OPINIÃO
Artigo: Deus in caelo, Caesar in terra
Artigo: Deus in caelo, Caesar in terra
Pablo Dávalos é Engenheiro de Produção, possui MBA Executivo em Gestão Industrial pela Fundação Getulio Vargas (FGV)
Pablo Dávalos é Engenheiro de Produção, possui MBA Executivo em Gestão Industrial pela Fundação Getulio Vargas (FGV)

Trata-se de uma expressão em latim que significa “Deus no céu, César na terra”. Uma frase forte, que atravessa o tempo e nos convida a refletir sobre os limites entre o poder divino e o poder humano. Podemos fazer inúmeras variações dessa mesma expressão, adaptando-a facilmente ao nosso cotidiano: “Deus no céu, dinheiro na terra” ou “Deus no céu, juízes na terra”, por exemplo.
Frases assim sintetizam uma antiga discussão sobre a relação entre fé e poder. De um lado, a autoridade divina; de outro, o poder político, econômico e institucional exercido pelos homens. Uma relação que, ao longo da história, nem sempre foi marcada pelo respeito aos limites de cada esfera.
Sou cristão e estou acostumado a ouvir, diariamente, expressões como “se Deus quiser” ou “se Deus permitir”. E acredito, verdadeiramente, no poder e na vontade de Deus. Contudo, considero fundamental sabermos separar, com muita clareza, a vontade de Deus da nossa própria vontade. Estamos falando de dimensões diferentes, de valores que nem sempre são compatíveis e de responsabilidades que não podem simplesmente ser confundidas. E é justamente nessa confusão que, a meu ver, cometemos um grande erro. Acreditar que algo acontecerá unicamente pela vontade de Deus, sem considerar nossa participação, nossas escolhas e nossas responsabilidades, é, no mínimo, uma postura questionável do ponto de vista racional. Deus tudo pode. Mas isso não significa que tudo aquilo que desejamos deva acontecer simplesmente porque invocamos Seu nome. E, diante disso, causa-me certa estranheza a facilidade com que atribuímos a Deus acontecimentos relacionados à política, ao poder, à economia e aos interesses humanos. Dizemos “graças a Deus”, “Deus queira” ou “Deus permita” para situações cotidianas, muitas vezes banais, como se essas expressões fossem apenas complementos automáticos de nossas frases, decisões ou acordos. Quantas vezes, ao fechar um negócio, ouvimos alguém dizer:
“Obrigado. Deus te abençoe!” Mas me abençoar por quê?
Porque fechei um bom negócio? Porque obtive alguma vantagem? Ou porque simplesmente fiz aquilo que deveria ser feito, agindo com justiça e correção? Não questiono a sinceridade de quem deseja uma bênção ao próximo. Questiono a banalização de algo que, para mim, possui um significado muito maior.
Deus é mais importante do que os nossos interesses circunstanciais.
Acredito, sim, que Ele está presente em tudo. Em nosso respirar, em nosso agir, na maneira como lidamos com a vida e com as pessoas. Está em nossas lágrimas, em nossos sorrisos, em nossos abraços, em nossos momentos de desespero e também naqueles em que experimentamos a mais profunda paz espiritual.
Mas acredito, igualmente, que Deus nos criou de maneira tão extraordinária, tão complexa, à Sua imagem e semelhança, que nos concedeu a capacidade de pensar, escolher, decidir, realizar e agir. E, sobretudo, de assumir as consequências de cada passo que damos.
Essa capacidade não é pequena. É uma das maiores responsabilidades da condição humana. Por isso, considero difícil imaginar que devamos atribuir diretamente à vontade divina cada decisão que tomamos. Trabalhar ou não trabalhar. Agir corretamente ou escolher o caminho mais conveniente. Demonstrar misericórdia diante do próximo ou permanecer indiferente. Ser justo ou ignorar aquilo que sabemos ser correto. São escolhas que exigem consciência, caráter e responsabilidade.
Podemos buscar em Deus orientação, sabedoria e discernimento. Mas não podemos utilizar Sua vontade como justificativa para nossa omissão, nossos interesses ou nossos erros. Não é razoável transferir a Deus a responsabilidade por decisões que nós mesmos tomamos. Fé não deveria servir de abrigo para a irresponsabilidade humana. Ao contrário, deveria ampliar nossa consciência sobre as consequências de nossos atos. E talvez seja justamente nesse ponto que a antiga expressão volte a fazer sentido.
Deus in caelo, Caesar in terra. Deus no céu, César na terra.
O poder humano possui atribuições, limites e responsabilidades próprias. Governar, administrar, negociar, produzir, julgar e decidir são atividades que exigem conhecimento, prudência e senso de justiça. Não podemos esperar que a intervenção divina substitua aquilo que nos cabe fazer. Isso, evidentemente, não significa afastar Deus de nossas decisões. Significa compreender que buscar Sua sabedoria é diferente de entregar a Ele a responsabilidade por nossas escolhas. Salomão pediu a Deus sabedoria para governar seu povo. Não pediu que Deus governasse em seu lugar. E talvez, essa seja uma das maiores lições dessa história, a sabedoria divina pode orientar nossas decisões, mas somos nós que precisamos tomá-las e responder por elas.
Podemos contar com a ajuda de Deus em nossas vidas. Podemos pedir orientação, discernimento e força diante das dificuldades. Podemos confiar em Sua presença mesmo quando não compreendemos os caminhos que percorremos. Mas não é válido deixar tudo em Suas mãos como justificativa para não fazermos a nossa parte. Temos que fazer nossa parte.
Pablo Dávalos é Engenheiro de Produção, possui MBA Executivo em Gestão Industrial pela Fundação Getulio Vargas (FGV), especialização em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade de São Paulo (USP/ESALQ) e especialização em Planejamento, Programação e Controle da Produção (PPCP), com certificação Black Belt em Six Sigma. Atua como consultor de negócios e empresário no setor do agronegócio, reunindo conhecimentos em engenharia, gestão industrial, melhoria contínua, planejamento estratégico e desenvolvimento empresarial.
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