Carlos Eduardo

A maior praga da natureza tem nome e se chama ser humano

A maior praga da natureza tem nome e se chama ser humano

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 9 anos

Há 65,5 milhões de anos um gigantesco meteoro com 10 quilômetros de diâmetro atingiu, em cheio, o que hoje é o Golfo do México, na península de Yucatán, na América do Norte, liberando uma energia equivalente a dezenas de milhares de bombas atômicas. O impacto foi sentido a mais de 300 quilômetros de distância e provocou tsunamis por toda a região.


Praticamente todos os animais terrestres com mais de cinco quilos desapareceram da face da Terra, dentre eles os famosos dinossauros e muitos outros répteis terrestres e marinhos - ocorreu então o que os paleontólogos (cientistas que estudam a vida pré-histórica) chamam de extinção em massa. Este evento catastrófico, segundo estimativas, dizimou 75% da vida no planeta.


Este é o mais famoso episódio de extinção em massa da vida na história da Terra, talvez por ter levado os dinossauros à extinção, cuja figura faz muito sucesso, especialmente entre a criançada. No entanto, houve pelo menos mais quatro eventos como esse, nos quais uma expressiva porcentagem da vida foi rapidamente dizimada, alguns até mais abrangentes e catastróficos do que este que levou os dinossauros a desaparecerem, como o que ocorreu há 250 milhões de anos, que exterminou 90% das espécies marinhas e 70% das espécies terrestres.

Todos estes cinco eventos de extinção em massa tiveram causas naturais, sendo que a queda de gigantescos meteoros, vulcanismos generalizados e mudanças climáticas estão entre as mais frequentes, no entanto, outra extinção em massa da vida no planeta está ocorrendo, atualmente, bem diante dos nossos olhos, só que desta vez a causa não é natural, mas sim, creditada pela primeira vez, à ação de uma espécie em particular – o ser humano.


Esta tese é sustentada por um estudo publicado na revista científica internacional Science Advances, no dia 19 de junho de 2015, que preconiza que está ocorrendo, atualmente, um processo de extinção em massa, e o culpado não poderia ser outro senão o ser humano. Os autores do trabalho dizem o seguinte: em uma taxa normal de extinção (as espécies um dia se extinguem, mesmo sem episódios de extinção em massa, assim como ocorre o surgimento de outras) era esperado o desaparecimento, por causas naturais, de apenas uma espécie de réptil no último século. Porém, nestes últimos cem anos 24 espécies foram extintas. O esperado era o desaparecimento de duas espécies de aves nos últimos cem anos, no entanto, os pesquisadores identificaram a extinção de 80. De mamíferos deveriam ter desaparecido, por causas naturais no último século, apenas uma espécie, mas 69 espécies foram dizimadas neste período. No estudo, os anfíbios (sapos, rãs, pererecas, cobras cegas e salamandras) apresentaram o pior cenário, pois era esperado o desaparecimento de não mais do que uma espécie, mas infelizmente, 146 foram extintas neste último século. Os pesquisadores concluíram que, em uma taxa normal de extinção, este número considerável de espécies, que foram extintas pela ação do homem em apenas 100 anos, levariam mais de 10 mil anos para ser extintas por causas naturais.


Por essa e outras, o ser humano é considerado a maior praga da natureza de todos os tempos, e não é de agora que seu poder devastador sobre o meio ambiente se fez sentir. Pesquisas científicas indicam que o homem pré-histórico também levou à extinção diversos animais, conforme explorava novos continentes. Um exemplo clássico é a chegada do ser humano às Américas entre 12.000 e 9.000 anos a.C (antes de Cristo), proveniente da Ásia (isso mesmo, os ancestrais dos nossos índios vieram da Ásia). Apenas dois mil anos após o ser humano pisar pela primeira vez nas Américas, estimativas atuais revelam que a América do Norte perdeu 34 de seus 47 gêneros de grandes mamíferos. A América do Sul perdeu 50 de 60. 


Desapareceram rapidamente, devido à ação predatória do homem, animais magníficos que viveram aqui nas Américas durante milhões de anos, como o famoso tigre-dente-de-sabre, leões americanos (isso mesmo, existiam leões por aqui), cavalos (estes foram extintos pelo ser humano naquela época, e, depois, reintroduzidos nas Américas pelos espanhóis durante a colonização deste continente), camelos nativos, roedores gigantes, tatus do tamanho de fuscas, mamutes e mastodontes (estes dois últimos eram parentes dos atuais elefantes), preguiças - gigantes de 6 metros de altura (figura 1), dentre outros. Há também fortes indícios que a nossa espécie – Homo sapiens - levou à extinção até mesmo outras espécies de humanos, como o Homem de Neandertal, extinto há 30 mil anos na Europa, que, caso ainda estivesse entre nós, seria o nosso parente mais próximo, até mais que os atuais chimpanzés.



Figura 1: Concepção artística de uma preguiça-gigante que viveu na América do Sul até, aproximadamente, 11 mil anos atrás. Esta imagem, do renomado paleoartista Rodolfo Nogueira, virou selo dos nossos correios e foi laureada com o prêmio de melhor selo brasileiro do ano de 2014.



Atualmente, a destruição dos habitats é a principal causa mundial de extinção das espécies. No Brasil, em 2010, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que foi desmatada quase 15% da cobertura original da Floresta Amazônica; já da Mata Atlântica, um dos nossos mais importantes biomas, resta apenas 12% de sua cobertura quando os portugueses aqui chegaram em 1500. O Cerrado também sofre com o desmatamento, e, em 2010, já tinha perdido metade de sua cobertura florestal.


Já que estamos falando de problemas ambientais, não poderíamos deixar de mencionar um dos mais importantes da atualidade – o aquecimento global (que também levará a extinção diversas espécies). A queima de combustíveis fósseis (óleo diesel, gasolina, carvão mineral), as queimadas das florestas e até mesmo a criação de gado bovino (os animais lançam no ambiente gás metano, proveniente da digestão do capim em seu estômago) são as principais fontes de lançamento de toneladas de gases estufa na atmosfera, como gás carbônico e metano, que promovem o aquecimento global. Se este cenário não for revertido, segundo o IPCC (Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas) – um órgão ligado à ONU (Organização das Nações Unidas) e que divulga, periodicamente, relatórios sobre este sério problema ambiental – as consequências para o planeta serão catastróficas, pois os extremos climáticos (que já estão ocorrendo devido ao aquecimento global) serão cada vez mais frequentes, afetando a produção agrícola de vários países, dentre outras graves consequências, como o derretimento das calotas polares que levará ao aumento do nível dos oceanos, o que provocará, por sua vez, a inundação de cidades litorâneas em todo planeta, além da ocorrência de ciclones extratropicais e outras catástrofes naturais.


Portanto, o homem deveria aprender, de forma definitiva, a respeitar a natureza e adotar uma postura sustentável, harmonizando qualidade de vida e meio ambiente equilibrado, além de conscientizar-se de que todas as espécies de seres vivos têm o direito de compartilhar, conosco, essa casa comum chamada planeta Terra. Ou fazemos isso, ou justificamos a nossa fama de maior praga da natureza de todos os tempos.

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