“A carapaça serve para protegê-lo e tem a cor azul para representar o céu e a água do país. Além disso, Fuleco gosta de dançar e comemorar seus gols. Seus ídolos são Pelé e Ronaldo Fenômeno”. Assim definiu a FIFA, entidade que comanda o futebol mundial, ao se referir ao mascote da Copa do Mundo de Futebol de 2014, realizada no Brasil.
Fuleco (fusão das palavras futebol e ecologia), representa o tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), que, quando ameaçado, tem a habilidade de curvar-se sobre si mesmo, lembrando o formato de uma bola. Mamífero, genuinamente brasileiro, vive na Caatinga e no Cerrado.
No dia 30 de outubro de 2018, o tatu-bola foi lembrado novamente no que é considerado o mais completo levantamento sobre o estado da vida no planeta, o “Relatório Planeta Vivo 2018” (Living Planet Report, em inglês), publicado a cada dois anos pelo prestigiado Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature, WWF, sigla em inglês). De acordo com o documento, o tatu-bola está ameado de extinção, além de outros exemplares da fauna nacional, como a jandaia-amarela (uma bela ave, parente do periquito, que vive na Amazônia), o uacari (macaco encontrado na Amazônia brasileira), o boto (um tipo de golfinho) e o maior macaco brasileiro, o muriqui ou mono-carvoeiro, que vive em fragmentos de Mata Atlântica nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. Animais de outras partes do planeta também foram destacados, como os elefantes da Tanzânia, cuja população sofreu redução em 86%, desde a década de 1970.
Com relação à preservação dos biomas brasileiros, as notícias não são nada animadoras. Do ano de 1970 até o presente momento, foram devastados 20% da Amazônia e 50% do Cerrado. No total, foram perdidos 80 mil Km2 da cobertura original da savana brasileira (como é conhecido o Cerrado), e 50 mil Km2 da Amazônia, a maior floresta tropical úmida do mundo. Além de prejuízos incalculáveis para a biodiversidade, segundo o relatório da WWF, o impacto ambiental nesses dois importantes biomas prejudica a oferta de água doce para os brasileiros, pois abrigam os maiores mananciais hidrográficos do país.
Na conclusão do documento há o destaque de que as atividades humanas estão levando os sistemas naturais ao limite, de modo que alguns ecossistemas poderão, em breve, entrar em desequilíbrio ambiental irreversível, como a Floresta Amazônica, por exemplo.
Com base nessa realidade, deve-se sempre priorizar o desenvolvimento sustentável, aquele que alia o progresso à preservação ambiental, pois, até as pedras do caminho sabem que a devastação do meio ambiente não afeta apenas os animais da floresta, mas também a saúde pública, o agronegócio e a economia mundial.
Está provado que os prejuízos são maiores se não respeitarmos a natureza. Problemas de saúde pública (surtos epidêmicos de leptospirose, por exemplo), na agricultura (surgimento de pragas, erosão, dentre outros) e no abastecimento de água para as cidades e as lavouras (recorrência de estiagens), estão intimamente relacionados à devastação dos sistemas naturais. Vamos a um exemplo: um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP), reportado no dia 08 de novembro de 2018 no jornal O Globo, revelou que a polinização das flores pelas abelhas gera uma economia de 12 bilhões de dólares, por ano, à agricultura brasileira. Detalhe: dos 141 produtos agrícolas cultivados no país, 85 dependem da polinização efetuada por esses insetos. Já imaginaram o prejuízo causado ao setor agrícola nacional caso as abelhas desaparecessem por conta da utilização indiscriminada de inseticidas nas plantações? A aplicação de inseticidas nas lavouras pode não matar apenas insetos-praga, mas também os polinizadores, como abelhas e vespas.
Enfim, como o Brasil apresenta a maior biodiversidade do planeta (mais de 20% do número de espécies da Terra), sempre terá destaque nas discussões dos grandes problemas ecológicos. Por isso, as estratégias de proteção ao meio ambiente, praticadas por aqui, devem ser tratadas como “sagradas” políticas de Estado, atravessando governos sem guinadas que levem ao retrocesso (recado aos eleitos que governarão a máquina pública a partir de 2019). Nesse contexto, a nossa responsabilidade é grande, pois os problemas ambientais brasileiros sempre preocupam o mundo.
E o nosso mascote, o Fuleco? Como todos sabem, não deu sorte a seleção brasileira na Copa do Mundo de Futebol de 2014, que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, mas, se as agressões ao meio ambiente se sobreporem aos projetos de desenvolvimento sustentável, o tatu-bola (o Fuleco da vida real), poderá desaparecer junto com o bem mais precioso do planeta - a biodiversidade – e, nesse quesito, o Brasil é campeão mundial.
P.S.: seguem alguns exemplos de agressões ao meio ambiente: poluição dos rios; ausência de saneamento básico; substituição de florestas por pastagens para o gado e cultivo de monoculturas; corte de árvores que não sejam de reflorestamento, para obtenção de madeira; ocupação de terras de comunidades tradicionais que vivem em harmonia e protegem os ambientes naturais, como os indígenas e os quilombolas, a fim de ampliar as fronteiras agrícolas; derrubada de matas ciliares, uma prática que provoca assoreamento dos rios; ocupação irregular do solo, que causa inundações nas cidades, além de deslizamentos de terra, que provocam desastres e mortes humanas na época de chuvas; utilização indiscriminada de defensivos agrícolas que ocasionam desequilíbrio ambiental e contaminam os alimentos com agrotóxicos; lançamento de lixo nos oceanos, principalmente os plásticos, o que afeta diretamente a vida marinha; pesca predatória e caça ilegal de animais; emissão de gases estufa na atmosfera, fonte causadora do aquecimento global, e destruição dos hábitats, uma das maiores causas de extinção de espécies animais e vegetais.