Carlos Eduardo

As pessoas da terceira idade merecem todo o nosso respeito

As pessoas da terceira idade merecem todo o nosso respeito

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 9 anos

Dona Benta Encerrabodes de Oliveira é uma senhora viúva, na casa dos sessenta anos, forte, pois, sozinha, administra uma pequena propriedade rural chamada Sítio do Pica - Pau Amarelo, sem depender da ajuda ou interferência masculina. Ela tem o seu lado doce, de avó atenciosa, e, por isso, está sempre disposta a contar histórias aos seus netos - Pedrinho e Narizinho. Além disso, também se mostra uma pessoa culta, pois ao invés de viver somente costurando, bordando ou cozinhando, esta simpática senhora é uma leitora inveterada de livros e jornais, escreve muitas cartas e escuta as últimas notícias do país e do exterior”. Assim é descrita Dona Benta, a famosa personagem fictícia do Sítio do Pica - Pau Amarelo, criada pelo escritor Monteiro Lobato no clássico da literatura infantil chamado “Reinações de Narizinho” – livro publicado em 1931.


Monteiro Lobato (o mestre da literatura infantil) fez questão de quebrar paradigmas criando uma personagem que contrariava o que se esperava de uma senhora, com a idade de Dona Benta, naquela época no Brasil (primeira metade do século passado), destacando o que realmente devemos valorizar em nossos avós – experiência, sabedoria de vida e capacidade de realizar atos, geralmente atribuídos de forma preconceituosa, somente às pessoas mais jovens ou adultas, como por exemplo, a administração, com competência, dos bens e do patrimônio familiar. Em suma, Monteiro Lobato valorizou a figura das mulheres e das pessoas da terceira idade em sua obra.


No Japão, as pessoas da terceira idade são tratadas com extremo respeito, tanto que os japoneses sempre consultam seus anciãos antes de tomar qualquer decisão importante, por reconhecerem seus conselhos como sábios e experientes. Naquele país, o Dia do Respeito ao Idoso (Keiro no hi) é comemorado desde 1947, na terceira segunda-feira do mês de setembro, e foi decretado como feriado nacional em 1966. Ao completar 60 anos, a pessoa recebe dos familiares algum presente com a cor vermelha, considerada uma cor de proteção contra males físicos e espirituais. No Japão não se pergunta a idade a uma mulher jovem, mas os representantes da terceira idade respondem com orgulho que têm 70, 80 anos ou mais. No país do sol nascente, eles são uma referência de ética, moral, experiência e sabedoria para os jovens.


Com relação à qualidade de vida das pessoas com mais de 60 anos de idade, a referência mundial é a Suíça, de acordo com um estudo batizado de Global AgeWatch Index, publicado no ano de 2015, e produzido pela ONG (Organização Não-Governamental) HelpAge International em colaboração com a Universidade de Southhampton, no Reino Unido. Este estudo considerou as condições das pessoas da terceira idade em quatro quesitos - renda, saúde, educação e ambiente favorável (neste quesito são levados em consideração segurança e acesso a transportes públicos, por exemplo). Foram avaliados 96 países, que perfazem 91% da população mundial com mais de 60 anos, o que equivale, de acordo com o estudo, a 901 milhões de pessoas. A Suíça ficou em primeiro lugar, sendo considerado então, o melhor país do mundo para uma pessoa da terceira idade viver. O Brasil ficou em uma posição intermediária, ocupando o 56º lugar.


A cada ano espera-se que esta parcela da população aumente, especialmente nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Estima-se que em 2050, 46 dos 96 países listados no estudo produzido pela ONG HelpAge Internacional, terão mais de 30% das suas populações compostas por pessoas com mais de 60 anos de idade. Neste mesmo ano, 2050, o número de pessoas com esta faixa etária ultrapassará o de jovens com 15 anos de idade. Portanto, os países devem se preparar para proporcionar uma qualidade de vida melhor à população da terceira idade, e, esta preparação, inicia-se em nossas famílias, na atitude de acolhimento e respeito que cada filho ou parente deverão ter com seus pais e avós que já contam com mais de seis décadas de vida. Cabe destacar que no Brasil foi promulgada a Lei n° 10.741, de 1º de outubro de 2003, conhecida como Estatuto do Idoso, que assegura às pessoas com idade igual ou superior a 60 anos, direitos nas áreas da saúde, habitação, esporte, lazer, transportes coletivos, casos de violência e abandono, entidades de assistência aos idosos, previdência social, assistência social, trabalho, dentre outros. São previstas punições a quem violar os direitos assegurados neste Estatuto.


Não podemos nos esquecer de que as pessoas da terceira idade, como nossos avós ou talvez nossos pais, que já ultrapassaram a barreira dos 60 anos, têm muito a nos ensinar – experiência, sabedoria, lições de vida, como as apresentada por Dona Benta na obra do escritor Monteiro Lobato, e também pelos anciãos japoneses na cultura nipônica, o segredo no preparo daquele prato que somente nossas vozinhas e nossas mãezinhas sabem fazer, os segredos de uma profissão, atenção e bons conselhos quando passamos por momentos difíceis em nossas vidas, muita torcida para que superemos nossos desafios, enfim, sempre podemos contar com eles. E eles! Podem contar conosco quando suas pernas perderem as forças? Quando seus reflexos não forem mais os mesmos? Quando a memória começar a falhar?


Pois é, caro leitor! É obrigação de todos ampararem os entes queridos na terceira idade, proporcionando-lhes qualidade de vida (algo que a Suíça mostrou ao mundo), atenção, paciência e respeito, pois quem não respeita os idosos, desrespeita seu próprio futuro, uma vez que todos chegarão à senilidade um dia, a não ser que antes, “passem desta para melhor”.

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