domingo, 25 de fevereiro de 2018
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05/02/2018 09:20

O dia que fizemos 'um negócio da china'

Por Claudinei Cabreira


Lá pela metade dos anos sessenta, quando a TV ainda não havia chegado por estas bandas, quando os computadores eram coisas da Nasa e ninguém nem sonhava com Internet, notebooks,tablets, celulares e smartphones,os meninos daqueles tempos jurássicos se viravam como podiam para se divertir. E como se viravam. Entre a petizada, a criatividade rolava solta.

Quase todos os meninos que conheci na minha adolescência, participavam de um timinho de futebol da rua ou do bairro onde moravam. Já falei aqui do time da molecadinha da antiga Avenida Doze, mas como essa história é muito rica, vale a pena contar uma das passagens que ficou na memória de todos:o dia que compramos o nosso primeiro jogo de camisas, o fardamento, como se dizia antigamente.

Naquela época, times que tinham uniformes eram só as chamadas equipes amadoras, como o glorioso Caciquinho, o Bandeirantes da Avenida Dez, o Corinthinha, o Vila Aparecida, o Paulistinha, o Brasilandia e o Comercial. Já entre a molecadinha, os chamados times juvenis, só o time do Nenê Rolim (in memorian) tinha farda. Quando esses timinhos jogavam entre si, era preciso tirar par ou ímpar, para escolher quem jogaria sem camisas, e o outro time que se lascasse, cada um jogando com a camisa que trazia no corpo. E todo mundo jogava descalço nos campinhos de terra batida da periferia. Assim, no dia de jogo, a gente sempre ia para os campinhos com uma camisa surrada, porque jogar com camisa nova era proibido; camisa nova era só para ir na missa, na praça ou ao cinema.

Um belo dia, lá por volta de 1967, descobrimos que o Nenê Rolim havia comprado um jogo de camisas novinho para o seu time. Procuramos por ele e fizemos uma proposta para comprar o jogo de camisas usado. Eram camisas brancas, com uma faixa transversal azul, que até hoje não sei se era muito clara ou era desbotada mesmo. Quando ele falou a quantia que queria, dissemos que não tínhamos dinheiro e fizemos uma contraproposta; pagar o jogo de camisas com bolinhas de gude.

Para nós, a única chance de sair negócio seria, pelas bolinhas, na base da barganha. Ele pensou um pouco, consultou seus amigos e disse que queria 200 bolinhas de gude em troca de cada camisa, ou seja, 11 camisas, 2.200 bolinhas. Bom negociante que era, foi logo avisando que havia dois timesinteressados na compra das camisas.

Para “tirar a concorrência da parada”, alguém da nossa turma para garantir o negócio, bateu o martelo, dizendo que a gente pagava 220 bolinhas por camisa, com dez por cento a mais de garantia, mas que era preciso prazo de uma semana para juntar as 2.420 bolinhas. Uma cusparada na palma, seguido de um aperto de mão, negócio fechado! Era assim que os meninos do meu tempo selavam um compromisso. Impressionante.

Aí começou uma nova batalha: convencer os meninos do nosso time e os nossos amigos da rua, para doarem suas cobiçadas coleções de bolinhas de gude, ganhas no “bistrik” ou nos jogos de “bancas”, não foi uma tarefa fácil. E tinha um detalhe: aquelas bolinhas menores, com desenhos que lembravam uma carambola, eram consideradas raras, e por isso mesmo, cada uma delas valia por cinco das outras. Um dia antes da data combinada para fazer o “pagamento”, reunimos todo o material e fizemos a contagem umas duas ou três vezes. Aquele mundaréu de bolinhas armazenadas em sacolas, embornais e até latinhas de leite Ninho, não iam além de 1.700 e poucas.

- Ele não vai topar! Faltam mais de setecentas bolinhas – disse alguém da nossa turminha. Dinheiro para comprar as bolinhas que faltavam, sem chance, ninguém tinha. Foi quando um dos meninos teve uma ideia luminosa. “E se a gente completar o que falta com gibis e álbuns de figurinhas?”.

Nova reunião, nova rodada de negociação com o Nenê e seus conselheiros. Depois de muita conversa, ficou decidido que álbuns de figurinhas não interessavam ao vendedor. Completar o restante com gibis até que era interessante e depois de muita conversa, contas feitas com o dedo desenhando na areia, cada revista entraria no negócio valendo 20 bolinhas, mas só aquelas que estivessem em bom estado, para ele poder vender ou trocar na feirinha que havia antes da matinê nas tardes de domingo na calçada do Cine Fernandópolis.

Assim, no dia seguinte, com mil setecentas e tantas bolinhas e mais uns trinta e tantos gibis, pagamos o primeiro jogo de camisas do nosso glorioso Alvorada F. C., o timinho da antiga Avenida Doze. Aquilo para nós era o máximo, uma façanha, um luxo! Tudo certo, combinado e conferido, no final todo mundo ficou feliz com o negócio.  E para alegria geral, as duas partes comemoram, todo mundo achando que havia feito “um negócio da china”.

Daí era preciso completar o fardamento com os calções. E depois de muita negociação entre todos os integrantes do nosso timinho, teve até votação para escolher a cor dos calções, para combinar com a camisa. Assim ficou resolvido que cada um teria que providenciar um calção azul para combinar com a cor da faixa da camisa. Mas,a coisa não deu muito certo não. Uns conseguiram o azul escuro, outros apareceram com calções azul-celeste, outros apareceram com velhos calções bem claros,prá lá de desbotados, e a coisa ficou meio bagunçada. Mas isso era de menos. Ninguém se estressava por causa desses pequenos detalhes. Naqueles tempos tudo era muito simples e a vida era bem mais fácil. Eram tempos felizes. Semana que vem tem mais. Até lá.