André Luiz da

O polêmico início de carreira política de Bolsonaro

O polêmico início de carreira política de Bolsonaro

Por André Luiz da Silva - Doutor em História pela UNESP e Professor Universitário

Por André Luiz da Silva - Doutor em História pela UNESP e Professor Universitário

Publicada há 7 anos

A chegada de Bolsonaro à condição de candidato à presidência não ocorreu da noite para o dia.  Suas atividades como político tiveram início em 1987, quando seu nome se tornou conhecido por seu envolvimento em um suposto complô de capitães denunciado pela revista Veja.


Para entender essa história voltaremos ao ano de 1986, quando o capitão Bolsonaro, então com 31 anos, escreveu o artigo de intitulado “O Salário está baixo”. O conteúdo do artigo é direto: o aumento do número de desistências entre os cadetes da Academia das Agulhas Negras era resultado dos baixos salários.

O posicionamento de Bolsonaro foi punido pelos seus superiores no Exército, sendo encarcerado em uma unidade militar por 15 dias. No ano seguinte, Bolsonaro foi citado como um dos envolvidos, junto do capitão Fábio Passos da Silva, no plano “Beco sem saída”.


A revista Veja afirmava ter entrevistado Bolsonaro e o capitão Fábio, autores do suposto plano de implantação de bombas em unidades militares com a finalidade de pressionar o governo e as forças armadas à reajustarem os salários dos militares.  As supostas declarações dos capitães à Veja foram negadas pelo Exército, após os próprios terem negado  seu envolvimento no complô.


Apesar de não ser encarado como uma posição sexista pela imprensa da época, Bolsonaro foi denunciado pela jornalista Cássia Maria por supostamente tê-la ameaçado de morte. “Cássia Maria [...] disse que aguardava na ante-sala do coronel Marcos Bechara, que preside o Conselho de Justificação, quando o capitão Bolsonaro, de outra sala, através de um vidro, fez um gesto com as mãos como se estivesse disparando um revolver contra a jornalista. Ela, então, lhe perguntou se era uma ameaça de morte. Segundo ela, o capitão respondeu que não, mas que ela “poderia se dar mal” se continuasse com esta história.”1    

    

            Bolsonaro não se tornou um fenômeno de popularidade, mas a exposição midiática e sua postura pró-militares foi suficiente para que obtivesse apoio, inclusive entre generais. Entretanto, isso não evitou que ele e o capitão Silva fossem a julgamento no Superior Tribunal Militar (STM). No tocante às denúncias realizadas pela jornalista Cássia Maria, não temos como afirmar que se existiu uma ameaça à ela, apenas que durante ela afirmou que teria sido coagida antes de prestar depoimento no STM.


Em fevereiro de 1988, ambos os capitães foram afastados por ordem do Ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, acolhendo a sugestão do Conselho de Justificação, aguardaram o julgamento que poderia levá-los a expulsão.

Mesmo após a decisão de afastamento, ambos continuaram cumprindo suas atividades como alunos na Escola Superior de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO), gerando ainda mais pressão midiática no andamento do processo. Em junho de 1988, os capitães do Exército Jair Messias Bolsonaro e Fábio Passos da Silva foram absolvidos pelo Superior Tribunal Militar.


            No final do mês de julho de 1988, Bolsonaro já se colocava como pré-candidato a vereador na cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Democrático Cristão (PDC).  Eleito, com 11062 votos, realizou sua campanha nas vilas militares e outros espaços ligados as Forças Armadas. Jair Bolsonaro, ao se colocar como defensor dos militares, muitas vezes desafiando a alta cúpula das Forças Armadas, encontrou os espaços de ação política propícios para ser eleito.


