Carlos Eduardo

Quer perder tempo de vida? Seja um consumista inveterado

Quer perder tempo de vida? Seja um consumista inveterado

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 9 anos

Inventamos uma montanha de consumo supérfluo. Compra-se, descarta-se, mas o que se gasta é tempo de vida, pois quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com tempo de vida que teremos que gastar para obter este dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade” (Pepe Mujica, agricultor e ex-presidente do Uruguai).


Brilhante análise sobre o consumismo de Pepe Mujica, o respeitado e admirado ex-presidente do nosso país vizinho, o Uruguai. Antes de abordar o consumismo, é oportuno diferenciá-lo de consumo consciente. Consumo consciente é o ato de adquirir o que se tem necessidade, aquilo que atende as demandas básicas do dia a dia ou de uma determinada situação. Consumismo é o ato de comprar aquilo que não se tem necessidade, o supérfluo, e quando isso vira um ato incontrolável, pode se tornar um tormento para o consumista inveterado e para sua família.

Precisamos de um veículo, mas será que necessitamos daquele modelo que nos custará “os olhos da cara”? Daquele que nos obrigará a arcar com intermináveis parcelas que impactarão em nossos orçamentos mensais? Precisamos de um celular - a vida moderna impõe esta necessidade à maioria das pessoas - mas será que necessitamos daquela marca ou modelo cujo preço a pagar comprometerá o nosso planejamento financeiro mensal? É óbvio que precisamos adquirir, periodicamente, roupas e sapatos, mas será que necessitamos comprar aquela marca de tênis cujo preço quase se iguala ao do salário mínimo brasileiro? E se você resolver comprar este tênis, não ficará com peso na consciência em saber que 60% da população brasileira, no ano de 2010, segundo o IBGE, ganha um salário mínimo? Pois bem, atire a primeira pedra quem não conhece algum amigo ou parente que compra por impulso, ou seja, que é consumista inveterado? Ou melhor, o leitor se identificou com algumas das situações apresentadas acima?

As causas deste problema são complexas, mas os especialistas são quase unânimes em elencar um fator, dentre vários – a eficiência da propaganda moderna. Em quase todo lugar você se depara com propagandas bem elaboradas, que retratam imagens de pessoas felizes ao adquirir o produto ou serviço anunciado (tem até uma frase símbolo para isso – “sonho de consumo”), como se a nossa felicidade e os nossos sonhos estivessem vinculados à aquisição do objeto ou serviço destacado naquela sedutora propaganda.


Em um primeiro momento, a aquisição daquele “sonho de consumo” pode nos trazer satisfação e felicidade, mas logo estas se tornam momentâneas e desaparecem, daí nos vimos novamente desejando outro “sonho de consumo”, e, sem perceber, caímos lentamente em um poço de dívidas. Vamos fazer uma analogia desta situação com a lenda da sereia, ou melhor, vamos valorizar o nosso folclore brasileiro, comparando com a lenda da Iara, a mãe d’água, que seduzia os homens com sua linda voz e beleza, mas depois, os arrastava para as profundezas do rio. Neste caso, a linda voz e beleza da nossa sereia brasileira são as propagandas sedutoras; a Iara, a mãe d’água são os nossos sonhos de consumo; e as profundezas do rio são as dívidas acumuladas na aquisição dos nossos incontáveis “sonhos de consumo”.


É claro que precisamos consumir produtos e serviços, mas a aquisição destes, especialmente dos mais caros, deve ser planejada e moldada ao nosso orçamento doméstico, pois a saúde financeira também é importante em nossa vida.

Por fim, leve em consideração o tempo de vida que perderá tendo que trabalhar dobrado a fim de ganhar o dinheiro necessário para saldar suas dívidas contraídas sem planejamento, por conta de um consumismo desenfreado. Lembre-se o que disse o sábio e carismático Pepe Mujica – “tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta”.


Portanto! Quer perder tempo de vida? Seja um consumista inveterado.

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