HISTÓRIAS DO T

Quando a gente brincava de Sérgio Moro

Quando a gente brincava de Sérgio Moro

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos


Nunca é demais repetir e lembrar o leitor que a TV chegou por estas bandas aí por volta de 67/68, mas bem antes dela estrear aqui na terrinha, com seus filmes e seriados na telinha cheia de chuviscos e chiados, ainda em preto e branco e com chumaços de Bombril na antena interna prá melhorar a imagem. Nesse tempo a gente já havia tomado contato com os lendários heróis e vilões do faroeste, das selvas, das cidades, dos sete mares e até do espaço. Isso aconteceu através dos gibis e das inesquecíveis matinês nas tardes de domingo na telona do antigo Cine Fernandópolis.


Nessa época, a grande paixão dos meninos, motivados pelo cinema e pelos gibis, era reunir os amigos da vizinhança e brincar de bang-bang, de mocinho e bandido. Os meninos de famílias mais abastadas exibiam seus belos revólveres de plástico preto com o cabo branco, trazendo o desenho de um cavalinho, acho até que era uma imitação do famoso “Colt cavalinho”, das músicas sertanejas. Eram chiques, porque vinha o conjunto completo, com o cinturão e até um coldre, tudo de plástico, claro. Por outro lado, os meninos de famílias mais humildes tinham que se virar, fazendo seus revólveres e rifles de brinquedo com pedaços de madeira e canos de cabo de guarda-chuva velho. Todo mundo se virava bem. A meninada daqueles tempos esbanjava talento e criatividade. E não tinha essa afetação do “nós contra eles”, porque na hora de dividir as turmas, tudo era resolvido na base do “par ou ímpar”. E assim, na lógica democrática dos meninos, gregos e troianos viravam amigos e batalhavam do mesmo lado, defendiam a mesma bandeira. E quer saber? Naqueles tempos, ao nosso modo, a gente já brincava de Sérgio Moro!


Outra coisa muito boa daqueles tempos, era a feirinha de trocas de gibis que por sinal era muito concorrida e acontecia sempre antes das matinês de domingo, na calçada do Cine Fernandópolis. Havia entre os nossos amigos, aqueles que colecionavam as revistas de histórias em quadrinhos, de todos os gêneros. 


Cuidadosos e meticulosos, eles sempre procuravam um ou outro número faltante em uma coleção ou até mesmo exemplares raros. Lembro-me muito bem daquela época, inclusive de um gibi que ganhei de presente do antigo farmacêutico Osvaldo Zagati, chamado O Guri, muito raro e ainda por cima, totalmente colorido, o que também era uma novidade e tanto naqueles tempos, quando a maioria dos gibis dos anos sessenta só tinha a capa impressa em cores.


Naqueles tempos era comum colecionar gibis como O Fantasma, Mandrake, Zorro, Antar, Tarzan, Jim das Selvas, O Sombra, Batman, Super-Homem, Homem Aranha, Targo, Capitão Marvel, Capitão América, Flash Gordon, Príncipe Valente, Águia Negra, Combate, Ataque e uma centena de títulos de outros heróis dessa linha. Mas havia também os gibis de terror, todos com todos aqueles nomes assustadores e arrepiantes como Drácula,  Além,  Sobrenatural, Terror, Terror Negro, Lobisomem, A Múmia, Kripta e vai por aí. Eu tinha um amigo que era maluco por esse gênero. O camarada tinha como talismã, um chaveirinho com o molde de uma caveira, pode?. Aliás, eu sempre achei ele um cara muito estranho, prá não dizer meio esquisitão. Claro que esse gênero, não era minha praia.


Na vertente faroeste, sobravam heróis. Lembra do Zorro e Tonto, Roy Rogers, Bat Masterson, Bill The Kid, Gatilho, Aí Mocinho, Coyote, Apache e Xerife? Então, ainda havia o Tim Relâmpago, Tex Ritter, Cavaleiro Negro, Rex, Cheyenne Kid, Flecha Ligeira, Colt 45, Durango Kid, Texas, Rocky Lane, Jerônimo o Herói do Sertão, Dom Chicote, Arizona, etc. Mas será que você também se lembra dos arteiros Sobrinhos do Capitão? O Pato Donaldo, Mickey e Pateta, Tio Patinhas, não vale, até porque todo mundo lia e colecionava. Mas havia ainda Fumaça & Faísca, Pimentinha, O Gordo e o Magro, Pepe Legal, Zé Colméia, Tom & Jerry, Brasinha, Gasparzinho, Bolinha, Luluzinha, Pimentinha, Riquinho, Ferdinando, Pernalonga, Frajola e Piu-Piu, Pica-Pau, Turma do Pererê, Popeye, Príncipe Submarino, Peninha, Professor Pardal, Ludovico, Recruta Zero, enfim, a lista de títulos é quilométrica.


Eram leituras interessantes que não deixavam de passar uma mensagem educativa, porque desde muito cedo aprendemos aquela máxima; “o crime não compensa!”. Outra coisa importante era que toda história em quadrinhos, fosse ela de bang- bang, de aventura, ação ou mesmo comédia, sempre tinha um fundo moral e passava valores importantes, que ajudavam na formação de crianças e jovens daquela época. Era também uma maneira de se desenvolver a linguagem e a socialização através da leitura, até porque naqueles tempos bicudos, os livros, além de raros, também eram muito caros. E mais, a gente sabia que aquilo tudo era apenas uma brincadeira sadia. Mesmo brincando de bang-bang, ninguém da nossa turminha, ninguém que eu conheça ou me lembre, se tornou violento ou virou criminoso. Não sei se por intuição ou pela educação rigorosa que tivemos, a gente sabia muito bem separar o bem do mal e ficção de realidade. Semana que vem tem mais. Até lá.

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