André Luiz da
A Derrocada da Nova República Brasileira não é culpa do Bolsonaro.
A Derrocada da Nova República Brasileira não é culpa do Bolsonaro.
Por André Luiz da Silva - Doutor em História pela UNESP e Professor Universitário
Por André Luiz da Silva - Doutor em História pela UNESP e Professor Universitário
Com o fim dos governos militares, em 1985, tivemos um momento histórico em que a direita autoritária era vista como corrupta e retrógrada. Vozes se levantavam para criticar a violência do Estado, canções como “Que País é Esse?”, “Toda forma de poder”, “Até quando esperar”. TV, rádio e jornais não poupavam críticas à repressão dos anos de chumbo. Neste contexto, a direita democrática, herdeira do MDB, e a esquerda, herdeira do trabalhismo, do comunismo e socialismo, eram alternativas à direita autoritária.
A direita democrática administrou o país por toda década de 1990, a esquerda democrática por toda a década de 2000. O que existia? Um "pacto" democrático, na falta palavra melhor. Em 2014, com impedimento da petista Dilma Rousseff, o "centrão", elo de acordos que vão da esquerda à direita, e vice-versa, trouxe à tona, por seus acordos com a mídia, os esquemas corruptos da esquerda democrática, ao mesmo tempo em que contribuiu para minar a crença no Estado de Direito, no "pacto" democrático. O resultado de uma aposta de ruptura entre direita e esquerda, que apesar dos pesares, jogavam em regras democráticas, foi ascensão da extrema direita.
O PSDB ter perdido expressividade nessas eleições não é apenas resultado da falta de carisma de Geraldo Alckimin. É a falência de um projeto de direita democrática proposto por FHC e outros que participaram diretamente do processo de redemocratização. Bolsonaro é, e sempre foi, da extrema direita autoritária, um defensor dos governos militares. O que vemos com seu crescimento em popularidade é a falência do projeto da direita democrática e de um projeto de centro esquerda orientado por Lula, Dirceu e Genoino.
Foi criado um vácuo, um vazio, Bolsonaro e o PSL ocuparam este vazio. Quem paga o preço é a democracia, alvo da descrença popular. Tanto a direita quando a esquerda são responsáveis por chegarmos ao momento em que estamos. A esquerda irá se abrigar na defesa da democracia, democratas de direta, vão se abrigar no centro, mantendo diálogo crítico com a esquerda, já as elites econômicas, midiáticas e políticas antipetistas, se aproximarão cada vez mais da extrema direita. É o momento de voltar às bases e da autocrítica.
Em meio ao contexto de disputas e acordos de oposição e situação, a dimensão econômica foi, desde os anos noventa, um misto de neoliberalismo e keynesianismo, ou seja, por um lado políticas de austeridade e privatizações adotadas a partir do Consenso de Washington, por outro, políticas públicas previstas na Constituição de 1988. A discrepância entre o que era previsto constitucionalmente e a política neoliberal marcou os governos FHC, Lula e Dilma.
Dessa forma, os governos de centro esquerda petistas ao manter-se alinhados com partidos como PMDB (hoje MDB), optou por uma política econômica que fortaleceu banqueiros, latifundiários e rentistas, apostando que a classe trabalhadora também iria crescer mediante a conciliação dos interesses com a elite econômica e política. É inegável que ocorreram avanços no campo social, e que em muitos setores houve crescimento durante os anos 2000 - 2010, mas o desgaste da democracia foi o resultado último das alianças entre partidos que foram construídos em torno de expectativas ideológicas diferentes e se envolveram em diversos esquemas de corrupção.
Os escândalos no seio do governo, expostos de maneira que beirou e continua beirando o sensacionalismo, foram trazidos ao conhecimento da população. O antipartidarismo, fruto da descrença nas instituições democráticas é resultado de trinta anos de política teatralizados, onde a política de esquerda e de direita centristas se tornou sinônimo de falta de ética e de compromisso com a gestão pública. Bolsonaro não é responsável pela derrocada da Nova República, ele é o resultado.