Mariangela Ange

O medo da cura

O medo da cura

Mariangela Angeluci Siqueira - Psicóloga Clínica, Palestrante, Coach Vocacional e Terapeuta Reikiana

Mariangela Angeluci Siqueira - Psicóloga Clínica, Palestrante, Coach Vocacional e Terapeuta Reikiana

Publicada há 7 anos

Algumas pessoas tem uma calma, uma serenidade e paciência inquietantes para aqueles que são ansiosos, dispersos, inquietos e impacientes. Normalmente, quando olhamos para essas pessoas pacíficas, temos a sensação de que elas não sofrem nada, não se irritam com nada, nunca perdem o controle de nada e estão sempre felizes e conquistando o que desejam. Não é mesmo?


É evidente que, neste momento, já despertamos um sentimento horrível em nós – o qual é inerente a qualquer ser humano – a inveja. A inveja nos coloca num patamar de menos favorecidosjustamente porque, aprendemos que o sofrimento é algo ruimA inveja é aquela sensação de que, “o outro tem e eu não tenho”. Além disso, ela nos tira a sensação de que somos capazes de ter aquilo também. É sempre mais fácil nos sentirmos vítimas do que nos sentirmos capazes e responsáveis por conquistarmos o que desejamos.


Desejar alcançar coisas boas para nós que, na maior parte das vezes, é um desejo que provém do que vemos ao nosso redor, é um comportamento indispensável para a nossa evolução. Desse desejo surge outro sentimento que costumamos evitar ou achar muito ruim de sentir: a angústia. Nós, humanos, saibamos, em vários momentos de nossa existência, sentiremos angustia. Mas, para que serve a angustia, afinal? Para nos instigar a crescer. Sem a angustia, ficaríamos conformados com tudo e não sairíamos do lugar.


Ali em cima, acabei falando mal da pobre da inveja, mas, vou retificar minha abordagem. A inveja também é um sentimento que instiga o crescimento e evolução, obviamente quando utilizado para tal. Desejar o que o outro tem pode ser combustível para você se mover em direção aquilo.


Conforme vamos nos tornando adultos, o mundo atual, a forma como estamos lidando com nossas emoções, é possível perceber que, constantemente, temos tentado evitar a dor, o sofrimento, a tristeza, enfim, todos estes sentimentos que conotamos como “ruins”. Todos estes sentimentos, no entanto, são sentimentos que nos carregam para dentro de nós mesmos, nos fazendo refletir a respeito do que sentimos a partir do que o mundo nos provoca e principalmente, refletirmos a respeito do que nós mesmos estamos enviando para o mundo.


Quando dói é porque algo precisa ser percebido ali, é porque naquele lugar tem algum problema a ser trabalhado. Geralmente, evitamos a dor e soterramos nossos problemas e isso faz com que eles se tornem cada vez maiores e mais poderosos, a ponto de serem capazes de nos dominar sem nem que saibamos disso. Dizem que a febre é um aviso do corpo de que algo está errado. O sofrimento e a angustia são exatamente a mesma coisa.


Sempre que o sofrimento vem, junto a ele vem um medo e isso nos afasta da cura, pois a cura está em tornar consciente aquilo que é inconsciente. A cura está em enfrentar nossas sombras, enfrentar aquilo que mais nos assusta e assumir o quanto somos frágeis diante de nós mesmos. E, paradoxalmente, isso nos fará muito mais fortes. Não pensar sobre nossos medos, fragilidades, ansiedades, etc. só nos afasta do que tanto buscamos. Nos afasta do alívio da liberdade. Nos afasta da cura.

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