros e um absurdo preconceito em aceitar tais evidências e provas.

Depois de ler o texto, remeti-me ao filme “O Homem que viu o Infinito” de Matthew Brown, película que aborda a vida do hindu Ramanujam. Sem escolaridade, nascido na então colônia britânica, fora levado – pela genialidade – nos anos dez do século passado, para a prestigiosa Universidade de Cambridge.

Sofreu todo tipo de segregação e preconceito.

Por méritos e dedicação próprios, venceu. Foi aceito entre os membros notáveis de brancos britânicos na “seita” que é a academia da Universidade.

Morreu tuberculoso um ano após ter sido incluso entre os catedráticos brancos.

Por que comparo?

Óbvio, não será nem pouco simples, os brancos “esclarecidos” da Europa aceitarem que suas teses vieram depois dos africanos.

Mais importante: essa é uma forma de combater preconceito e segregação com fatos e ideias, sem realizar discursos fundamentalistas e panfletários.

Prática cotidiana e usual em todo o planeta. Marca da chamada “Morte de Deus”, elucidada por Nietzsche em seu belo aforismo, no qual, prenuncia o porvir: o fundamentalismo como base de nossos dias!

Haveremos de reaprender que o mundo não é e não pode ser pautado na “modernidade líquida”. Ideias devem ser propostas, pensadas e discutidas.

Isso é luz!

Não é, e nunca foi cabível, dogmas e “verdades absolutas e indiscutíveis”.

A propósito: hoje faz setenta anos que Gandhi foi assassinado por um “fiel”. Tudo em nome do amor e da fé.