Como o assunto dominante nesses dias de véspera de Copa do Mundo é o futebol, e não se fala em outra coisa por esses dias, para não fugir do assunto, vamos também falar de futebol, ora bolas, pois, pois. E por falar nisso, quem já tem no lombo mais de cinquenta janeiros, vai se lembrar de algum dia ter jogado futebol, ou ter visto os meninos jogar futebol nas ruas de terra da periferia das cidades com as memoráveis “bolas-de-meias” e até “bexigas” de porcos. Se não sabe o que é isso, pergunte para o vovô e a vovó. E ai eles vão rir muito. E dirão, senta que lá vem história.
Bolas de futebol como conhecemos hoje em dia, como essa oficial da Copa do Mundo, nem sonhar. Naqueles tempos, os meninos jogavam futebol nas ruas ou nos campinhos com as bolas que já falei acima e os que tinham melhor poder aquisitivo, usavam as famosas bolas de “capotão’ de couro, costuradas à mão. Para os mais pequenos haviam as bolas menores, de números um, dois e três. A número um, por exemplo, a menor e mais leve era pouca coisa maior que uma laranja baiana e a número três, mais ou menos do tamanho de uma bola de vôlei. Para os adultos, haviam as bolas número quatro e a número cinco, essa última, a mais pesada, era considerada por todo mundo como a “bola oficial”.
Voltando um pouco, nos famosos jogos de rua, as chamadas peladas, porque todo mundo jogava sem camisas, juntava-se a meninada de toda a vizinhança e os times eram formados na base da escolha, através do famoso par ou ímpar. Quem ganhava na disputa de dedos jogados depois do um, dois, três e dedos postos, escolhia o melhor jogador. Aí o perdedor escolhia em sequencia o segundo melhor, e aí ia a coisa na sequência. E se o número de candidatos ao jogo fosse ímpar, o “perna-de-pau” da rua, ia como compensação para o time aparentemente mais fraco. Ia jogar na ponta esquerda ou só fazer número em campo.
Tudo era muito bem negociado, e acredite, havia ética. Um time jogava de camisas, cada um com a camisa que tinha no corpo e outro jogava sem camisas. Acho que foi daí que surgiu a expressão “pelada”. E o melhor de tudo é que prá começar, o jogo nunca tinha juiz e muito menos bandeirinha. Quando a bola saia prá fora, ou alguém levava uma falta, era bola prá era fora, e falta era falta, E ninguém chiava. Quando era pênalti, a regra a mesma. Lógico, qualquer confusão poderia acabar com a diversão que era jogar bola.
E a havia também outra regra muito especial. Chutar de bico ou dar “bicudo” na bola, era proibido, era pecado mortal, porque acabava deformando a bola, que ficava oval, igual as bolas de futebol americano.
Quando alguém quebrava essa regra, automaticamente era expulso do jogo. Outras vezes, o “dono da bola”, quase sempre um “perneta”, colocava a “gorduchinha” debaixo do braço e pronto: acabava com o jogo. Então, dar “bicudo”, não podia mesmo! Podia ser o fim do jogo.
Embora divertidos, eram tempos difíceis, o dinheiro era pra lá de escasso e todo mundo jogava descalço. Para formar um time da rua ou do bairro e comprar uma bola de capotão, era preciso montar uma verdadeira operação de guerra entre a molecadinha. Os meninos eram criativos e lidavam bem com essas coisas. Eles faziam listas de “sócios” fundadores e colaboradores, promoviam rifas de álbuns de figurinhas, coleções de bolinhas de gude e até preciosas coleções de gibis, entravam no negócio para fazer caixa. Todo mundo participava, cada um do seu jeito, com o que tinha e como podia. E no final tudo sempre dava certo.
Lá pela metade dos anos sessenta, formamos o memorável time da Avenida Doze (hoje Avenida Américo Messias dos Santos). O nosso campinho de futebol, com traves de bambu, bem menor que um desses mini-campos, ficava na Rua Brás Cubas, no Jardim Santista, que ganhou esse nome, penso eu, porque a maioria da vizinhança torcia para o lendário Santos F. C., de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Um belo dia, um dos terrenos do meio da área que formava no nosso campinho, amanheceu fechado com uma cerca de arame farpado, pilhas e pilhas de tijolos e telhas. Era o progresso que chegava ao bairro, acabando com a nossa praça de esporte e ponto de encontro dos meninos da Doze.
O que parecia o fim de um sonho, era na verdade o começo de uma bela história. Do lado de baixo da mesma rua de terra batida, onde naquele tempo não havia água encanada, nem esgoto e muito menos energia elétrica, havia um imenso terreno, que hoje abriga a Praça Dr. Valtrudes Baraldi, também conhecida com Pracinha do Jardim Santista.Naquele tempo, esse espaço era um matagal e tanto, onde a molecadinha se escondia no meio da imensa floresta de mamoneiras, quando brincava de “gringalha” ou de “salva-pegas”. Tempos incríveis aqueles.
Lembro que num final de semana, fizemos uma convocação geral e organizamos um mutirão. E todos apareceram munidos de foices, enxadas, enxadões e rastelos, dispostos à grande tarefa de desbravar aquele imenso terreno. Enquanto uma frente de trabalho cuidava da derrubada da floresta de mamoneiras, outra turma cuidava da retirada dos galhos, seguida de um grupo que capinava, enquanto a última equipe cuidava de rastelar a área.
Era também preciso providenciar as traves e a tarefa ficou para os maiores e mais fortes, que munidos de machado, foram para as matas da vizinhança e derrubaram alguns coqueiros. Naqueles tempos duros, ninguém sabia o que era ecologia, nem tinha a menor idéia sobre preservação do meio ambiente. Aliás, acho que essas palavras nem existiam. Eram tempos inocentes.
Quando tudo parecia pronto para o primeiro jogo inaugural, faltava ainda o toque final. Era preciso marcar as áreas dos gols, as marcas de pênalti e as linhas do campo. E fizemos as marcações com cinza de fogão à lenha. Marcar as linhas do campo com cal virgem, para nós, era artigo de luxo. E até hoje ainda não sei direito, se a saca de cal era muito cara ou se o nosso dinheiro que era muito pouco. Acho que eram as duas coisas juntas.Terminada a grande façanha, chegou o grande dia, o domingo de inauguração do campinho de futebol. Um acontecimento e tanto. Teve até torcida e uns dois ou três foguetes Caramuru, daqueles de três tiros. Impressionante.
Ali foi, por longos e inesquecíveis anos, a nossa principal área de lazer e centro de convivência, onde crescemos juntos e nos tornamos bons e leais amigos. Amizades que se consolidaram e atravessaram décadas. Há histórias e histórias desses tempos. Um dia eu ainda conto como o time da Doze e o time do Ademar Baroni, marcaram um jogo para estrear juntos os uniformes novos. Aliás, era um acontecimento tão importante, que devido a grande rivalidade, a partida foi marcada para ser disputada em campo neutro. Semana que vem tem mais. Até lá.