Bolsonaro iniciou sua carreira como vereador sem se envolver diretamente em esquemas de corrupção. Buscou uma neutralidade e não se lançou como uma oposição direta ao nepotismo e aos casos de corrupção envolvendo os "marajocas", se colocando contrário a CPI que investigaria seus esquemas 2. Sua postura de não empregar familiares era vista pela imprensa como algo positivo, porém não era vereador do PDC contrário abertamente a prática feita pelos demais vereadores na Casa. No caso da CPI, sua posição contrária a Regina Gordilho poderia ser motivada por esta personagem ter entrado para política e ganho muita publicidade após seu filho, Marcellus Ribas Gordilho, ter sido preso, espancado e morto por policiais. Gordilho representava uma parcela dos eleitores cariocas críticos ao autoritarismo. No mandato como vereador, Bolsonaro e seus aliados formaram uma forte oposição para Gordilho.


Bolsonaro sempre foi de candidato dos militares. Elogiado por João Figueiredo e outros nomes ligados ao exército, se dedicou a melhoria das condições salariais dos militares. As polêmicas acompanharam a atuação de Bolsonaro na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, na proporção que subia sua popularidade entres os militares. Entre as ideias mais extremadas colocadas por ele, estava o controle de natalidade como meio de reduzir a pobreza no país. Em declaração ao Jornal do Brasil, em novembro de 1989, declarou:  “Todos os candidatos à presidência da República já apresentaram seus programas para resolver ou minimizar os problemas dos brasileiros. Lamentavelmente, o principal foi esquecido, ou não tiveram coragem de expô-lo à sociedade, que é a contenção da explosão demográfica. Causa primeira de nossa miséria, seguida da corrupção.”


Em contexto em que as artes, a imprensa e a intelectualidade era a crítica ao período ditatorial no Brasil, contra o autoritarismo e em defesa da democracia, Bolsonaro encontrou seu eleitorado nas forças armadas que passavam por problemas salariais decorrentes da inflação galopante herdada dos governos militares.


O posicionamento favorável os 21 anos de “Regime Militar” nunca foi tabu para o vereador do PDC. Quando questionado pela imprensa sobre seu posicionamento referente às greves. Em uma declaração ao jornal Tribuna da Imprensa, em 1989, teria afirmado: “[...] existe um clima favorável à intervenção fruto de uma situação caótica, com algumas greves justas e outras descabidas [...] a tomada do poder pelos militares hoje não seria tão fácil como em 1964, devido à organização das centrais sindicais, que formariam verdadeiros exércitos contra as forças do governo [...]”.4


 É interessante ressaltarmos que muitas entrevistas polêmicas que circulam nas redes sociais, vistas como montagens, já eram parte de suas posições desde o início de sua carreira política. Em 1991 Bolsonaro se tornou Deputado Federal, dando início a uma nova fase em sua carreira política. O início de sua legislatura é muito significativo para entender a trajetória do atual candidato à presidência do Brasil e seus posicionamentos. Ele é filho da direita autoritária herdeira do ARENA, sua inspiração na Ditadura Militar e na defesa aberta de personagens como Coronel Brilhante Ustra não são novidade. Sua compreensão sobre a ameaça comunista e o heroísmo dos militares acusados como torturadores era compartilhado por ele pelos demais militares de sua geração, não simples releitura de pensamentos olavianos. 


Cabe a população, no exercício da democracia, entender detalhes da biografia de Bolsonaro. Ele não é uma invenção recente, ele nunca escondeu, nas décadas em que atuou na política, os seus posicionamentos, ele jamais se envolveu diretamente em escândalos de corrupção na sua atuação como vereador, ele não foi também maior defensor da abertura de investigações contra corrupção. Ele nunca foi expulso do exército. Ele não é um simples ignorante que caiu de paraquedas na política.



1             Jornal do Brasil, 19/12/1987, p.4. http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/154841.



2             Tribuna da Imprensa, 17/02/1989. Link: http://memoria.bn.br/DocReader/1540_04/39193.


3             Jornal do Brasil, 13/11/1989. Link: http://memoria.bn.br/DocReader/030015_10/204052.



4             Tribuna da Imprensa, 28/04/1989. Link: http://memoria.bn.br/DocReader/154083_04/40267.



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