José Renato Se

O Eterno Retorno

O Eterno Retorno

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Publicada há 9 anos

Ao final da noite de vinte e um de Outubro para o início da manhã do dia sequente estava na estrada. Destino: São Paulo.


Novamente realizei uma atividade, feita pela primeira vez no ano passado: fui com graduandos dos cursos de licenciatura da UNIJALES para a capital. O objetivo era um passeio com propósitos intelectuais, educativos, pedagógicos e, óbvio, lazer.

O ônibus fretado pelos estudantes – o qual tinha como um dos motoristas o querido graduado em História, Davi -, deixou Jales ao final das aulas de sexta-feira e foi até Fernandópolis, onde me encontrou. De lá fomos a São Paulo.


Chegamos ao nascer do dia. Primeira parada: Mercado Municipal. Além de ser um dos poucos locais públicos em funcionamento naquele horário, a visita vale muito em face da oportunidade de verificar sua bela arquitetura neoclássica e seus encantadores vitrais, bem como, a chance de constatar em loco as iguarias à venda e poder degustá-las, desde que se submeta a arcar com preços abusivos, fruto da elitização do local. Aliás, característica triste dessa cidade e desse país.


Depois de cerca de duas horas, deixamos o local rumo ao centro velho da cidade. Próxima parada: Pátio do Colégio. Visitamos o lugar, seu sincero museu. Rico em história e memória. Partimos em direção a Catedral da Sé. Monumento histórico e memorialístico de São Paulo. Não apenas pela história colonial, sobretudo pela contemporânea, na medida em que abrigou muitas vezes aqueles que ousaram enfrentar a ditadura. Acrescente-se ao fato que sua entrada foi palco do inesquecível comício pelas “Diretas-Já” em 25/01/84.


Visitamos o Mosteiro de São Bento. Os dois templos religiosos são ícones de nossa história colonial. Ricos arquitetônica e espiritualmente, produzem uma atmosfera que é uma simbiose de momentos de reflexão, introspecção e êxtase metafísicos.

De metrô fomos para a Pinacoteca do Estado. Passeamos por todo o lindo prédio. Construção também neoclássica abriga importante acervo pictórico brasileiro e mundial. Por exemplo: estão no ambiente as obras do grande artista Almeida Junior. Artistas pré-modernistas e modernistas, além de contemporâneos.


Para muitos estudantes foi a primeira vez que estiveram diante dessa beleza. A primeira experiência estética, literalmente.


Proporcionar, direta e indiretamente esse momento, vivê-lo, já basta. “A viagem já estava ganha”.


Permanecemos por cerca de duas horas no local. Finda a visita, enriquecida por passeio no Jardim da Luz, tomamos o metrô em direção a Avenida Paulista. Mito de São Paulo, por representar modernização arquitetônica, poder, riqueza e ser palco de importantes eventos de manifestações políticas, esportivas e culturais, a fora o fato de no início do século passado abrigar a elite cafeeira do Brasil, seus já destruídos (CRIME!) casarões, é indubitável sua relevância.


Pausa para uma refeição. Todos se dividiram na “praça de alimentação” de mais um famigerado shopping.


Reagrupamos-nos. Agora o destino era o MASP. Maior museu da América Latina, atrativo turístico dos mais importantes desse país. Fomos caminhando.


Ao chegarmos, verificamos o preço do ingresso: meia entrada quinze reais. Abusivo, a meu ver, não pela sua significação, todavia pela condição socioeconômica da maioria dos brasileiros. Mais uma insuportável elitização e consequente exclusão. Com recursos evadidos, a maioria dos graduandos constatou-se impossibilitada de visitá-lo por dentro.


Resumimo-nos a apreciar seu exterior. Grande trabalho da arquiteta Lina Bo Bardi.

Fiquei frustrado. É verdade. Queria entrar. No entanto, se alguns não podem ou preferem não realizá-lo, por eleger outras prioridades... Paciência.


Metrô novamente. Destino: Estação República. Rápida visita à Praça do mesmo nome. Parada na esquina das Avenidas São João e Ipiranga. Local? Bar Brahma.

Seria criminoso se não o fizéssemos.


Imortalizada esquina na bela obra “Sampa” de Caetano Veloso, o bar é um monumento importante de nossa história contemporânea. Relevância estética e cultural. Porém, o melhor é o divino néctar servido aos clientes, a um preço grande, óbvio. No entanto, não se trata de um gasto, mas de investimento. Pensando na acumulação, tomei dez.


Passava das dezessete horas e meia quando embarcamos novamente para o Noroeste paulista.


Extenuados, todavia, felizes.


Valeu! Foi, a um só tempo, divertido, educativo, cansativo, e, provocativo, na medida em que produziu algo muito importante: a centelha do desejo de voltar, de sempre aprender, de sofisticar olhares, de sensibilizar-se e encantar-se com aquilo que é verdadeiramente belo. Viver momentos que serão guardados na mente e no coração por toda a vida.


Para o professor, os mesmos sentimentos e aprendizados, evidentemente, e, a convicção do trabalho humanístico e humanizado. A vivência da amorosidade ensinada por Paulo Freire, no sentido de que um passeio possuiu um ritual, uma convivência para além dos bancos acadêmicos. Esses instantes se transformam em magia, em combustível para o recomeço do cotidiano e sua continuidade. Contudo, melhor, mais rico, afetiva e intelectualmente. Modifica corações e mentes. Transforma o intelecto. Vivencia-se a Estética.


Orgulho-me de lecionar na UNIJALES, me orgulho dos graduandos que participaram. O orgulho de pertencimento à instituição, dentre outras razões, se deve ao fato dessa acreditar, como eu, no significado da formação humanística, da ideia de que educação não se resume a transmissão de informação e conhecimento. É para além das salas de aula. Conhecimento deve, cognitiva e eticamente, redundar em vida.


Tenho certeza, foi o que fizemos e continuaremos a fazê-lo. O retorno foi caracterizado por conversas cujo teor era organizar o próximo passeio à capital, a fim de visitarmos outros atrativos (O MASP!) e rever alguns.

Penso nisso. Farei.


O pensamento já me provoca sede.

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