Carlos Eduardo

Imigrante: fonte histórica de riqueza cultural e material

Imigrante: fonte histórica de riqueza cultural e material

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor

Publicada há 7 anos


Logo no início do segundo tempo, Griezmann bateu o escanteio na primeira trave, Samuel Umtiti se antecipou ao marcador, cabeceou a bola e a colocou no fundo das redes. Com esse gol, a seleção francesa foi à final da Copa do Mundo de futebol da Rússia de 2018, conquistando-a pela segunda vez.


Samuel Umtiti nasceu na cidade de Yaoundé, na República dos Camarões (África) e se naturalizou francês. Além dele, outros 18 jogadores, dos 23 convocados para disputar o maior torneio de futebol do mundo pela França, são imigrantes ou descendentes de imigrantes. Os “Les Bleus” (Os Azuis, em francês), como é conhecida a seleção de futebol francesa, foram representados por atletas ligados à 17 nações: Espanha, Portugal, Filipinas, Mali, Mauritânia, Senegal, Argélia, Itália, Congo, Haiti, Angola, Guiné, Marrocos, Togo, Martinica (departamento ultramarino insular francês), Guadalupe e, claro, Camarões de Samuel Umtiti. Podemos dizer que a França deve, e muito, aos seus imigrantes essa conquista histórica.


Nesses tempos de intenso deslocamento de refugiados, especialmente de sírios, fugindo de uma sangrenta guerra civil, e de venezuelanos, tentando deixar para trás uma crise sem precedentes, há quem tenha repulsa a imigrantes e, imbuído de um sentimento de xenofobia ou desconhecimento, é contra esse processo que sempre fez parte da história da humanidade – a imigração.


Desde que o homem primitivo, há milhares de anos, deixou a África (local de origem do ser humano) e se espalhou por todos os continentes, exceto Antártida, por diversos, motivos a humanidade foi tentada a buscar novas terras na esperança de melhores condições de vida. Desnecessário tecer comentários em relação ao aumento da riqueza cultural de um país que recebeu várias ondas imigratórias, como o Brasil, por exemplo. No entanto, de acordo com reportagem publicada na revista Superinteressante do mês de outubro de 2018, um mundo sem fronteiras também seria mais rico e mais repleto de oportunidades.


Alexandre Versignassi e Nathan Fernandes iniciam o texto da reportagem em questão ironizando algumas indagações provenientes de um discurso conservador: “Venezuelanos e Bolivianos roubariam nossos empregos”, “a Europa quebraria”, os EUA virariam um México”. Na prática, essas máximas não se sustentam, pois os Estados Unidos não seriam, atualmente, a nação mais rica e poderosa do planeta sem os poloneses, italianos, irlandeses e mexicanos que foram morar na terra do Tio Sam. Um em cada seis trabalhadores ativos nos EUA nasceu fora de suas fronteiras. Desde o ano de 1970, a população de imigrantes cresceu seis vezes mais do que a de nativos estadunidenses. A economia por lá segue bem, com uma taxa de desemprego na casa de 3,9%. No Brasil, a maior obra dos imigrantes chama-se cidade de São Paulo, que responde por 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.


Levando-se em consideração que a imigração aumenta o mercado consumidor de uma localidade, imigrantes não roubam empregos, eles criam empregos. Dados de um recente estudo sobre esse fenômeno (citado na reportagem da revista Superinteressante) realizado pela “National Foundation for American Policy” (NFAP), uma organização não-governamental estadunidense, concluiu que o aumento no número de imigrantes faz crescer a quantidade de postos de trabalho.

Quer conhecer alguns casos recentes de sucesso? Vamos lá. Sergey Mikhaylovich Brin nasceu na antiga União Soviética. Aos 6 anos de idade, mudou-se com sua família para os Estados Unidos. Menos de 20 anos depois, fundou, em conjunto com Larry Page, uma das maiores empresas de serviços “On Line” e “Softwares” do planeta, o Google LLC (que gerencia o site de busca mais famoso do mundo). Outro caso é o do renomado inventor, empresário e magnata da Informática Steve Jobs (morto em 2011). Todos sabem que ele é um dos fundadores da Apple, uma multinacional norte-americana que tem como objetivo projetar produtos eletrônicos de consumo como celulares, computadores, “softwares”, entre outros. Foi a primeira empresa americana a alcançar a espantosa cifra de 1 trilhão de dólares em valor de mercado em 02 de agosto de 2018. Jobs era americano, mas filho de Abdul Fattah Jandali (um cidadão sírio que foi tentar a sorte nos EUA).


        Outra ocorrência interessante é a do físico e vencedor do prêmio Nobel Albert Einstein, detentor de uma das mentes mais brilhantes de todos os tempos e autor da Teoria da Relatividade Geral, que, por ser judeu, refugiou-se nos Estados Unidos, após suas propriedades serem confiscadas pelos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Também tem um caso de refugiado de guerra que migrou para o Brasil e que fez história no empreendedorismo nacional - o empresário Samuel Klein (1923-2014), que escapou da morte em um campo de concentração nazista e fundou uma das maiores redes de lojas de departamento do país – as Casas Bahia.


        Como se sabe, o Brasil deve grande parte de sua cultura e muito de suas riquezas aos que, por algum motivo, saíram de outros países e depositaram aqui suas esperanças em dias melhores. A nossa região, Noroeste do estado de São Paulo, recebeu portugueses, italianos, espanhóis, sírios, libaneses, japoneses, e, mais recentemente, chineses, dentre outros. Observe os sobrenomes de seus amigos e, talvez, o seu, caro leitor e leitora! Provavelmente, muitos revelarão ascendência estrangeira.


        Antes de recorrer ao senso comum para condenar o processo de imigração, lembre-se de que o crescimento de muitas nações foi obtido também pelos braços de quem teve a coragem de partir de sua terra natal para sempre e lutar por uma vida melhor. Por isso, agradeço aos imigrantes que por meio da fé, coragem e trabalho ajudaram a construir o nosso país e a riqueza cultural e material de muitos povos.  


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