O bater de panelas dos últimos tempos não é mais ouvido nem nas grandes avenidas ou nas varandas “gourmet” país afora. O mote era o fim da era corrupta do vermelho petista.
Do grande circo de abril até o final do mês de agosto, Câmara dos Deputados e Senado aprovaram o impeachment. As eleições municipais consolidaram o orquestrado movimento para “passar o Brasil a limpo”. Será?
A Lava Jato alardeou delações, vazou informações, prendeu alguns – e também o Cunha –, estendeu seus tentáculos para além do vermelho e de Brasília com a operação Calicute e o propinoduto de Sérgio Cabral no Rio de Janeiro.
Intencionalmente, a imprensa só noticiou as ocupações das universidades públicas federais para colocar a opinião pública contra os estudantes amotinados que prejudicariam o ENEM.
Os fatos que elenquei tem uma intenção muito clara: propor a reflexão acerca da banalidade do mal e da política e suas responsabilidades.
A Filosofia do século XX pode nos brindar com o pensamento lúcido, ousado e crítico de Hannah Arendt que com seus relatos de “uma realidade toda corrompida pela banalidade do mal” e suas ocorrências cotidianas tenebrosamente institucionalizadas.
Em sua obra “Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal”, de 1963, ela interpreta o comportamento de Adolf Eichmann, um cidadão que não possuía histórico de violência ou caráter distorcido, burocrata da Gestapo.
No excelente livro “Filosofia Pratica – Ética, Vida Cotidiana, Vida Virtual”, Marcia Tiburi explica a tese de Harendt e a questão da banalidade do mal de forma brilhante:
“Foi em torno do nazista chamado Eichmann que a expressão ‘vazio de pensamento’ surgiu para caracterizar o nosso tempo. (...) Adolf Eichmann era um funcionário do governo, do alto escalão do partido de Hitler ... um de seus funcionários mais dedicados e competentes, daqueles que cumpriam seu papel... No fim da guerra, com a derrota da Alemanha, ele fugiu para a América do Sul, sendo capturado na Argentina em 1961. Julgado em Jerusalém, Eichmann tornou-se uma espécie de troféu da justiça contra o que muitos chamaram de holocausto e que, na verdade, diz mais propriamente respeito a um radical assassinato em massa (...) Arendt, no entanto, preferirá a expressão ‘assassinato administrativo’ para caracterizar o crime nazista... Eichmann era o representante do poder encarnado no tipo comum, na pessoa ordinária. (...) Não se via nele o louco, o sujeito maligno e cruel que se esperava que fosse.. era uma espécie de carrasco de gabinete (...) Até porque, como ele sabia, o que ele fazia, do ponto de vista da lei do Estado naquele momento, não era crime... Ele calculava a morte de todos, é verdade, para que acontecesse do modo mais racional e econômico possível... Para ele, aquele era apenas o trabalho a fazer, a tarefa assumida e por cumprir... Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa e, ao mesmo tempo, tão crítica que relatava à banalidade do mal... A desumanidade de Eichmann era, infelizmente, humaníssima. Eichmann não era extraordinário. Era ordinário, era como quase todos somos, sempre afeitos a seguir a tendência dominante. O problema da subjetividade de Eichmann, que defendia seu emprego e posição dentro da empresa nazista, colocava em cena um tipo de subjetividade muito comum. Aquela de qualquer cidadão que, em seu contexto específico, também defende seu emprego, seu cargo, as necessidades da firma...
Todos os regimes políticos e econômicos que de modo sutil calculam sobre a vida das pessoas, sobretudo as mais excluídas, como em geral os regimes devotos do capitalismo que praticamente programam a morte dos mais fracos, são em medidas diversas comparáveis ao nazismo. (...) O que Arendt percebeu foi aquilo que Adorno e Horkheimer, outros teóricos judeus exilados nos EUA na década de 40, chamaram de ‘racionalidade instrumental’. A ‘racionalidade instrumental’ é servil, ela caracteriza um modo de pensar e agir que Eichmann partilhava com vários cidadãos do mundo que, como ele, queriam apenas ser promovidos dentro de um plano de carreira. O que ele queria era o que queria a grande maioria. E ainda hoje. Curioso, portanto, e estarrecedor, no argumento de Arendt, é que Eichmann fosse tão parecido com as pessoas comuns, que lembrasse os homens mais corretos, os simples cidadãos de bem...” ( p. 35 a 39).
E ai eu questiono, será que vamos ter novamente a multidão a bater de panelas? Seja por conta dos nomes ocultados na Lava Jato pertencentes a outros partidos (mais simpáticos e palatáveis ao sistema), ou do ministro demissionário que alegou não concordar com a pressão exercida por outro ministro de (des)governo para que permitisse a construção de apartamentos de um edifício para mais perto do céu em uma área tombada (e que poderia continuar ministro)? Ou por conta do ajuste que vai prolongar ainda mais o tempo de trabalho da grande massa?
Duvido que o pato da Fiesp vai pra rua novamente.
Quem vai pagar o pato, o mico e o zoológico inteiro somos nós.
O pior de tudo foi o deleite que me provocou ver as cenas protagonizadas pelo tal Garotinho, conduzido por determinação judicial da prisão para o hospital público e depois ter que voltar para a UPA da mesma prisão.
Ainda preciso de muita leitura e reflexão para extirpar o que de Eichmann ainda existe em mim!