Após verificação da prova que meus filhos prestaram sábado (ENEM), especificamente àquela que versava acerca de Ciências Humanas, constatei a grande quantidade de questões cujo teor era direta e indiretamente rico na temática filosófica. Questões sobre filósofos e filosofias e ainda algumas que traziam consigo a imanência do tema. Na segunda-feira muitos estudantes comentavam a importância do ensino e estudo da Filosofia, em face da dificuldade encontrada por eles nas resoluções da prova do final de semana.
Terça-feira à noite, por volta das dezenove e trinta, acompanhei minha mulher, Jacqueline, num congresso realizado na UNIFEV. Juntamente com uma estagiária da COOPERE apresentariam um trabalho orientado por ela e pelo professor de química. Segui atentamente a exposição. O objetivo do mesmo era desvelar uma proposta de envolvimento de estudantes de séries iniciais e ensino médio, de tal modo que, mediante orientação dos professores, os estudantes mais jovens inciar-se-iam ao campo das pesquisas, experimentações científicas, em particular da química, pelas mãos dos estudantes secundários. Quer dizer, a chama do encantamento trazida pelos próprios educandos. Além disso, trazer para o palpável, para o “concreto” abstrações próprias das ciências. Todavia, o objetivo maior: promover a reflexão, a emancipação na busca do conhecimento. Ir muito além da informação.
Não comentei ainda com a Jacqueline aquilo que me pus a pensar: recordei do texto de Kant, traduzido quer dizer: “O que é o Iluminismo?”. A razão disso reside no fato de perceber a inserção da Filosofia, do Humanismo em meio à seara científica.
Quarta-feira houve um evento na E.E.Joaquim Antonio Pereira com o propósito de apresentar uma reflexão crítica acerca da “imposta” do governo federal: a nefasta reforma do Ensino Médio.
Há pouco discorri sobre o tema (a propósito a coluna nomina-se “A Volta dos Que Não Foram”). No entanto, permito-me retornar, em face de manter-se na ordem do dia.
Li na coluna da jornalista Monica Bergamo, da Folha de São Paulo, que o “governo está satisfeito com uma pesquisa que aponta setenta por cento de aprovação das tais reformas”.
Os estudantes comentaram a existência de propaganda televisiva sobre a mesma. Mostrando-a como maravilhosa.
No site UOL tive acesso a um pronunciamento do presidente (?). O mesmo se dizia feliz, na medida em que há debate (?) sobre o tema.
Insisto: a prática do governo golpista assemelha-se ao nazismo: jogar com a ignorância, a desinformação.
Não há debate. Não há esclarecimento. Não há propostas transparentes.
Apenas uma névoa cinza, cujo objetivo é a privatização do ensino.
Querer melhorar sem apresentar soluções reais e concretas para o problema é falácia.
Por que penso e digo tudo isso? Consigo entender entre as palavras. Qual o instrumento que me permite desenvolver tal habilidade? A Filosofia.
É ela a responsável pela capacidade do humano antever; ler entre duas palavras; entender discursos propositalmente vazios e lacunares. Capacita-nos a desmontar discursos ideológicos.
Karl Jaspers, psiquiatra e filósofo, nos fala sobre o tema no texto “A Filosofia no Mundo”, no sentido de demonstrar o quanto esse saber é dispensável pela elite.
Então: qual a razão de mantê-la como disciplina obrigatória?
Obrigatória torna-se a luta dos diretamente interessados, a saber: estudantes. Isso se fizerem questão de continuar a usar o cérebro para além do medíocre e óbvio. Para se enterrarem até “as lamas da humanidade”!