OPINIÃO
Artigo: Pensem na situação deles nessa quaresma, um tempo de reflexão
Artigo: Pensem na situação deles nessa quaresma, um tempo de reflexão
Carlos Eduardo M Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis
Carlos Eduardo M Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Como é bom ouvir o som das gotas de chuva calma no telhado. No entanto, para eles a chuva não possui essa sensação reconfortante.
As intempéries do clima são mais sentidas por eles. Enquanto no frio temos cobertores e agasalhos quentinhos, no calor nos abrigamos em cômodos e quartos refrigerados. Contudo, para eles as temperaturas baixas e as altas judiam de seus corpos sem dó e nem piedade.
Para muitos, o banho quente é um hábito, uma questão de higiene. Sua frequência diária é mais do que cultural, mas uma necessidade nesse país tropical. A propósito! Aprendemos esse costume com os indígenas, pois os primeiros europeus que aqui chegaram não eram muito dados a essa rotina. Mas, voltando ao assunto, para eles, essa prática é um privilégio esporádico.
Para muitos, roupas limpas e cheirosas nem são percebidas. Para eles, as roupas quase não são percebidas também, mas de tão puídas, rotas e enxovalhadas. Vestem o que têm, vestem o que ganham.
Temos camas confortáveis, colchões ortopédicos, travesseiros da “NASA” (pura propaganda) à disposição na hora de dormir. Eles, bancos de cimento, de madeira, no meio da praça. Também marquises, o famoso local “embaixo da ponte”, demais espaços degradantes. E vejam! Quando não são enxotados desses locais por medidas higienistas e absurdas. Nesse último caso, aonde querem que se abriguem? Embaixo da terra? No espaço sideral?
Quando saímos de casa estamos sujeitos a uma miríade de violência – assalto, acidente de trânsito, brigas e toda sorte, ou azar, de problemas que colocam a nossa integridade física ou até mesmo a nossa vida em risco. Para eles, não têm essa de sair de casa, simplesmente porque não possuem casa, pois vivem nas ruas.
Nem precisa dizer, mas essas linhas tratam dos “moradores de rua” (onipresentes nos centros urbanos). Esse termo é tão degradante que, atualmente, “soa” pejorativo e recomenda-se evitar. O correto é “pessoas em situação de rua”, pois ninguém deseja morar nas ruas, encontra-se naquela situação, triste situação, situação de rua.
Consegue imaginar não ter uma casa para morar? Dormir ao relento, não ter a garantia de uma refeição, um banho decente, conviver com a falta de higiene (sem papel higiênico, sem absorventes íntimos, sem desodorante, e por aí vai), não possuir vestes adequadas, levar uma vida longe de ser digna, uma vida perigosa, uma vida que flerta com as drogas, com o álcool, coma prostituição, com o risco maior de contrair doenças, com os perigos diversos.
A Campanha da Fraternidade deste ano de 2026 com o tema “”FRATERNIDADE E MORADIA”, tradicionalmente lançada pela Igreja Católica na quarta-feira de cinzas (início da quaresma), leva-nos a refletir sobre esse grave problema social que é a falta de moradia e, no caso dos nossos irmãos em situação de rua, nesse caso extremo de abandono.
É importante destacar que o artigo 6º da Constituição Federal assegura, dentre outros direitos sociais básicos, a moradia e a assistência aos desamparados. Portanto, moradia é um direito do cidadão e um dever do Estado. Assistência aos desamparados também!
Por isso, além das políticas sociais de acolhimento dessa parcela da população sem teto, é importante que as políticas públicas de incentivo à moradia sejam sempre priorizadas pelos nossos governantes. Temos e tivemos algumas importantes nas duas últimas décadas. Mas ainda é preciso avançar.
Nossos irmãos nas ruas precisam de acolhimento, não de julgamento, como faz o admirável padre Júlio Lancelotti (não poderia deixar de mencionar o seu nome, seria uma injustiça da minha parte).
O país precisa que as políticas públicas de moradia não parem de avançar. Os nossos irmãos nas ruas precisam de ajuda, de acolhimento, não de julgamento. Já tem muita gente fazendo esse trabalho inútil de julgar, de lacrar na internet. Julgar é fácil, acolher é difícil.
Por mais Júlios, por mais Lancelottis!
Pelo avanço das políticas públicas de moradia! Sempre!
E por fim! Aproveitem a quaresma, um tempo de reflexão, e pensem na situação desses nossos irmãos em situação de rua.
Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Prof. Cadu) é biólogo e cirurgião-dentista; mestre em Microbiologia e Doutor em Geologia Regional com ênfase em Paleontologia de Vertebrados; professor EBBT; coordenador de Extensão do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga e Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis
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