Algumas mulheres brasileiras são verdadeiras heroínas, pois, com seu trabalho e dedicação, promoveram benefícios inestimáveis às pessoas, sobretudo as mais pobres e necessitadas.
“Se os homens fecham as janelas, Deus abre uma porta”, assim dizia o anjo chamado Zilda Arns Neumann (irmã do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns), médica pediatra e sanitarista, que propôs o consumo do farelo conhecido como multimistura, que livrou milhares de crianças pobres da desnutrição. Zilda também foi uma das fundadoras da Pastoral da Criança, que é um organismo de ação social ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), e atende crianças pobres, sem distinção de crença, classe social, credo ou etnia. O trabalho social desta organização é reconhecido mundialmente, tanto que teve cinco indicações ao Prêmio Nobel da Paz (2001, 2002, 2003, 2005 e 2011). Zilda Arns morreu em janeiro de 2010 no Haiti, vítima do terremoto que devastou aquele país, fazendo o que mais gostava – prestando serviços voluntários às comunidades carentes.
“Doar a vida pelo outro é um ato sublime”, frase de Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes, mais conhecida como “Irmã Dulce”, ou pelo apelido “o anjo bom da Bahia”. Notória pela sua disposição em ajudar os mais necessitados, sua vida é um exemplo de abnegação, bondade e trabalho voluntário em prol dos pobres e doentes. Foi responsável por várias obras de caridade, no entanto, o coração das obras sociais de Irmã Dulce é o hospital Santo Antônio, em Salvador (capital da Bahia), cuja criação data de 1949, quando “o anjo bom da Bahia” improvisa um abrigo para 70 doentes resgatados das ruas da capital baiana. Em 1960 inaugura, no local, o albergue Santo Antônio - centro que deu lugar ao complexo hospitalar duas décadas depois. Atualmente, o hospital é considerado uma das maiores unidades de saúde da região Nordeste do país e uma das mais bem equipadas da Bahia, com mais de cinco mil pessoas atendidas diariamente. Seu trabalho social foi reconhecido, e, em 1988, foi indicada pelo então presidente da república, José Sarney, ao Prêmio Nobel da Paz, com apoio da rainha Silvia, da Suécia. Em 2011 foi beatificada pelo papa Bento XVI. Atualmente está em curso um processo de canonização de Irmã Dulce. Seu falecimento, de causas naturais, ocorreu no dia 13 de março de 1992.
“Sobrevivi... Posso contar”, frase atribuída a Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica brasileira, que sofreu sérias agressões domésticas de seu marido. Em 1983, seu marido tentou matá-la duas vezes. Na primeira vez atirou nela e, para se eximir da culpa, tentou simular um assalto. Na segunda vez, seu agressor tentou eletrocutá-la. Por causa destas agressões, Maria da Penha ficou paraplégica. Esta brasileira lutou muito para que seu marido agressor respondesse à justiça pelos seus crimes e, 19 anos depois, ele foi condenado a oito anos de prisão. Por meio de recursos jurídicos, ficou preso por apenas dois anos e foi solto no ano de 2004.
O episódio foi levado à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Sua trágica história e exemplo de luta inspiraram a elaboração da famosa Lei “Maria da Penha” (Lei 11.304/06), que visa aumentar o rigor das punições sobre os crimes domésticos, sobretudo contra mulheres, e foi sancionada em 07 de agosto de 2006 pelo ex-presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva.
“Desejamos que a vacina diminua a mortalidade infantil, principalmente na África, onde a malária mata muitas crianças de até cinco anos”, disse Ruth Nussenzweig, à revista SUPERINTERESSANTE (publicada pela editora Abril) deste mês de outubro de 2016. Ruth é brasileira naturalizada, nascida em Viena, na Áustria, fugiu do nazismo em 1939 com os pais, chegou ao Brasil no mesmo ano e cursou Medicina na USP. O seu feito? Juntamente com seu marido, Victor Nussenzweig, desenvolveu a vacina contra a forma mais letal da malária – a febre terçã maligna, causada pelo parasita Plasmodium falciparum, que ceifa milhares de vidas todos os anos. Quando iniciou suas pesquisas, que resultou neste feito extraordinário, há quase 50 anos, a malária matava mais de 1 milhão de pessoas por ano, e era a principal causa de morte em todo o continente africano, e também fazia vítimas no sul dos EUA e na Europa. Atualmente, esta doença ainda mata cerca de 440 mil pessoas em todo mundo, todos os anos – é quase a população de uma cidade como São José do Rio Preto morrendo, anualmente, vítima da malária. Segundo a pesquisadora Ruth, a malária causada
pelo Plasmodium falciparum está quase resolvida, pois através desta vacina já se obtém 90% de proteção em adultos.
A pesquisa espetacular desta brasileira é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), desenvolvida pelo laboratório GSK e patrocinada pela Fundação Bill & Melinda Gates, em parceria com a própria OMS e a Iniciativa para a Vacina da Malária (MVI), da ONG americana PATH. O resultado desta pesquisa, que culminou na vacina contra a forma mais letal da malária, já rendeu a Ruth e seu parceiro de pesquisa, seu marido Victor, vários prêmios internacionais, e pode levar à dupla de brasileiros a ser laureada com um Nobel de Medicina nos próximos anos, de acordo com os rumores no meio acadêmico internacional, já que desde 1901, três pesquisas sobre malária foram agraciadas com o Nobel - considerado o mais importante prêmio científico do mundo. É sempre oportuno destacar que nosso país ainda não possui nenhum prêmio Nobel.
Por fim, a dedicação de Zilda Arns, a abnegação e o trabalho voluntário de Irmã Dulce, a coragem e a força de Maria da Penha e a competência acadêmica a serviço da humanidade de Ruth Nussenzweig também estão presentes em milhares de brasileiras anônimas, que dessa forma, contribuem com a construção de uma sociedade mais justa e humanitária. Estas brasileiras anônimas também são nossas heroínas.