domingo, 25 de fevereiro de 2018
área do assinante
14/02/2018 15:19

O dia que 'Carbureto' incendiou o Carnaval

Por Claudinei Cabreira


No ano passado, nesta mesma época, esta coluna lembrou as antigas e maravilhosas marchinhas de carnaval, que animavam as movimentadas noitadas do reinado de Momo, nos salões do Fernandópolis Esporte Clube, o lendário e inesquecívelFEC e também na Casa de Portugal, o conhecido  “Clube da Colina”..  Este ano, como estamos bem no meio do período da folia, vamos de novo, contar um pouco mais sobre o carnaval dos velhos e bons tempos.


Para os mais jovens, aqueles com menos de 50 primaveras no lombo, o famoso FEC ficava na rua Rio de Janeiro, onde até pouco tempo funcionava a segunda agência do Banco Itaú, e bem próximo, na esquina com a Av. Manoel Marques Rosa, ao lado da loja do Brasilino Magri, ficava o não menos lendário restaurante Minuano, “point” predileto da moçadinha daqueles anos dourados.


Nas noitadas carnavalescas, aquela região da cidade ficava congestionada, fervilhava de gente bonita, todo mundo devidamente paramentado para os festejos momescos. Muita menina bonita desfilando de um lado para outro, em sumários trajes de odaliscas, outras mais comportadinhasdesfilavam como colombinas, e os rapazes, pra variar, se fantasiavam de sheikes, beduínos, piratas, palhaços e outros tipos de personagens que povoaram o imaginário da juventude daqueles tempos.

Mas havia algumas personagens que todos os anos se destacavam mais, se sobressaiam aos demais foliões. Figurinhas carimbadas, lá estavam elas, sempre irreverentes e novidadeiras. Eram sem saber, os grandes agitadores culturais daquela época. Quem conheceu naqueles tempos o saudoso Carbureto, por exemplo, sabe do quê estou falando. Oclair Fontana, esse era o nome da figura mais emblemática dessa abençoada “Terra de Santa Rita”, sem dúvida alguma, o principal ator e autor de memoráveis e hilárias façanhas. Para muitos, era a própria encarnação do “arteiro” Pedro Malazartes, botando fogo na velha e efervescente Fernandópolis dos anos sessenta, onde reinava absoluto e sempre aprontava das suas, deixando muita gente de cabelo em pé, principalmente nos dias de carnavais. Que o digam as autoridades da época e o próprio Jaime Guedes, o famoso e eterno porteiro do FEC.


Aliás, as autoridades à que me refiro, na minha época, eram o delegado Dr. DivinoDomiciano, o Sargento Campos, o Oficial do Juizado de Menores, Tonicão e os então soldados da antiga Força Pública, Zantei, Tiãozinho Cabrioti, Molina e o cabo Nascimento. Obviamente, eles sabiam quem era quem. Conheciam muito bem o “modus operandi” de cada um dos elementos, os conhecidos arteiros, penetras calejados e agitadores do pedaço. Não passavam de uns vinte, mas faziam uma fuzarca do arco-da-velha. Claro, não vou dar nomes aos bois, até porque muitos amadureceram, outros se regeneraram e hoje são respeitáveis senhores de cabelos brancos ou reluzentes calvas. Algumas passagens que presenciei, do ilustre Cabureto e seus parceiros, com toda certeza vou levar comigo para o túmulo, porque são casos e causos impublicáveis.


Mas, fora o FEC, que era frequentado pela nata da sociedade, havia também o carnaval popular, que acabou ficando conhecido pelo sugestivo nome de “Panela de Pressão” e mais tarde, como “Risca Faca”. O dito carnaval popular ganhou esses curiosos apelidos por algumas razões óbvias. Primeiro porque entupia de gente, que se espremia na antiga quadra central, (onde aconteciam memoráveis noitadas do tempo em que o basquete era conhecido como Bola ao Cesto), ali na esquina da Amadeu Bizelli, com a rua Rio de Janeiro, onde hoje funciona a segunda agência do Banco do Brasil. E depois, virou ”Risca Faca”, porque toda noite o tempo fechava, sempre tinha um pé-de-briga, uma confusão.


E talvez por isso mesmo, e também devido sua proximidade com o FEC, o carnaval popular acabou sendo mudado de lugar, indo pararno grande salão da antiga Cafeeira Rolim, na avenida Amadeu Bizelli, na esquina com a Rua Paraná. Por outro lado, enquanto no FEC o pessoal se aquecia tomando cuba-libre, hi-fi e os mais elegantes, belas e generosas doses de uísque do bom, na “Panela de Pressão”, o povão enchia o latão com o famoso “Fogo Paulista”, misturado com algumas doses de caninha ”Tatuzinho e Arara”, que sempre deixavam os foliões mais acesos e desinibidos, uns mais valentões e marrudos, outros mais alegrinhos e altinhos, todos, uns três coqueirinhos prá lá de Bagdá.


Num desses carnavais, no começo dos anos setenta, o saudoso Carbureto estava impossível. Ao lado de um lambe-lambe, aquele típico retratista antigo, incendiou a região central da cidade, desfilando com uma vistosa combinação de seda dourada, rodando uma bolsinha também dourada, uma peruca loira coberta de purpurina, rosto cheio de rouge e baton e com o “caco” cheio de água que passarinho não bebe. Uma figura!


E lá ia ele ziguezagueando, sassaricando e abrindo alas, sambando aos trancos e barrancos, heroicamente tentando se equilibrar em saltos altos. A cada dez metros de caminhada, uma parada providencial cheia de pompa e glamour, mandando beijinhos para a multidão, umacaprichada pose sensual para a foto da gloriosa “dama de dourado”.Após a explosão do flash do lambe-lambe, lá ia de novo o Bureto carregando atrás de si, a animada turma do funil. O que era visto como um escândalo para certos puritanos da época, para a moçada era o combustível que faltava, a lenha na fogueira para animar o carnaval e incendiar a cidade. E o velho Bureto de guerra, não estava nem aí com a paçoca. Água de morro abaixo, fogo de morro acima, para ele era tudo igual, tudo a mesma coisa, tudo era festa, tudo era Carnaval! Bons tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.